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Trabalho e saúde – a luta continua

Ontem foi Dia do Trabalho, que marca uma reflexão sobre a luta de muitos trabalhadores. Pela luta coletiva conquistamos férias, licença maternidade, redução da carga horária e outros benefícios. Lembrando que os direitos básicos ainda estão sendo barganhados pelos “entregadores de aplicativos”, o que nos mostra como a luta permanece pela ampliação dos direitos conquistados e manutenção deles.

Essa luta antiga, iniciada de forma mais sistemática no final do século XIX cuja o lema ter condições de “sobreviver no trabalho”, visto que o índice de mortes pela insalubridade nas fábricas era algo recorrente; a mudança das reivindicações na idade moderna mudou para a busca por “melhoria das condições de trabalho” como ocorre no movimento realizado em maio de 1968 na França, no qual a classe trabalhadora junto com os estudantes foi para a rua reivindicar melhores condições para “viver” (Dejours, 2015/1987).

Para o psicanalista e psiquiatra Dejours, trabalhar é lidar em um primeiro momento com o fracasso de estar aprendendo algo novo, como manusear, descobrir o ritmo para fazer, entre outras coisas. Suportando este processo de errar e acertar, o trabalho pode promover um espaço de desenvolvimento de nossas habilidades, nos permitir descobrir novos interesses e construir novas relações e descobrir potenciais. Além disso, ele dirá que o trabalho requer um engajamento subjetivo para “experimentar a resistência das relações sociais na implantação da inteligência (motora, cognitiva etc.) e da subjetividade (o sentido daquilo, a emoção que causa, o prazer o desprazer, etc) (Dejours,2012).

Para ajudar a pensar o trabalho de forma saudável o autor nos apresenta, em seus textos, a importância da empresa respeitar o ritmo do trabalho de cada pessoa e ter espaço para sua criatividade em realizar a tarefa.

Uma das formas de adoecimento pode surgir quando um trabalho exige que a pessoa realize todas as etapas de um único jeito, isto anula “os comportamentos livres” e exclui a singularidade da pessoa. Isso é comum em trabalhos muito repetitivos como ficou marcado no filme tempos modernos do Charlie Chaplin, que tinha uma rotina muito definida. Curiosamente, hoje isso é comum em atividades antes ditas complexas, como dar aula, fazer uma avaliação médica, dependendo do ritmo que a instituição impõe não é difícil observar profissionais despersonalizados após dias seguidos repedindo pela manhã e noite praticamente a mesma coisa.



Negligenciar estes aspectos pode desencadear a síndrome de burnout, uma doença de estresse crônico relacionada ao trabalho, que tem sido cada vez mais frequente e pode levar a: distanciamento das relações pessoais; diminuição do sentimento de realização pessoal de concentração; sensação de esgotamento , alterações de memória (evocativa e de fixação); lentificação do pensamento; sentimento de solidão; impaciência; sentimento de incapacidade; oscilação emocional; baixa autoestima, entre outros.



Considerando que, infelizmente, o desemprego permanece alto, não tem sido fácil para muitas famílias lidar com a ausência da renda e também com as pessoas que estão sofrendo com a perda de seu trabalho, que proporcionava a autonomia financeira, a relação com os colegas, entre outros aspectos. É comum encontrar pessoas que estão fazendo todos os passos sugeridos (cursos, estudar, enviar currículo, etc) mas sentem que não estão fazendo nada, vivenciam uma autocobrança que desconsidera o contexto que estamos vivendo e os passos possíveis dados.

Diante de situações assim, o que podemos fazer é reconhecer a dificuldade, buscar levantar os obstáculos, tentar ajudar a encontrar alternativas que não fiquem restritas ao vínculo empregatício, verificar se precisa de apoio para pesquisar e divulgar de outras formas seu currículo, e apoiar a pensar outras alternativas, coisas que pode ter interesse em fazer, cursos que podem ajudar e fazer conhecer outras pessoas, até mesmo quem sabe gerar outras formas de renda.

A pandemia provocou muitas mudanças na vida das pessoas, além da perda de pessoas queridas e medos do adoecimento, muitas pessoas perderam trabalhos e foram encontrando outras formas de renda. Ter outras possibilidades de complementar a renda, não dependendo apenas de um emprego formal tem sido algo cada vez mais necessário dentro de um mundo do trabalho repleto de tantas incertezas.

A soluções para o problema do desemprego ou mesmo pelas condições precárias do trabalho, que podem vir disfarçadas de ótimos benefícios e acompanhadas por um alto índice de absenteísmo em um determinado ambiente, e que as pessoas são cobradas a trabalhar em ritmos frenéticos ao ponto de ficarem dias sem dormir e descansar, tudo isto só se transforma por meio da busca por soluções coletivas, é buscando diálogo com outros profissionais que conseguirmos observar a diferença nos ritmos e forma de gestão, pode ajudar a entender quando algo está ultrapassando os limites.

Pessoas que desenvolvem trabalhos de liderança em escolas, empresas ou mesmo órgãos públicos, precisam ter espaços para compartilhar sua sobrecarga e suas dificuldade. Muitas vezes a ausência da troca em uma ambiente favorável pode gerar a sensação de que toda a responsabilidade pelos problemas do ambiente escolar, da situação econômica da empresa ou mesmo as limitações financeiras do recurso público é um fracasso individual do gestor.

Em minha experiência atendendo pessoas que sofriam por questões relacionadas ao trabalho ou a sua ausência em um coletivo de psicanalistas do Projeto Laborar, observei que não é difícil ao escutar profissionais de um mesmo setor sofrimentos semelhantes, que quando identificados no coletivo tem mais chances de encontrar soluções que exigem mudanças no próprio setor, ou mesmo uma compreensão do que é de fato uma responsabilidade individual e do que é da responsabilidade do estado ou da instituição.

Quero deixar aqui a minha homenagem a todos os coletivos que resistem na luta pelos direitos. O trabalho digno é um direito de todos, que possamos permanecer na luta por melhores condições.



Escrito por Michele Gouveia é Psicanalista, Psicóloga Clínica e Consultora de Carreira, mestre em Psicologia Social e Especialista Clínica em Psicanálise e Linguagem. E-mail: michelegouveia.psi@gmail.com,site: https://michelegouveia27.wixsite.com/michelegouveia/publicacoes

Referências:

DEJOURS, C. (2012). Trabalho vivo: trabalho e emancipação. Brasília, Paralelo 15, 2 vols.

DEJOURS,C. (2015/1985) A Loucura do Trabalho. São Paulo: Cortez-Oboré.

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