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Guerreira é a Xena, eu estou é cansada

“São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. Art.6º da Constituição Federal.

O DSM-V, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, traz em suas 992 páginas a descrição de diversos sintomas classificados em 22 tipos de transtornos mentais (transtornos do neurodesenvolvimento, espectro da esquizofrenia, transtornos alimentares etc). Canguilhem (1978) traz, a partir de um conceito de normalidade funcional, que tais sintomas passam a ser uma psicopatologia quando produzem sofrimento à própria pessoa ou ao seu grupo social. Se gera sofrimento, demanda tratamento e cuidado, que devem ser ofertados e garantidos pela família, pelo Estado e pela sociedade.

Alguns transtornos mentais podem ter um prognóstico de remissão dos sintomas, como no caso do transtorno depressivo ou do transtorno de estresse pós-traumático. Outros transtornos são condições de existência, como o Transtorno de Espectro Autista (TEA): desde 2012 a pessoa com TEA passou a ser considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais, visto seu caráter permanente.

Muito do nosso comportamento religioso tem origem na falta de explicação que faça sentido, principalmente em relação a coisas que não podemos controlar, como por exemplo os desastres naturais. O comportamento religioso também se mantém como uma forma de diminuir a raiva ou o sentimento de injustiça: “foi porque Deus quis”. Buscamos, com isso, acalentar nossa própria angústia, para ter forças para continuar. Diferentemente das doenças que tem um agente externo como causador, os transtornos mentais não possuem profilaxia, ou seja, não há como se prevenir. São coisas que acontecem e que a ciência ainda não conseguiu prever ou controlar. Aos cientistas, cabe pesquisar. Às mulheres, destina-se o cuidar, cuidado esse que demanda grande parte ou todo o seu tempo.

“Deus não dá fardo maior do que aquele que podemos carregar”. Com essa frase, perpetuamos o trabalho invisível das mulheres que dedicam suas vidas ao cuidado do outro. Criamos o mito da “mãe guerreira”, da “mulher que dá conta”, mas não queremos ouvir suas histórias sobre a exaustão que quase leva ao enlouquecimento. Além das mães, temos também as filhas e netas, que cuidam de idosos, doentes, pessoas acamadas e com dificuldade de locomoção. Tecemos elogios, aplaudimos para incentivar o cuidado, julgamos o abandono e condenamos a negligência. Mas, caso a mulher reclame, respondemos com violência “ninguém mandou engravidar” ou “a filha deve cuidar dos pais”, gerando culpa e sofrimento, diariamente silenciado. Sendo o cuidado um “fardo”, não seria justo que fosse dividido, compartilhado? O que estamos fazendo enquanto Estado e Sociedade?

Nos últimos 30 dias, foi pauta da Câmara Municipal de Registro/SP a problemática do transporte escolar para a APAE. Também neste período, milhares de pessoas se posicionaram contra o rol taxativo da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), que inviabiliza o acesso a diversos tratamentos atualmente custeados pelos convênios médicos, prejudicando pessoas com deficiência, com câncer ou com doenças raras. Ambas as situações revelam como as políticas públicas estão presentes no cotidiano e na rotina de cuidados da mulher para com os seus familiares.

Percebemos, dessa forma, que o mito da “guerreira” cumpre duas funções: a primeira, a função de desonerar o Estado e a sociedade a assumirem sua responsabilidade no cuidado com as pessoas. Nossa sociedade é meritocrática e pautada no lucro; na lógica do capital, os investimentos são realizados de acordo com o retorno financeiro que eles promovem. A segunda função é a exclusão das pessoas idosas, com transtornos mentais ou com deficiência, reclusas em seus lares, distantes das ruas, desobrigando a sociedade a realizar as adaptações necessárias. E, para isso, usa do trabalho não remunerado das mulheres, que dedicam mais do que precisam, deveriam ou gostariam para tentar dar conta dos cuidados com a família.

Neste mês de março assistimos a um deputado estadual ir a um país em guerra e reproduzir falas que corroboram com o predadorismo sexual, evidenciando o lugar que quer destinar às mulheres: a servidão. No Dia Internacional da Mulher, o que queremos não são apenas elogios ou frases acolhedoras. O que precisamos é de políticas públicas e de instituições responsáveis que valorizem e dividam o cuidado, e garantam o acesso aos direitos sociais citados no art. 6º da Constituição Federal. Precisamos também de espaços de convivência para idosos e pessoas com deficiência que sejam seguros e saudáveis, com estrutura adequada, que possibilitem às mulheres um tempo para cuidar de si e de sua saúde. Fortalecidas, podemos nos unir em prol da construção de um mundo melhor para nossas filhas. Feliz dia, mulheres.

Guerreira é a Xena, eu estou é cansada


Carla Cristina Kawanami, CRP 06/96109, é psicóloga escolar do Instituto Federal São Paulo (IFSP) campus Registro, graduada pela USP e Mestre em Educação: Psicologia da Educação pela PUC SP.

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