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Marujá











Roberto Fortes

Maruja, palmo de praia incrustada na Ilha do Cardoso, banhada pelo Atlântico. Santuário ímpar que a natureza criou e se conserva intacto como nos tempos primeiros do descobrimento. Berçário de vida que fascina e nos domina o espírito, encantando-nos com a sua beleza selvagem, primitiva.
Marujá
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No Marujá nada se programa, tudo acontece. Nada de esquemas, nada de regras. Tudo tem seu momento certo para acontecer. Nem mesmo a demorada viagem é pretexto para não se conhecer esse paraíso. Quem vai pela estrada do Ariri é obrigado a percorrer cerca de 60 km de chão batido, passando pelas serras e pelos rios encachoeirados.

Na aprazível Vila do Ariri, pega-se um barco e, no máximo em meia hora, chega-se no Porto do Maruja. Já quem parte de Cananeia, leva perto de 3 horas para atingir a ilha. Mas, sem duvida, a viagem é compensadora. Tanto por Ariri quanto por Cananeia, é um passeio inesquecível, atravessando-se os manguezais e os inúmeros canais do Mar Pequeno.

No Marujá a natureza se fez pródiga. De um lado o Mar Pequeno com seus manguezais repletos de vida. Do outro lado o Atlântico, com suas águas verdes, a nos convidar para um refrescante mergulho. Sua praia é de rara beleza, água clarinha, dá para se ver o fundo de tão limpa. Atrás, avulta-se a serrania, onde se aglomeram grandes blocos de pedras que se soltaram das fraldas da montanha.

Bem em frente à serra, a histórica Ilha do Bom Abrigo (onde Martin Afonso aportou em 1531) e seu interessante farol. Filetes de água cristalina, deliciosa, escorrem generosos do seio da montanha, fria como o gelo, líquido providencial que sacia a sede sob o imenso calor que reina absoluto nessa ilha paradisíaca.

Depois de passar o dia inteiro na praia nada como um refresco ou uma água gelada nos comércios da vila, como o do Ezequiel, ao lado do Mar Pequeno, ou o do Celestino, bem na beira da praia, ou ainda o do Expedito, que também é a única mercearia do lugar.

Hora ou outra, mestre Expedito pega o violão, dedilha alguns acordes com rara habilidade e canta o seu belo “Hino do Marujá”, explosão de pura poesia, versos simples, mas repletos de vida, cheirando a sal e mar.

Ir até ao Maruja e não conversar com o velho e sábio caiçara seu Paulo, é como perder a viagem. Ao longo de seus muitos anos de vida inteiramente vividos na ilha, a calma invejável e plácida serenidade, seu Paulo vai desfiando causos dos tempos de antanho, verdadeiras pérolas do folclore local, ouvidas com atenção pelo espectador fascinado.

Na hora da partida, um aperto no coração, alguma coisa de tristeza. Mas um sorriso estampado nos lábios denuncia as emoções vividas e nos dá a certeza de voltar nas férias do próximo ano.

(Esta crônica foi escrita em 1994 e publicada num jornal da região. Nunca mais voltei ao Marujá. Espero qualquer dia lá retornar).