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Pequena história de Jacupiranga


     



AS ORIGENS

O primitivo povoado de Botujuru (do tupi: “ÿbytú-yuru” = boca do vento) nasceu junto à barra do rio Canha, ao longo do rio Jacupiranga, cujo sítio presume-se tenha sido ocupado por um aldeamento de indígenas. Somente por volta de 1864 é que o cidadão português Antônio Pinto de Magalhães Mesquita, vindo de Iguape, apareceu no local e abriu uma casa comercial, dando grande impulso para a fundação do povoado, auxiliado por Hildebrando de Macedo, Manoel Pinto de Almeida, Francisco de Lara França e outros pioneiros.


 Pequena história de Jacupiranga
 Pequena história de Jacupiranga



Unidos pelo mesmo ideal, decidiram construir uma capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, cuja imagem foi doado por Hildebrando de Macedo, que ficou sendo a padroeira. 

Assim, já em 1870, através da Lei nº 56, de 5 de abril daquele ano, o povoado era elevado à categoria de Freguesia, dentro do município de Iguape, tendo a sua denominação alterada para Jacupiranga (do tupi: “ÿacu-piranga” = jacu do peito vermelho; ave da família dos crácidas).

Com o passar dos anos, e com o aumento da população, a pequena capela já era insuficiente para acolher os fiéis. Assim, o fundador Magalhães Mesquita, auxiliado pelo padre Domingos Rossi e outros, empreenderam a construção de um templo maior, que foi solenemente inaugurado em 1888.

Em novembro de 1877, era instalada na freguesia uma agência do Correio, indicativo que a incipiente povoação crescia a cada dia e se fazia respeitar no Vale do Ribeira.

Em 12 de junho de 1887, inaugurou-se a primeira linha de navegação a vapor, com a lancha “Ondina”, dirigida por Domingos de Almeida Santos (Domingos d´Ondina), que fazia a ligação entre Iguape e a barra do rio Capinzal, prosseguindo daí em diante com canoas. 

No início do século XX, apareceu no lugar o capitão Miguel Abu-Yaghi, que deu  grande impulso para o desenvolvimento de Jacupiranga, tendo sido um dos líderes do movimento pela emancipação. 

Abu-Yaghi nasceu no Líbano em 1875, imigrando para o Brasil aos 22 anos, estabelecendo-se, a princípio, em Iporanga, onde casou-se, aos 25 anos, com uma brasileira. Mais tarde, mudou-se para Iguape, onde abriu um comércio, até que optou por se fixar definitivamente em Jacupiranga.


 Pequena história de Jacupiranga
 Pequena história de Jacupiranga

A BANDA JACUPIRANGUENSE

No dia 4 de maio de 1896, era fundada a Sociedade Musical 3 de Maio  Jacupiranguense, composta por músicos amadores da Freguesia de Jacupiranga. 

Por ocasião de seu segundo aniversário, ocorrido em 4 de maio de 1898, a freguesia  amanheceu sob os acordes da banda que, ao estrugir de rojões, percorreu as ruas do local. O povo todo saiu à praça para assistir ao espetáculo. 

À noite, realizou-se pomposa soirée, à qual compareceu a fina flor da sociedade  jacupiranguense de então, tendo antes sido proferido um belo discurso pelo cidadão Manoel Francisco da Rocha, que exaltou as qualidades da sociedade musical.

AS FESTAS RELIGIOSAS

Festas religiosas memoráveis eram realizadas antigamente na freguesia, como a da padroeira Nossa Senhora da Conceição e a do Divino Espírito Santo.

No dia 6 de  novembro de 1901, chegava na vila o novo padre Victorio Maria Peyla, que imprimiu maior brilhantismo a essas festas.

Já no dia 8 de dezembro daquele ano, após a Festa da Padroeira, a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição elegeu seus membros para o ano de 1902, sendo escolhidos:  para provedor, o capitão Francisco Lauriano Franco; para tesoureiro, o capitão Antônio  Augusto de Oliveira Muniz; para procurador, o capitão Manoel Pinto de Almeida; e para  secretário, José Roberto Fuschini Filho. Nesse mesmo dia, era empossado José Eleutério de Macedo como festeiro para o ano de 1902 da Festa do Divino Espírito Santo.

Também em dezembro de 1901, foram terminadas as obras do forro da Matriz, executadas mediante uma subscrição realizada entre os próprios membros da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição, sendo uma iniciativa do padre Victorio Peyla.

Nesse ano de 1901, o subdelegado de polícia era o tenente Antônio Sant'Anna  Ferreira e o comandante do destacamento militar era João Manoel Jorge, que zelaram pela ordem das festividades.

No ano de 1906, o Bispado concedeu provisão para se fazer a Festa de São Pedro na Freguesia de Jacupiranga, que se tornou uma das mais famosas da época.

Em 1925, a Igreja Matriz passou por uma grande reforma, realizada devido aos esforços do capitão Miguel Abu-Yaghi, que era o tesoureiro da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição.

AS FESTAS CÍVICAS

As festas cívicas sempre foram comemoradas com muito brilho na freguesia. Como a festa realizada no dia 13 de maio de 1906, em comemoração à Lei Áurea. A solenidade teve lugar na escola local, dirigida pelo professor Alfredo Ferreira, sendo realizada uma sessão solene sob a presidência do juiz de paz da Freguesia, capitão Manoel Pinto de  Almeida. 

Ao ser aberta a sessão, a banda musical do Club Jacupiranguense 24 de Dezembro executou o seu hino. Em seguida, os alunos cantaram o hino "Os Filhos de Jacupiranga", de autoria do professor Alfredo Ferreira, que em seguida proferiu eloquente discurso sobre a data. 

Discursaram, ainda, o capitão Júlio de Aquino, o capitão Francisco Lauriano Franco, o cidadão José Alves Diniz e o aluno Aquino José de Macedo.

OS VELHOS CARNAVAIS

O carnaval de 1920 foi um dos mais animados de todos os tempos. Naquele ano, era fundado o grupo carnavalesco Aurora, do qual faziam parte Francisco de Lima Júnior,  Angelo Giglio, Agostinho Ribeiro da Motta, Henrique Darvidoski, João Victor e Januário  da Silva. 

O grupo Aurora, auxiliado pelo comércio local e por dezenas de rapazes, apresentou, durante os dias da folia, belos préstitos carnavalescos. Desfilaram artísticos carros alegóricos, principalmente na terça-feira, quando foram apresentados três carros: um representando o comércio, outro a navegação marítima e o último em forma de borboleta. 

Os desfiles foram abrilhantados pela banda musical da vila, que executou lindos dobrados de seu vasto repertório. O povo, ao passar o desfile pelas ruas e praças, atirava confete, enquanto as senhoras e senhoritas espargiam flores nos carros. Veio até gente da Colônia de Pariquera-Açu. 

Na noite de terça-feira, foi realizado o “enterro” do Carnaval, sendo celebrante dos “funerais” o padre José Diniz Júnior, que provocou muitas gargalhadas entre os presentes.

No grande salão do Hotel Progresso, situado na Praça Coronel Mesquita, onde se encontrava a fina flor da sociedade local, dançou-se animadamente até a meia-noite em ponto, quando todos os foliões se retiraram satisfeitos.

O CORONEL JEREMIAS JÚNIOR E JACUPIRANGA

Em 1920, existiam em Jacupiranga 128 crianças em idade escolar e há muitos anos não existia na vila escola estadual provida de professor.

Em sessão de 10 de março de 1920, na Câmara de Iguape, o vereador Jorge José de Lima, representante do distrito de Jacupiranga, indicou que a Câmara iguapense solicitasse ao secretário do Interior a criação de uma escola estadual para ambos os sexos na vila.

Assim, naquele mesmo ano, o coronel Jeremias Júnior, de Iguape, que era o chefe político da região, conseguiu junto ao Governo do Estado a criação de quatro escolas estaduais, sendo três em Jacupiranga e outra na Barra do Capinzal. O lendário coronel iguapense ainda conseguiu o auxílio de quatro contos de réis anuais para a subvenção do serviço de navegação em canoas entre o porto da vila e a estação fluvial da Barra do  Capinzal. 

O coronel Jeremias Júnior, anteriormente, valendo-se de sua influência junto ao Governo do Estado, já havia conseguido vários melhoramentos para Jacupiranga, como:   canalização de água potável; restabelecimento do Núcleo Colonial de Pariquera-Açu (vinculado a Jacupiranga, que se achava emancipado e abandonado pelo poder estadual; verbas para as estradas ligando a  vila com as localidades vizinhas; linha telefônica; e, principalmente, reserva de uma cadeira  de vereador na Câmara de Iguape para um representante de Jacupiranga.

O TEATRO “FLOR DE JACUPIRANGA”

No dia 7 de dezembro de 1920, estreava o Teatro “Flor de Jacupiranga”, fundado pelos senhores Antônio Mathey, Angelo Giglio e Henrique Doldoski, que contaram com o auxílio do comércio local. A peça inaugural foi o drama em três atos intitulado "Ricardo Nolfork".

No dia seguinte, foi realizado um espetáculo infantil, no qual tomaram parte as professoras Hortência Mathey e Maria da Glória Nogueira, além de muitas meninas, que apresentaram vários espetáculos, destacando-se o comovente drama “Anjo dos Pobres”. Todas as peças contaram com grande concorrência de espectadores.

A LUTA PELA EMANCIPAÇÃO

Antes de sua emancipação, o distrito de Jacupiranga era administrado por  subprefeitos, que deviam obediência à Câmara de Iguape. Eram personalidades  representativas da vila, políticos de envergadura que marcaram época, como Miguel Abu-Yaghi, Francisco de Freitas Garcia e Jorge José de Lima, que administraram a subprefeitura local por várias vezes.

No ano de 1926, o subprefeito de Jacupiranga era o capitão Miguel Abu-Yaghi, que  já tinha ocupado esse cargo por várias vezes. O presidente do Partido Republicano local era o capitão Bernardo Ferreira Machado, e desse diretório político faziam parte, entre outros, os cidadãos Victorio Zanon e Jorge José de Lima.

 Jacupiranga era uma vila que crescia a cada dia e já estava na hora de possuir autonomia, desligando-se de Iguape. 

Foi então que no dia 7 de julho de 1926, esses políticos foram até Iguape para discutir com os vereadores iguapenses sobre a emancipação do distrito. A Câmara de Iguape, presidida pelo capitão José de Sant'Anna Ferreira, recebeu com bons olhos os clamores do povo de Jacupiranga e se mostrou favorável à autonomia, reconhecendo que o distrito preenchia todos os requisitos legais para a emancipação.

A PRIMEIRA ELEIÇÃO
     
O município só seria criado pela Lei nº 2.253, de 29 de dezembro de 1927. Assim, foram marcadas as primeiras eleições municipais para o dia 24 de fevereiro de 1928, quando o povo do lugar elegeu os vereadores para a composição da primeira Câmara Municipal. Foram eleitos: Jorge José de Lima, Miguel Abu-Yaghi, Fructuoso Moreira de Lima, Eduardo Brasileiro de Macedo, Estanislau Cugler e Máximo Zanella, estes dois últimos representando a Colônia de Pariquera-Açú, que ficara pertencendo ao novo município. 

Como naquele tempo ainda não era realizada eleição direta para a escolha do prefeito e vice-prefeito, os vereadores escolheram para esses cargos, respectivamente, Miguel Abu-Yaghi e Eduardo Brasileiro de Macedo. O município só seria instalado no dia 23 de junho de 1928, quando tomou posse a primeira Câmara eleita.

O CARNAVAL DE 1929

Esse foi o primeiro Carnaval realizado após a instalação do município. Foram três dias e três noites de muita folia. No domingo, 10 de fevereiro, às 14 h, o povo se reuniu na residência de Simeão de Lima para organizar os cordões e dar início às festas     promovidas pelo Club União. 

Os cordões, formados por jovens e velhos, desfilavam pelas ruas da cidade entre risos, cantos, confetes, lança-perfumes e serpentinas, onde se destacavam belas senhoritas fantasiadas, além de automóveis previamente enfeitados. Também desfilaram automóveis do distrito de Pariquera-Açu, conduzindo muitos foliões fantasiados. 

Na terça-feira, um carro alegórico confeccionado por Ladislau Silva percorreu as ruas da cidade, representando dois cisnes puxando uma barquinha onde estavam três meninos vestidos de marinheiros. Desfilou ainda um carro representando um aeroplano feito por Flaviano de Lima. 

Esse primeiro Carnaval do município autônomo muito deveu aos esforços dos populares carnavalescos: Roqueira, Gaivota e Chico Orangotango.

A VISITA DO CÔNSUL DO JAPÃO

Em 7 de maio de 1929, Jacupiranga recebeu a visita do cônsul geral do Japão, Seiichiro Nakashima, que residia em São Paulo. Nakashima foi recepcionado no Hotel Saxônia pelas autoridades locais e pelas de Pariquera-Açu. 

Entre os que recepcionaram o cônsul estavam: o prefeito Miguel Abu-Yaghi; o presidente do Partido Republicano Paulista local, capitão Bernardo Ferreira Machado; o presidente da Câmara Municipal, capitão Jorge José de Lima; o delegado de polícia, João Berranger Martins; o juiz de paz, Angelo Giglio; e muitas outras pessoas importantes de Jacupiranga. 

O cônsul visitou também Pariquera-Açu, Registro e Iguape.

O PRIMEIRO ANIVERSÁRIO DE EMANCIPAÇÃO

No dia 23 de junho de 1929, realizou-se o primeiro aniversário da emancipação de Jacupiranga. Ao amanhecer daquele dia, a população foi despertada pelo espocar de foguetes e pela banda de música local a percorrer as principais ruas da cidade, que  amanheceu toda embandeirada, com o pavilhão nacional tremulando na fachada da Câmara Municipal e nas demais repartições públicas. 

À tarde, a banda musical, professores e alunos foram até a Câmara para cumprimentar os representantes do município. Em seguida, realizou-se sessão solene na Câmara, onde discursaram seu presidente, o capitão Jorge José de Lima, o prefeito Miguel Abu-Yaghi, o vice-prefeito Eduardo Brasileiro de Macedo e o secretário da Câmara, José Leão de Lima. Falaram também jovens estudantes. 

À noite, no salão da Câmara, foi promovido um grande baile, oferecido ao povo pela municipalidade, que foi prestigiado, inclusive, por importantes pessoas de Pariquera-Açu,

A REVOLUÇÃO DE 1932

A epopeia constitucionalista de 1932 também teve a participação heróica de revolucionários de Jacupiranga, que se revestiu do mesmo ardor cívico que inflamou todo o povo paulista, irmanado contra a ditadura de Getúlio Vargas.

A população contribuiu com diversos donativos, como jóias, anéis, colares e outros objetos preciosos, que seriam destinados a auxiliar a campanha paulista pela constitucionalização do país.

Entre os muitos bravos e destemidos jovens jacupiranguenses que lutaram na revolução, estavam, entre outros: Durvalino Martins, Valdo de Lima, José Vicente, Miguel de Oliveira Muniz e Francisco Collaço.

FATOS IMPORTANTES

Folheando antigos jornais editados em Iguape, consegui coligir alguns tópicos interessantes para a história de Jacupiranga:

No ano de 1869, o Governo da Província resolveu criar uma subdelegacia na povoação de Botujuru.

Em dezembro de 1901, eram terminadas as obras do porto de embarque e desembarque da freguesia, grande melhoramento mandado executar pela Câmara de Iguape.

No mês de maio de 1906, apareceu na vila o engenheiro Dr. Jonas Novaes, da Superintendência de Obras Públicas, para tratar da construção de uma estrada que ligasse Jacupiranga a Cananeia.

Em 1916, era professor municipal da escola masculina Querino Pergentino Giglio.

Em 12 de setembro de 1916, a Câmara de Iguape, atendendo à indicação do vereador Floramante Giglio, autorizou o subprefeito do distrito de Jacupiranga a dar início ao muro do antigo cemitério.

No ano de 1917, em Jacupiranga foram registrados 166 nascimentos, 21 casamentos e 215 óbitos.

No dia 30 de janeiro de 1919, falecia, aos 70 anos, o capitão Manoel Pinto de Almeida, que exercia o cargo de 1º juiz de paz há mais de 12 anos, sendo presidente do diretório do Partido Republicano de Jacupiranga e provedor da Irmandade de Nossa Senhora da Conceição. Prestou relevantes serviços públicos e muito contribuiu para o     progresso da vila, onde era respeitado chefe político.

A 22 de agosto de 1921, o saudoso bispo de Botucatu, D. Lúcio Antunes de Souza, visitou Jacupiranga, sendo recebido festivamente pela população.

Em 29 de novembro de 1925, eram eleitos os 1º e 2º juízes de paz do distrito, Bernardo Ferreira Machado e José Siedlarczykc.

No dia 11 de dezembro de 1926, falecia o professor Jorge de Almeida, diretor das Escolas Reunidas de Jacupiranga, figura das mais estimadas da vila.

Por ato de 15 de abril de 1929, foram nomeados para o cargo de coletor estadual Frederico Ferreira Machado e para escrivão da Coletoria, Alexandre José de Lima.

Em 20 de maio de 1930, era criada, pelo Ministro da Fazenda, a Coletoria Federal de Jacupiranga.

Com a Revolução de 1930, que destituiu todos os políticos ligados ao Partido Republicano, foi nomeado, em janeiro de 1931, para prefeito de Jacupiranga o cidadão Gaspar Paulo Meier.

Em 16 de abril de 1942, foi nomeado, por decreto, para prefeito, Raul Ferreira  Machado, em substituição a Amâncio Sant'Anna Ferreira, exonerado pelo mesmo decreto. O novo prefeito tomou posse em 25 de abril daquele ano.

Nas primeiras eleições diretas para prefeito, realizadas no dia 9 de novembro de 1947, saiu-se vencedor José Rodrigues Porto, pelo PSP/PSD, com 1.159 votos, contra Eduardo Vicente de Macedo, pela UDN, com 195 votos.

ADVERTÊNCIA

Não pretendemos com este modesto trabalho escrever a história completa do município de Jacupiranga. Em nossas pesquisas ao longo dos anos feitas em jornais da região e em outras fontes, coletamos dados que julgamos interessantes para subsidiarem outros pesquisadores que porventura se dedicarem a levantar a história geral da antiga Botujuru. 



ROBERTO FORTES

ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br