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A visita de Albert Camus ao Vale do Ribeira






Em 1949, o escritor Albert Camus, Prêmio Nobel de Literatura de 1957, na companhia de Oswald de Andrade e amigos, visitou o Vale do Ribeira e fez referências em seu diário de viagem a Juquiá, Registro e Iguape. Vamos conhecer essa histórica visita.

O escritor Albert Camus.
O escritor Albert Camus.


Albert Camus nasceu na Argélia em 7 de novembro de 1913 e faleceu precocemente aos 46 anos, num acidente de automóvel, em 4 de janeiro de 1960, numa estrada da França. Escritor consagrado em todo o mundo, escreveu “O Estrangeiro”“A Peste”“O Homem Revoltado”“O Mito de Sísifo”, entre as obras principais. Poucos souberam retratar a condição humana como esse grande escritor.

O genial escritor fez uma viagem à América do Sul, entre os dias 30 de junho a 31 de agosto de 1949, registrando as suas impressões num saboroso “Diário de Viagem”, publicado pela Editora Record. A viagem marítima foi tão angustiante para Camus que ele pensou até mesmo em se matar...

No Brasil, passou por São Paulo, Rio, Bahia, Fortaleza. O que pouca gente sabe é que Camus também visitou o Vale do Ribeira. Por sugestão do escritor modernista Oswald de Andrade, Camus veio conhecer a nossa região, mais exatamente a cidade de Iguape, para ver de perto a festa em louvor ao Senhor Bom Jesus. Junto com Camus e Oswald, vieram também Paul Silvestre, adido cultural francês, e Rudá de Andrade, filho de Oswald, além do motorista, cujo nome não é citado, mas que, segundo Camus, se parecia com o filósofo francês Augusto Comte (1798-1857).

A excursão a Iguape era para sair de São Paulo às 7h, no dia 5 de agosto de 1949. Mas o grupo só conseguiu deixar a Capital às 10h. A viagem não foi das melhores. Percorreram os 300 quilômetros entre São Paulo e Iguape em nada menos do que 10 horas (descontadas, logicamente, as inúmeras e frequentes paradas e desencontros). Note-se que naquela época ainda não existia a BR-116.

Cinquenta quilômetros após o início da viagem a mola do carro quebrou. Camus aconselhou “Augusto Comte” a retirá-la imediatamente. Mas Comte parece que não deu muita bola e continuou a viagem. Cinco quilômetros depois, o carro parou: a mola ficara presa à roda! Comte pegou de uma barra de ferro e bateu com força na peça (nem se lembrara de trazer uma chave inglesa!). Camus, perspicaz observador da alma humana, explicou-lhe que seria mais conveniente a retirada da porca que prendia a roda...

PIEDADE E PILAR DO SUL

O sol estava inclemente. Estrada poeirenta, esburacada. Calor dos trópicos, asfixiante. Por sorte, passou um caminhão; emprestam uma chave inglesa e retiram a mola que se prendera à roda. Seguem viagem. Chegam às 13h a Piedade (“pequena aldeia sem graça”), onde são acolhidos calorosamente por Anésia, dona de uma pensão. Camus acreditou que Oswald tenha paquerado a mulher em “outros tempos”. Comeram uma farta refeição brasileira, servida por uma índia mestiça, sem faltar uma boa pinga.

Seguiram viagem. Áreas imensas, desertas, sem ninguém, descortinavam-se (“A terrível solidão dessa natureza desmedida explica muitas coisas neste país”). Chegam a Pilar do Sul às 15h. Foi então que Comte percebeu que se enganara no percurso e que gastaram 60 quilômetros além do necessário, ou seja, duas ou três horas perdidas na estrada... Cansados, cobertos de poeira, só começaram a descer a serra no final do dia (“a noite cai enquanto nos embrenhamos pela floresta”). Rodam durante horas, sacolejando pela estrada estreita, cercada por “paredes altas de árvores”. Pirilampos, moscas luminosas e pássaros de olhos vermelhos vinham bater no pára-brisa (“A não ser isto, a imobilidade e o mutismo apavorante são absolutos, se bem que Andrade às vezes julgue ouvir uma onça”).

Estrada sinuosa, pontes de tábuas soltas, pequenos riachos. Uma bruma espessa obriga o carro a quase se arrastar pela estrada. Às 19h, o cansaço domina a todos; estavam na estrada desde as dez da manhã! E, ainda para piorar, Comte dizia que poderiam ficar na estrada, por falta de gasolina!... Desgraça pouca era bobagem... Mas, aos poucos, a densa floresta vai rareando.

JUQUIÁ E REGISTRO

Chegam a uma pequena “aldeia” (Camus não cita o nome, mas com certeza trata-se de Juquiá). Um “grande rio” os obriga a parar. Na outra margem, percebem sinais luminosos. Vêem lentamente se aproximar uma grande barcaça. Camus nota o mecanismo utilizado para locomover a embarcação (“do mais antigo sistema possível”), que utilizava um cabo estendido entre as margens.

A barcaça era conduzida por “mulatos de chapéu de palha” e se deslocava devagar pelo rio Ribeira (“O silêncio absoluto deste momento só é perturbado pela batida da água do rio na barcaça”). Por estranho que possa parecer, Camus achou familiar esse cenário... Das margens saíam “gritos esquisitos” de pássaros e de sapos-bois (“É meia-noite em Paris, neste exato momento”).

Desembarcando na outra margem, seguem a viagem rumo a Registro, “verdadeira capital japonesa no meio do Brasil”. Camus apreciou as casas de decoração frágil, “e até mesmo um quimono”. Alguém fala que Iguape fica a apenas 60 quilômetros. E recomeçam a jornada.

Camus, tendo ao fundo as torres da Basílica do Bom Jesus.
Camus, tendo ao fundo as torres da Basílica do Bom Jesus.


IGUAPE

A estrada agora é de areia (“ainda mais difícil e perigosa do que antes”). Chegam, finalmente, a Iguape. No relógio da matriz soa meia-noite. O hotel estava fechado (com certeza, deve ser o “Hotel São Paulo”). Uma autoridade (cujo nome não é citado, mas que acredito fosse o jornalista e historiador Ary de Moraes Giani, então presidente da Câmara), leva a comitiva até a casa do prefeito, Pedro Coutinho, que informa ao grupo que eles ficarão hospedados no Hospital “Feliz Lembrança” (Santa Casa de Misericórdia).

Camus escreveu em seu diário: “Apesar do cansaço, a cidade me parece bela, com suas igrejas coloniais, a floresta tão próxima, suas casas baixas e nuas e a tepidez do ar molhado”. Chegam ao hospital (que Camus chama de “Boa Memória”). São instalados num pavilhão desativado, que fora repintado em homenagem aos visitantes. Só que não há luz, pois a usina elétrica funcionava até às 23h...


Camus escrevendo seu diário, na Santa Casa de Iguape.
Camus escrevendo seu diário, na Santa Casa de Iguape.


Deixam as malas no lugar. Camus notou seis camas “limpas e rústicas”.  A autoridade convida os visitantes para comerem um sanduíche no clube da cidade (“Clube 25 de Janeiro”, que, fundado em 1946, em substituição ao “Clube XV”, pegou fogo em 1954). Mesmo exausto, foram até o clube, onde hoje funciona a Casa Paroquial, na Praça da Basílica (“uma espécie de bistrô, no segundo andar”).

UM INCIDENTE

Autoridades cobrem o grupo de atenções. Camus observa a “refinada polidez brasileira”, em contraposição à “grosseria européia”. Famintos, deliciam-se com sanduíches, acompanhados de cervejas. Tudo corria bem, até que um homenzarrão desengonçado (“que mal se aguenta nas pernas”), sabe-se lá por que insondáveis motivos, aproxima-se de Camus e pede-lhe para apresentar o passaporte. Camus mostra-o, mas o grandalhão parece dizer que não está em ordem. Cansado, Camus manda-o “às favas”. Indignadas com aquela afronta, as autoridades se reúnem numa espécie de “conselho”, e, após, dizem a Camus que mandarão prender o policial (era um policial!), e que o escritor deve escolher qual a punição a ser aplicada ao petulante sujeito.

Acostumado com os absurdos da condição humana, Camus pede que deixem o grandalhão em liberdade. As autoridades retrucam que o sujeito deve ser punido (pois “a honra tão grande que fazia a Iguape não foi reconhecida por esse mal-educado”) e que era necessária uma sanção “para essa falta de modos”. Mas Camus não queria nada disso. Para resolver tudo da melhor maneira, pediu aos figurões que lhe fizessem o “favor pessoal e excepcional de poupar esse tonto”. Todos se surpreendem com o cavalheirismo do escritor. E fazem a sua vontade. Depois, os amigos retornam ao hospital.

No meio do caminho, encontram com o prefeito, que veio conduzir ele próprio os visitantes até os seus aposentos. O alcaide mandara acordar o pessoal da usina elétrica (em cujo local hoje funciona a Escola Municipal “Jocy Cardoso”) para que a luz voltasse a funcionar. Camus tentou dormir, mas foi difícil. Sua cama balançava um pouco, os demais companheiros de quarto remexiam-se com frequência nas outras camas, Augusto Comte roncava “ferozmente”. Camus só conseguiu pegar no sono bem tarde (“um sono sem sonhos”).

Despertaram bem cedo. Para a decepção de todos, não havia água no hospital... Camus fez a barba com água mineral e lavou-se um pouco da mesma forma. Em seguida, chegaram as autoridades e levaram-nos ao salão principal (“para nos refazermos”).

NA FONTE DO SENHOR

Finalmente, foram andar pela cidade. Chegaram à Fonte do Senhor, ali perto, nos contrafortes do Morro da Espia. No jardim da Fonte, “misterioso e suave”, Camus reencontrou um “pouco de isolamento e tranquilidade”. Muitas pessoas (“mestiços, mulatos e os primeiros gaúchos que vejo”) aglomeram-se em frente à Gruta do Senhor para retirar lascas da famosa “pedra que cresce”. Camus certamente deve ter sido informado por Oswald que naquela gruta fora lavada a imagem do Bom Jesus, depois de achada na Praia de Una, e que aquelas lascas de pedra, na crença popular, possuíam poderes miraculosos.

Logo depois, vão até o centro da cidade. Caía uma chuva fina. As ruas mal pavimentadas estavam apinhadas de “gaúchos, japoneses, índios, mestiços, elegantes autoridades”. Para Camus, “Iguape tem ares de estampa colonial”. Talvez por causa de toda aquela aglomeração, o escritor escreveu que ali se respirava “uma melancolia muito particular, a melancolia dos fins de mundo”. Os anfitriões não economizam em gentilezas para com os visitantes.

A GRANDE ROMARIA

Já no início da tarde, foguetes pipocavam nos ares, assustando os urubus pousados nas cumeeiras das casas. A multidão aumentava a cada minuto. Um romeiro (“que tem um ar de assírio”) conta a Camus que se salvou de um naufrágio graças a um milagre do Bom Jesus, tendo passado uma noite e um dia entre as ondas furiosas do mar. Fez a promessa de carregar na cabeça uma pedra de sessenta quilos, durante a procissão.

Por fim, da igreja começa a sair o cortejo (“penitentes negros, depois brancos, com roupas clericais, depois, as crianças-anjos: em seguida uma espécie de filhos de Maria”). E, por fim, a imagem do Bom Jesus. Camus notou que atrás da efígie vinha o homem com ar de assírio, carregando à cabeça uma enorme laje de pedra. A Banda Musical Santa Cecília, dirigida pelo maestro Aquilino Jarbas de Carvalho, tocava dobrados.

Camus achou aquela multidão, que se espremia por uma rua estreita (rua Jeremias Júnior) o “agrupamento mais estranho que se possa encontrar”. Tudo ficava misturado “numa massa oscilante e colorida, estrelada às vezes pelos círios, acima dos quais explodem incansavelmente os fogos, passando também, vez por outra, um avião, insólito neste mundo intemporal”.

Camus e seus amigos esperam a procissão num ponto estratégico. Passa por eles o homem com ar de assírio (“parece crispado de cansaço e treme nas pernas”). Mas Camus acreditava que ele conseguiria completar a procissão. Ao final, sinos tocam, o cortejo termina, as lojas e casas voltam a abrir portas e janelas. E o grupo vai jantar.

Gaúchos cantam na praça, as pessoas fazem roda em volta. Foguetes continuam a pipocar nos ares. Então acontece uma tragédia. Uma criança perde um dedo e chora copiosamente. Enquanto era levada, a criança grita: “Por que o Bom Jesus fez isso?”. (Traduziram para Camus esse “grito da alma”).

Terminados os festejos, os amigos retornam à Santa Casa. Dormiram cedo, pois no dia seguinte levantariam cedo para retornar a São Paulo. Novamente, Camus não conseguiu dormir direito, graças ao estrondo dos foguetes e aos “terríveis espirros” de Augusto Comte.

No Livro de Visitas da Santa Casa, Camus registrou, em 7 de agosto, a seguinte saudação a Iguape, cuja letra foi “decifrada” pelo meu amigo Benedito Machado, respeitado escritor e historiador iguapense.:

“À l'hôpital ‘Heureux Souvenir’ qui porte si bien son nom, avec un hommage chaleureux à ce Brésil qui a aboli la peine de mort et à cette Iguape oú l'on comprend pourquoi”,

Logo abaixo, Oswald traduziu:

“Ao Hospital ´Feliz Lembrança´ que traz tão bem o seu nome, com a homenagem calorosa a este Brasil que aboliu a pena de morte e a esta Iguape onde a gente compreende esse gesto”.

Oswald escreveu ainda: “Aderindo às impressões de Camus, saúdo mais uma vez o que considero minha cidade – Iguape”.

Refazendo o caminho de volta e sujeitando-se novamente aos percalços e cansaços da viagem de ida, Camus finalmente chega à Capital. São suas palavras: “Acolho, com alívio, São Paulo, o hotel, um banho quente”.

As impressões de Camus durante a sua viagem a Iguape serviram de inspiração para o conto “A pedra que cresce”, que foi inserido no livro “O exílio e o reino”, a única histórica ambientada no Brasil.

Em homenagem a Camus, Iguape colocou o seu nome na principal alameda da Fonte do Senhor.


ROBERTO FORTES

ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br