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O naufrágio do vapor Conde d´Áquila








No livro “O tesouro dos jesuítas”, publicado em 1943, o historiador Antônio Paulino de Almeida escreveu, à página 35: “Há trinta e poucos anos atrás ainda emergiam das águas ali, pertinho da praia, bem defronte do antigo beco do inferno, as partes de uma grande roda de ferro, apresentando um meio círculo com os seus raios já em mau estado de conservação.” (1)



O naufrágio do vapor “Conde d´Áquila”
O naufrágio do vapor “Conde d´Áquila”

Eram os “restos mortais” do vapor Conde d´Áquila (antigo “Roual Parr”, “Falcão” e Pedro V”), que naufragou em frente ao porto de Cananeia em maio de 1856. Foi umas das primeiras “barcas de vapor” que navegaram pela costa brasileira, tão logo foram inventadas as máquinas propulsoras a vapor. Era um navio de “roda por fora”, como então se dizia, admirado não somente pela beleza de suas linhas, como também pelo conforto proporcionado aos passageiros e pela força de suas máquinas.

No dia 2 dia de maio de 1856, procedente do Sul, o Conde d´Áquila dava entrada no porto de Cananeia. Maio era o mês em que as bandeiras das “folias do Divino se preparavam para sair em romaria”. O navio tinha como capitão Antônio Silveira Maciel. Navegava “de porto a porto, na carreira do Rio Grande”. Levava desfraldada a bandeira brasileira.

De acordo com a tradição local, alguns marinheiros foram assistir à missa na antiga Igreja de São João Batista, padroeiro da cidade. Os marujos teriam cometido a ousadia de escarnecer da imagem, dizendo que “as sagradas tíbias” do santo seriam “magníficas para o movimento do carvão nas fornalhas do paquete”.

Logo, partia o vapor para a cidade de Iguape, de onde regressou no dia seguinte, 3 de maio. Chegando ao porto de Cananeia, foi enviado um escaler para a terra “em busca dos despachos”. Os práticos da barra já se aproximavam do porto, reunindo-se na praia, pois “era hora da maré”. O “Conde d´Áquila” estava pronto para seguir aos portos do Norte.

Mas aconteceu um imprevisto, que reteve a embarcação por algumas horas a mais dentro da baía. Tinham acabado os devidos impressos na Coletoria local para o desembaraço das obrigações fiscais do navio, sendo, para tanto, enviado um portador até Iguape para solicitar tais impressos às autoridades desta cidade.

O vapor anoiteceu ancorado “na mansidão poética do Mar Pequeno”. Os passageiros ficaram a bordo, uns pelos bancos, outros debruçados nas amuradas se distraíam “ouvindo a voz dos foliões que cantavam na costeira da Boa Vista”. A noite estava calma e o céu estrelado.

O vigia Manoel Vieira também admirava aquela noite calma e estrelada. A passos lentos, caminhava pelo tombadilho do navio, dentro de seu gibão de baeta azul, quando ouviu os galos cantando pela primeira vez. Tudo estava tranquilo; começavam a surgir os primeiros lampejos da aurora daquela manhã de 4 de maio.

Para espantar o frio de maio, o vigia, fazendo a ronda de bordo, se aquecia junto das máquinas ou subia ao alto passadiço, aguardando, já com impaciência, o alvorecer. Num dado momento, percebeu que das antecâmaras das carvoeiras começava a subir grossa fumaça.

Manoel Vieira, vendo a gravidade do caso, correu até o castelo de proa e começou a tocar violentamente a sineta. Estava dado o sinal de alarme. “Lavrava incêndio no porão de ré!...”

Começou um alvoroço. Balbúrdia. Gritos. Lançamento de espias. Rombo aberto no costado. Passageiros que se atropelavam para o desembarque. A inútil luta contra o fogo que tomava conta do navio.

Da beira do cais, o povo contemplava, atônito, as chamas que se elevavam rapidamente e consumiam a vistosa embarcação, iluminando a praia e as canoas que vinham para prestar socorro. Pelas nove e meia da manha, o mar finalmente sepultava os escombros do belo vapor.

Desde então, na tradição do povo, não apenas como “lembrança”, mas também para “exemplo”, por muitas décadas ficou aparente, nas imediações do porto, a grande “roda”, que recordava o vapor “Conde d´Áquila”, e também o “castigo” do santo padroeiro São João Batista.

Nota: (1) ALMEIDA, Antônio Paulino de. O tesouro dos Jesuítas. São Paulo: Tipografia do Globo, 1943, págs. 34-41).

(Crédito da Foto: www.guiadoturismobrasil.com)



ROBERTO FORTES
ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br




(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).


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