17ª Feira de sementes e mudas tradicionais no Vale do Ribeira

Vale do Ribeira - Evento reunirá lideranças comunitárias, ISA, Embrapa e Iphan e outros parceiros. Entre as discussões estão democratização das sementes e fortalecimento do Sistema Agrícola Tradicional

17ª Feira de sementes e mudas tradicionais no Vale do Ribeira
17ª Feira de sementes e mudas tradicionais no Vale do Ribeira

Feira de Sementes no Vale do Ribeira


Região que concentra o maior número de remanescentes de comunidades quilombolas do Estado de São Paulo, o Vale do Ribeira sedia a tradicional Feira de Sementes e Mudas Tradicionais que chega à sua 17ª edição.

O encontro acontecerá nos dias 14 e 15 de agosto na Praça Nossa Senhora da Guia, em Eldorado (SP), e é um marco na resistência e na preservação ambiental da maior porção contínua de Mata Atlântica do Brasil, onde cerca de 11 mil quilombolas salvaguardam saberes tradicionais, a biodiversidade e a cultura local.

Organizada pelo Grupo de Trabalho da Roça, composto por dezenove Associações das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira e parceiros, em conjunto com o Instituto Socioambiental (ISA), a feira visa fortalecer a cultura quilombola, a segurança alimentar e a proteção da agrobiodiversidade local.

E, este ano, a Feira de Sementes venceu o Prêmio Governador do Estado para as Artes 2026, da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, na categoria Valorização do Patrimônio Cultural. A cerimônia foi realizada na noite de 29 de julho, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.

Em 2018, o Sistema Agrícola Tradicional (SAT) Quilombola do Vale do Ribeira, base da feira, foi reconhecido como patrimônio cultural brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A forma de cultivo, com roças em meio à floresta, produz fartura e, ao mesmo tempo, protege o ambiente. Esse sistema de saberes promove regulação climática, cuidado com a água e biodiversidade.

Na sexta-feira (14/08) haverá a mesa "A Embrapa e a democratização de sementes: o resgate e o acesso às sementes crioulas", que conta com a participação de Ana Paula

Donato dos Santos, liderança do Quilombo São Pedro, da pesquisadora Marília Burle (Centro Nacional de Recursos Genéticos - Cenargen/Embrapa) e mediação de Letícia Ester (Eaacone).

A Embrapa abordará a trajetória na conservação dos recursos genéticos, destacando o contexto recente de priorização à democratização genética, com diálogo para possíveis ações específicas no Vale do Ribeira, em diálogo com os quilombolas, detentores da diversidade agrícola.

No período da tarde, o público acompanhará a apresentação do Iphan sobre salvaguarda patrimonial, que são ações para o fortalecimento do SAT Quilombola. Ao longo deste ano estão sendo realizadas oficinas reunindo os atores locais, Iphan, Embrapa, ISA, Conaq, Eaacone, Cooperquivale e outros parceiros para dialogar sobre essas ações. Muitas delas já vêm sendo desenvolvidas pelas comunidades quilombolas. A partir dessas discussões será elaborada a Carta de Intenção do plano de salvaguarda, prevista para ser lançada na Feira de Sementes do ano que vem.

Ainda na sexta-feira haverá uma exposição sobre os impactos da contaminação por metais pesados no território, com Maira Silva, pesquisadora quilombola, doutora em Ciências na área de Geologia e Recursos Naturais.

No sábado (15/08), a festa ganha o coração da cidade. Das 9h às 14h, a praça se enche de vida com a tradicional Troca de Sementes e Mudas, feira de produtos vindos direto da roça, apresentações culturais com os Violeiros do Ivaporunduva; poesias da Tia Elvira; dança do Quilombo Cangume; puxirão Quilombo São Pedro; Nhá Maruca; Xondaro Guarani. O almoço tradicional quilombola para encantar o paladar e celebrar a cultura viva acontecerá no Salão Paroquial.

Saiba mais:


Pesquisa Aquilombando o Clima - Quilombolas pesquisam impactos das mudanças climáticas

● Quatro comunidades quilombolas do Vale do Ribeira (Cangume, Maria Rosa, Nhunguara e Porto Velho) investigaram como as mudanças climáticas vêm alterando seus territórios. Os resultados apontam rios com menos volume, temperaturas mais altas, roças menos produtivas, menos peixes e estações de plantio imprevisíveis. A partir do diagnóstico, as comunidades formularam propostas de adaptação, entre elas bancos de sementes crioulas, restauração de matas ciliares e nascentes e titulação dos territórios.

O diagnóstico de indicadores locais de mudanças climáticas das comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira é realizado no âmbito do projeto “Aquilombando indicadores territoriais”, financiado pela organização Pão para o Mundo desde 2023. O objetivo é identificar, através de entrevistas e reuniões de grupo focal, quais as mudanças na natureza têm sido observadas pelos quilombolas nas últimas décadas. O método de entrevista implementado é baseado no Protocolo LICCI (protocolo de Indicadores locais dos impactos das mudanças climáticas - https://www.licci.eu/).

Em oficinas de grupo focal em cada território, para apresentação e validação dos resultados, os quilombolas levantaram quais estratégias de adaptação consideram interessantes a serem implementadas em seus territórios, como a melhoria da organização comunitária e da infraestrutura local, mas também a melhoria dos solos e pesquisa de variedades agrícolas mais resistentes aos extremos climáticos.

Com isso, foram definidos, pela primeira vez, possíveis encaminhamentos de trabalho para o planejamento territorial,em adaptação às mudanças climáticas. Os resultados mencionados sinalizam a potencialidade da metodologia e inovação empregadas neste projeto, pois apontam caminhos confiáveis de estratégia de incidência mas também geram resultados científicos consistentes, a partir de dados locais.

Os dados de percepção local serão comparados a dados científicos históricos sobre o clima da região, indicando como os conhecimentos locais e a ciência acadêmica podem ser complementares.
Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE

● Uma das formas de fortalecer o SAT que vem se fortalecendo na região são as políticas de aquisição de alimentos, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), com os alimentos das roças tradicionais chegando cada dia mais ao prato dos alunos e ganhando espaço em relação a alimentos ultraprocessados. Em Iporanga, 95% da alimentação escolar vêm das roças quilombolas. E, segundo Carlos Ribeiro, assessor técnico do Instituto Socioambiental (ISA), no município, os tipos de alimentos na lista para a entrega nas escolas passaram de 55 para 130 itens entre 2025 e 2026.

Isso só está sendo possível devido à adequação de políticas públicas à realidade dos territórios tradicionais. Apesar de gargalos persistentes no acesso ao PAA e ao PNAE - como documentação e custos logísticos -, a situação já avançou bastante.

No caso do PNAE, a mobilização acontece principalmente a partir da Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos (Catrapovos), iniciativa do Ministério Público Federal (MPF) com apoio da sociedade civil.

Uma das conquistas foi a implementação da nota técnica do autoconsumo, que permite que alimentos processados e de origem animal produzidos nas comunidades sejam entregues nas escolas locais. Essa medida acaba de ser reconhecida por resolução do FNDE.

Com isso, as escolas passaram a receber alimentos como pães caseiros, beiju, farinha, frango caipira, ovos, arroz, feijão, mandioca e verduras frescas. Os produtores, na maior parte das vezes, são os familiares dos estudantes. No Vale do Ribeira, a Catrapovos é composta pelo ISA, lideranças quilombolas, MPF e representantes de órgãos públicos.
Vale do Ribeira

● Historicamente moldada pela agricultura familiar de subsistência e por mutirões comunitários, a região enfrentou profundas transformações socioterritoriais desde o século XVI — desde o garimpo colonial e a instalação de indústrias extrativistas de minérios e cimento até a introdução dos monocultivos de banana a partir da década de 1930.

Em articulação com diversas entidades e movimentos sociais, os quilombolas do Vale deram importantes passos na conquista de sua autonomia e representatividade, com destaque para o reconhecimento pelo estado brasileiro, em 2010, do primeiro território, o quilombo Ivaporunduva.

Mas a luta pela regularização fundiária parece ainda estar muito longe do fim, considerando que apenas 5 comunidades do Ribeira possuem a regularização fundiária de seus territórios.

Em um cenário econômico baseado historicamente na exploração da mão de obra e dos recursos naturais, atualmente o turismo e a agricultura se constituem em importantes fontes de trabalho e renda para as comunidades quilombolas.

O reconhecimento dos Sistemas Agrícolas Tradicionais Quilombolas (SATQ) como patrimônio histórico e artístico nacional, as políticas públicas de compras públicas são também importantes conquistas.

A Cooperativa dos Agricultores Quilombolas do Vale do Ribeira - Cooperquivale foi fundada em 2012 com objetivo de facilitar a comercialização dos produtos das comunidades negras remanescentes de quilombos da região do vale do rio Ribeira, proporcionando aumento da renda dos cooperados, proteção de seus territórios e valorização da sua cultura e modos de vida. A cooperativa atua na assistência aos agricultores e agricultoras associados na comercialização da produção obtida nos quilombos junto aos mercados institucionais, através de programas governamentais, nomeadamente o PAA e o PNAE.





PROGRAMAÇÃO:

17ª Feira de Sementes do Vale do Ribeira Dia 14/08 (sexta) — Seminário e Oficinas Abertura:

8h - café Amuvin e credenciamento

8h45 - mística

9h - Boas vindas - Seu Aurico

9h15 - Mesa: A Embrapa e a democratização de sementes: o resgate e o acesso às sementes crioulas

Composição da mesa:

Urias | Quilombo São Pedro representante do GT da roça;

Ana Paula |Pesquisadora no tema de mudanças climáticas; Marília Lobo Burle| Embrapa; mediadora: Letícia Ester | Eaacone



Tarde

14h - Mística

14h15 - Fala sobre Salvaguarda | Evandro Domingues |IPHAN

14h40 - Bate-papo com Maíra Silva: Contaminação por metais pesados e terras raras 16h15 - café

17h - encerramento

Local: Praça Nossa Senhora da Guia, Eldorado



Dia 15/08 (sábado) — Feira

9h às 14h: Trocas de Sementes e Mudas, Venda de Produtos da Roça, Apresentações Culturais:

- Violeiros do Ivaporunduva

- Sarau da Tia Elvira

- Dança do Quilombo Cangume

- Puxirão Quilombo São Pedro

- Nhã Maruca

- Xondaro Guarani

A Feira de Troca de Sementes e Mudas Tradicionais é uma realização do GT da Roça com apoio do Instituto Socioambiental (ISA), Sesc Registro, Prefeitura de Eldorado, Prefeitura de

Iporanga, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Bem-Te-Vi Diversidade.
Crédito da Foto: Júlio César Almeida/ISA

 

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