Histórias de pessoas que sofrem por não reconhecerem que diante das suas escolhas sempre há o que ser deixado de fora, constantemente me intrigou.

Eu sei me movimentar melhor nessa areia movediça?
Passado algum tempo, normalmente o reconhecimento do que foi
perdido por conta do novo caminho a ser tomado vem à tona. Alguns se
responsabilizam, assumem estoicamente que não haveria jeito de controlar tudo,
que não estamos ao alcance do domínio por forças da ‘natureza’. Outros se
minimizam (ou seria se vitimizam?), achando que talvez pudessem ter mais
cautela, menos ímpeto e não sairiam perdendo como de fato ocorreu. Nos dois
casos, a ilusão que os acompanha tem uma função defensiva. Querer dominar ou
não desejar controle faz parte da mesma moeda.
A vida é, em muitas ocasiões, lidar com momentos de escolha.
Constantemente nos vemos diante de bifurcações, às vezes sem desejo te tomar as
únicas direções disponíveis. Entra em cena a criatividade, invenções para
deixar a vida mais leve e menos dramática (na fantasia). Muitas vezes essa
criatividade já está presente inconscientemente, só nos damos conta quando
realizamos de fato algo que não havíamos pensado ainda.
Quando pensei o que me intriga nessas decisões (ou nas
dificuldades diante desses momentos) a questão que me interessa hoje não é
tanto como deixamos de lado um fato que
talvez, desde sempre, não apenas escolhemos perder, mas sim como também
desistimos sem saber que estamos desistindo. Explico.
Uma família que resolve mudar de cidade frequentemente por
conta da repetição que a vida toma quando passa algum tempo e a novidade
evapora, pode assumir uma postura de não suportar a rotina que passa a ser
fastidioso e na fantasia achar que encontrará o ‘paraíso’ no novo município; ou
talvez a própria fantasia seja sua guia mais interessante que a realidade, o
qual seria uma deficiência moral por ser uma justificativa pouco valorizada nos
dias de hoje (até por que na modernidade valorizamos o sofrimento, o esforço.
Poucas vezes escutamos aquelas histórias de que fulano largou o emprego para
vender miçangas na praia e ser feliz).
A ‘arte de desistir’ se tornou pouco valorizada
hodiernamente. A palavra desistência, a princípio, nos remete a fracasso,
impedimento, falta de coragem. O peso que carregamos diante desse significante
nos faz tentar, muitas vezes, caminhos pelos quais sabemos que não dará
satisfação e interesse. Pouco valorizada, a desistência, se encarada por outra
roupagem, poderia ser mais bem utilizada, principalmente em momentos de mudança
de rumo.
Talvez essa fosse a vantagem prometida a todos nós, quando
fomos ‘castigados’ pelo ‘penso, logo existo’. Acreditamos que pelas escolhas
conscientes sairíamos ilesos do atoleiro que é parte da vida.
Deixar se levar pelo emaranhado que nos desloca
constantemente sem que tenhamos pretensão de se sustentar como um pilar fixo, rígido;
o acaso quem sabe possa ser encarado com mais seriedade. Muitas vezes a leveza e
a criatividade de uma criança ao brincar seriamente com cola quente (mesmo
sabendo que ao se queimar irá doer) pode deixar a vida menos enfadonha e mais
interessante.
Daniel Vicente da Silva
Psicanalista, Psicólogo especialista em Psicologia Clínica e
Professor Universitário. Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise
de Sorocaba e Região – NEPS/R.
E-mail: danielvicente_@hotmail.com