Mudança de planos Mudança de planos
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Mudança de planos

Mudança de planos


Dia de mudança, transformação e adaptação. Todos nós passamos em algum momento da vida por modificações nos planos e planejamentos. Dizem que temos que estar ‘prontos’ para mudar a todo instante, mas na prática não é bem assim que funciona.

Nossa vida psíquica é caprichosamente disposta a aguardar o momento esperado, familiar, conhecido. A esperança de que tudo ocorra conforme fantasiamos é uma das disponibilidade do nosso funcionamento psicológico para que possamos nos sentir bem. Quando a ‘coisa’ acontece de pegar outro caminho, corremos atrás para tentar trazer de volta aos trilhos corriqueiro. Nem sempre conseguimos.

Intemperes da vida são mais do que comuns. Estamos acostumados com a rotina, com a sensação de controle em nossas mãos. Impasses de toda ordem invade nossa trajetória sem pedido de licença. Doenças, tragédias, violência, morte; o inesperado nos espreita a todo instante.

Prontos para seguir em frente lidamos muita mal com os dissabores. Negamos quando não suportamos a tomada de consciência de que estamos vivendo algo ruim. Projetamos, jogamos para bem perto mas fora de nós, na maior parte do tempo jogamos para o ‘vizinho’ todo o mal que não quero que esteja comigo. A angústia surgiria diante das mudanças repentinas e os métodos especiais defensivos seriam fundamentais para suportarmos tal contrariedade.

A pandemia foi um exemplo didático muito especial. Pessoas reagiram de diversas maneiras. Tem aqueles que negaram que estava ocorrendo a ‘peste’ coletiva e tentaram levar a vida na normalidade, como se as pessoas não tivessem morrendo aos milhares. Outros conseguiram apenas ‘apontar o dedo’ procurando culpados (os vizinhos) para significar um evento que na sua estrutura psíquica não conseguiriam elaborar. Não havia lógica racional para tantas mortes humanas. O jeito era tentar dar sentido a tudo aquilo, mesmo que seja recorrendo a algo quase que ficcional.

O fato é que não lidamos bem com as oscilações no nosso percurso de vida. É esperado que tenhamos minimamente um roteiro para saber por onde nos movimentamos.

Há um texto muito bonito em que Freud escreveu a convite da Sociedade Goethe de Berlim, em novembro de 1915. Trata-se do artigo “Sobre a transitoriedade” (1916[1915]) em que o autor trabalha a admiração do belo e sua característica de não existir para sempre. Algo que elegemos como belo e perfeito tem um fim, mesmo que seja penoso admitir tal fato. A insistência de que algo da beleza se perpetue para eternidade tem que ver com produto dos nossos próprios desejos.

A questão é que por conta de algo estar com seus dias contados, seu valor do belo implica num aumento considerável. “Uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela” (Freud, 1915). O problema é que para alguns, por conta da finitude, a condição de apreciar a beleza dos pequenos momentos está prejudicada. Freud sugeriu que nessas pessoas havia um mecanismo que atrapalhava e interferia na aproximação com a beleza devido à limitação temporal. O fator emocional descoberto seria a revolta contra o luto. Diante da possibilidade de algo não existir para sempre colocaria algumas mentes a não apreciarem o belo por conta de que aquilo um dia viria a desaparecer. Seria uma espécie de rebelião psíquica contra a ação do tempo.

Minha recordação e associação sobre esse texto de Freud e a relação com o assunto dessa coluna em relação às mudanças tem que ver com um efeito produzido. A dificuldade em se interessar pela nossa própria história de vida seria seu produto. É como se ao constatar a nossa imortalidade e tomar consciência de que nossos momentos de alegria são finitos, nos revoltássemos inconscientemente a ponto de não nos permitir admirar os momentos de prazer.

Talvez, ao constatarmos que as experiências e os objetos que apreciamos chega a um fim espontâneo poderia também nos revelar que somos capazes de amar mesmo sabendo de que um dia iremos nos separar.

Daniel Vicente da Silva

Psicanalista, Psicólogo clínico e Professor Universitário. Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região – NEPS-R.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com

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