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O imaginário da morte no Vale do Ribeira

Em 2 de novembro, é comemorado, em todo o mundo, o Dia de Finados, dedicado ao culto das almas. Essa data, instituída no século X por Santo Odilon, abade de Cluny, na França, merece uma reflexão mais demorada. Como era encarada a ideia da morte no Vale do Ribeira ao tempo da Colônia e do Império? Pesquisando velhos alfarrábios carcomidos pelas traças, e apoiado em livros de renomados historiadores, é possível lançar alguma luz sobre esse assunto.

O imaginário da morte no Vale do Ribeira
Créditos da Foto: Adriana Ortega.



A morte era vista não como o “fim da vida”, mas como uma “passagem” para a “vida eterna”, mesmo com a tristeza representada pela perda de entes queridos. Era comum, quando alguém morria, se enviar à família carta de felicitação pela “passagem à vida eterna” do falecido; a morte, portanto, era aceita como algo até mesmo feliz.

Geralmente, os enterros eram feitos à noite. Ao cortejo comparecia toda a família, seguida pelas carpideiras (mulheres contratadas especialmente para chorar nos enterros), e também pelos escravos, que choravam pela morte do senhor, mas também pela incerteza de seu futuro, pois certamente, feita a partilha dos bens, seriam vendidos a outros senhores.

Havia uma estreita e até mesmo promíscua intimidade entre os vivos e os mortos, que eram enterrados, às vezes, dentro das próprias residências e, mais comumente, sob os assoalhos de madeira das igrejas. Existem registros de sepultamentos de pessoas que foram enterradas sob o assoalho da antiga Igreja de Nossa Senhora das Neves de Iguape (construída de 1614 a 1637, e afinal demolida em 1858 por se encontrar em completa ruína). Esse costume também foi seguido depois da inauguração do novo templo, dedicado ao Bom Jesus, que passou a realizar ofícios religiosos a partir de 8 de agosto de 1856.

Esse costume – que hoje pode ser considerado mórbido – começou a despertar a atenção dos higienistas a partir do século XIX, que bradavam aos quatros cantos: “até quando persistirá a triste prerrogativa dos mortos envenenarem a vida dos vivos?” Esse protesto, segundo Gilberto Freyre, tinha a sua razão de ser, pois “as igrejas nos dias úmidos ficavam fedendo horrivelmente a pobre, os defuntos só faltando estourar das covas.”

A partir de 1850, o Governo do Império proibiu terminantemente o enterro dentro das igrejas, mas notamos que esse costume ainda perdurou em Iguape por mais algum tempo, pois o cemitério, inaugurado em 1830 pelo padre João Chrysostomo de Oliveira Salgado Bueno, ainda não merecia a aceitação unânime da população iguapense, que preferia continuar enterrando seus mortos dentro da igreja, junto aos seus santos e aos seus antepassados.

Note-se que, no subsolo da Basílica de Iguape, existe uma cripta onde se acham sepultados os restos mortais, entre outros, do cônego Antônio Carneiro da Silva Braga (1821-1891) e do comendador Luiz Álvares da Silva (1808-1883), segundo constatou a saudosa historiadora Laís Carneiro Muniz, dedicada pesquisadora da história e das tradições valerribeirenses.

Sobre o Dia de Finados existe uma tradição que remonta aos anos coloniais. Contam que, na virada do Dia de Todos os Santos para o Dia de Finados, à meia-noite, caminhava pelas estreitas e escuras ruas da então vila – iluminadas pelas chamas de archotes colocados à frente das casas e, mais tarde, pelos lampiões de querosene – uma fantasmagórica procissão.

Contam que, certa feita, um homem, descrente, decidiu ficar na janela de sua casa para tirar a prova. Esperou por algum tempo, até que, afinal, bateu meia-noite. De repente, um pequeno grupo de pessoas, vestidas de túnicas negras e compridas, virou a esquina. O homem, imaginando que fossem penitentes, ou mesmo desocupados, não deu a menor importância.

Quando o grupo passou em frente à sua janela, um deles foi até o homem e lhe ofereceu uma vela. Meio intrigado e confuso, aceitou, e o outro retornou ao grupo. Aos poucos, a estranha procissão foi se distanciando, até que virou outra esquina. O homem, então, se lembrou, da vela e desviou o olhar para ela. Seu coração não resistiu e ele morreu instantaneamente ao constatar que em sua mão não estava uma vela, mas sim... um osso humano!





ROBERTO FORTES

ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. E-mail: robertofortes@uol.com.br


(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

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