Como se viajava de Santos ao Vale do Ribeira

Nos dias atuais, as viagens tornaram-se muito mais cômodas e rápidas. A Rodovia Régis Bittencourt corta praticamente todo o Vale do Ribeira, ligando a nossa região a dois importantes polos, São Paulo e Curitiba. Inaugurada em 24 de janeiro de 1961, portanto há 60 anos, a BR-116, como também é conhecida, reduziu bastante o tempo de viagem entre as cidades do Vale do Ribeira e as capitais paulista e paranaense

Vapor “Vicente de Carvalho”. Foto colorizada, possivelmente por volta da década de 1920. Arquivo do Autor.
Vapor “Vicente de Carvalho”. Foto colorizada, possivelmente por volta da década de 1920. Arquivo do Autor.


 

Mas nem sempre foi assim.

 

Houve época em que inexistiam estradas intermunicipais, e o jeito era se utilizar os vapores disponibilizados pela Companhia de Navegação Fluvial Sul Paulista, da qual o jurista e poeta Vicente de Carvalho era um dos sócios.

 

Com a inauguração da Estrada de Ferro Santos-Juquiá em 5 de janeiro de 1914, houve uma expressiva melhora no que diz respeito aos transportes na região. Um velho jornal editado em Iguape nas primeiras décadas do século XX nos dá uma ideia de como era uma viagem de Santos a Iguape, passando por Juquiá e Registro.

 

A estação do trem da Southern São Paulo Railway, a concessionária da linha Santos-Juquiá, na avenida Ana Costa, em Santos, era pequena e acanhada.

 

Chegando à estação de Juquiá, os passageiros embarcavam num vapor da Companhia Fluvial, que poderia ser o “Vicente de Carvalho”, o “Bento Martins” ou o “Cândido Rodrigues”. A primeira etapa da viagem era por volta das 10h. O vapor descia pelo rio Juquiá até a barra desse rio, de onde seguia para a colônia de Registro.

 

Por volta das 19h, a embarcação aportava no Carapiranga (hoje pertencente a Registro), onde se pernoitava. Os passageiros comiam no refeitório e dormiam nos camarotes dos vapores.

 

Por volta das 7h do dia seguinte, a viagem recomeçava. Deixando o pequeno rio Juquiá, agora o vapor entrava no rio Ribeira de Iguape, mais pitoresco, vivo e alegre.

 

Em marcha uniforme e relativamente rápida, horas depois se atingia o Guaviruva (hoje pertencente a Registro) e o Jipovura, já em Iguape, onde, em 1913, seria instalada a primeira colônia japonesa do Brasil – Katsura.

 

Por volta das 15h, eram avistados os cumes das torres da Igreja do Bom Jesus. Os casarões, pouco a pouco, surgiam aos olhos dos passageiros. Desde o Porto do Ribeira até o porto do Valo Grande descortinavam-se, a cada passo, o topo das casas altas. Passava-se o Valo Grande e, em breve tempo, se contornava a cidade em direção ao cais de desembarque da Companhia Fluvial.

 

Em 1915, o coronel Jeremias Júnior, chefe político do Vale do Ribeira na época, e seu sócio, capitão Anthero Gomes, fundaram a Empresa de Transportes Iguape-Juquiá. O novo empreendimento contava com várias lanchas à gasolina para transporte de passageiros e de malas postais, entre a cidade de Iguape e o seu distrito de Santo Antônio do Juquiá, que era o ponto terminal da Estrada de Ferro. Entre as embarcações dessa empresa destacava-se a lancha “Iguape”.

 

Em 1916, essa empresa criou uma nova linha de navegação, de Xiririca a Cananeia, com escala no bairro de Subauma, em Iguape. A empresa também adquiriu chatas para executar o serviço de embarque e desembarque de cargas dos navios que tocavam o porto de Iguape. Após a morte do coronel Jeremias Júnior em 1929, a empresa passou para as mãos do capitão Anthero Alves de Moura, que residia em São Vicente, onde era chefe político.

 

O leitor observou que uma viagem de Santos a Iguape, nas primeiras décadas do século XX, primeiramente por trem e depois por vapor, não demorava menos do que dois dias!

 

 

ROBERTO FORTES

ROBERTO FORTES, escritor, poeta e jornalista, é autor do livro de contos “O Tucano de Ouro - Crônicas da Jureia” (Inteligência Editora, 2012), além de centenas de crônicas e artigos publicados na imprensa do Vale do Ribeira. É sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br


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