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Ernesto Guilherme Young, o engenheiro inglês que estudou o Vale do Ribeira

 

Engenheiro, historiador, jornalista e político, Ernesto Guilherme Young nasceu em Londres no dia 10 de setembro de 1850. Era filho de Carlos Henrique Young (natural de Kidderminster, falecido em Iguape, aos 81 anos, em 12 de janeiro de 1892), sendo irmão de Henry George, Edward e Alfred.  

 

Major Ernesto Guilherme Young, com a farda da Guarda Nacional, no início do século XX.
Major Ernesto Guilherme Young, com a farda da Guarda Nacional, no início do século XX.

Após se formar em engenharia, foi recebido como membro do conceituado Institut Civil Ingenners. Em 1871, com apenas 21 anos, embarcou para o Brasil, atraído pelas grandes possibilidades de um país em pleno desenvolvimento. Escolheu São Paulo para se estabelecer, tendo vindo em seguida para Iguape, onde se fixou definitivamente. Em seguida, os seus irmãos também imigraram ao Brasil.

 

Ernest William Young era o seu nome de batismo, passando a assinar Ernesto Guilherme Young após adotar a nacionalidade brasileira. Na época em que chegou ao Brasil, Iguape já era uma cidade cuja decadência econômica se insinuava claramente, mas ainda possuía uma vida agitada, um comércio relativamente abastado e um porto no qual inúmeros navios faziam escala.

 

Foi representante na cidade de várias companhias de navegação, como a Hammond e a Companhia de Navegação e Mineração Sul Paulista, que pertencia ao poeta e jurista santista Vicente de Carvalho, grande amigo de Iguape.

 

 

A FAMÍLIA

 

Família Young, em 1914: Em pé, da esquerda para a direita: Augusto Baynes Young; Eduardo João Alfredo Young; Ernesto Carlos Young; Ernesto Guilherme Young (com a neta Maria de Lourdes nos braços); Antônio Zacharias Teixeira; Salvador Vital de Moraes; Sentadas: Alice Young Petters (viúva de Augusto Petters); Ida Zenóbia (filha de Alice); Eufrozina Gatto Young (esposa de Eduardo, com Esther nos braços e Eduardinho em pé à frente); Esther Baynes Young (esposa de Ernesto Young, com a menina Yule, de costas); Izabel Adelaide Young Teixeira (esposa de Antônio Zacharias Teixira, segurando o filho); Sarah Young Moraes, esposa de Salvador Vital de Moraes, com bebê no colo; Júlia Esther Young Gatto (viúva de Antônio Ribeiro Gatto, com Mariana (de colar à frente, filha de Izabel); os dois meninos à frente são filhos de Horácio Baynes Young, que não está na foto.
Família Young, em 1914: Em pé, da esquerda para a direita: Augusto Baynes Young; Eduardo João Alfredo Young; Ernesto Carlos Young; Ernesto Guilherme Young (com a neta Maria de Lourdes nos braços); Antônio Zacharias Teixeira; Salvador Vital de Moraes; Sentadas: Alice Young Petters (viúva de Augusto Petters); Ida Zenóbia (filha de Alice); Eufrozina Gatto Young (esposa de Eduardo, com Esther nos braços e Eduardinho em pé à frente); Esther Baynes Young (esposa de Ernesto Young, com a menina Yule, de costas); Izabel Adelaide Young Teixeira (esposa de Antônio Zacharias Teixira, segurando o filho); Sarah Young Moraes, esposa de Salvador Vital de Moraes, com bebê no colo; Júlia Esther Young Gatto (viúva de Antônio Ribeiro Gatto, com Mariana (de colar à frente, filha de Izabel); os dois meninos à frente são filhos de Horácio Baynes Young, que não está na foto.

Ernesto Guilherne Young casou-se na Inglaterra com Esther Baynes Young e, já no Brasil, foi patriarca de uma família numerosa, constituídas por dez filhos: Alice Young Petters, casada com Augusto Petters (avós da poetisa Adelaide Petters Lessa); Ernesto Carlos Young, casado com Sílvia Rebello Young; Júlia Esther Young Gatto, casada com Antônio Ribeiro Gatto; Eduardo João Alfredo Young, casado com Eufrosina Gatto Young; Isabel Adelaide Young Teixeira, casada com Antônio Zacharias Teixeira; Fernando Guilherme Young, casado com Maria Vieira Young; Sarah Young Moraes, casada com Salvador Vital de Moraes; Horácio Baynes Young, casado com Maria Amaral Young; Bertha Young, falecida criança; e Augusto Young.

 

Ernesto Young, com a esposa Esther, na sala de estar de sua chácara, no início do século XX.
 

Ernesto Young, com a esposa Esther, na sala de estar de sua chácara, no início do século XX.


Durante toda a vida Ernesto Young residiu com a família em sua bela chácara, que ficava na antiga rua Direita (hoje 9 de Julho), em cujo prédio atualmente funciona a Casa da Sopa. A residência era decorada com pesados móveis vindos da Inglaterra, como também as vestes e as louças. Sobre uma mesa de tripé, Esther Young pousava a sua Bíblia inglesa para a leitura nos fins de tarde.

 

Alguns de seus descendentes ainda se encontram em Iguape, enquanto outros se estabeleceram em São Paulo e até mesmo nos Estados Unidos.

 

O ENGENHEIRO

 

Ernesto Young jovem, em 1890.
Ernesto Young jovem, em 1890.

Em 1873, recentemente chegado ao Brasil, Ernesto Young trabalhou como guarda-livros interino da colônia de Cananeia. Naquela localidade, havia sido estabelecida pelo Governo da Província de São Paulo uma colônia de imigrantes. Como engenheiro, Ernesto Young realizou importantes trabalhos em diversas cidades do Estado de São Paulo como Descalvado, Campinas, Atibaia, Pirassununga, Porto Ferreira, principalmente na construção de pontes e outras obras de engenharia.

 

Em 1892, foi nomeado membro-correspondente da Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo e, naquele mesmo ano, instalou o primeiro Posto Meteorológico de Iguape, sendo ele o primeiro a fazer observações sobre o clima do município e região.

 

Em 1893, organizou o mais completo mapa do município de Iguape e da região, baseado em trabalhos de cartógrafos anteriores e em suas constantes viagens científicas pelo Vale do Ribeira.

 

Foi representante na cidade de várias companhias de navegação, como a Hammond, de Walter J. Hammond, e a Companhia de Navegação e Mineração Sul Paulista, que pertencia ao poeta e jurista santista Vicente de Carvalho, grande amigo de Iguape. Sobre a inauguração do vapor “Isabel” (depois “Vicente de Carvalho”), em 5 de fevereiro de 1893, noticiou a “Gazeta de Notícias”, do Rio de Janeiro, em seu numero 36, de 6/2/1893:

 

“Iguape, 5 Houve hoje experiência official do vapor Isabel, da Companhia Sul Paulista, com numerosa assistência. O vapor, de systema de roda à popa, feito em Inglaterra e armado aqui pelo gerente Ernesto Young, desenvolveu a marcha de 12 kilometros por hora contra a correnteza do rio Ribeira. Tem excellentes commodos para passageiros e mercadorias, iguaes aos vapores de alto bordo. Exito brilhante, satisfazendo plenamente a população d´esta cidade.”

 

Juntamente com o major Ricardo Krone, foi nomeado pela Sociedade Científica de São Paulo, em sessão de 3 de fevereiro de 1904,  para  estudarem os meios de proteção às grutas do Vale do Ribeira, que estavam sendo bastante depredadas. Valiosos foram para Krone, em seus estudos das cavernas, os conhecimentos técnicos do engenheiro Young, que desenhou muitos croquis da região.

 

Em 1904, Ernesto Young, juntamente com o tenente Eduardo Augusto Browne, apresentou ao Congresso do Estado de São Paulo um memorial justificativo de para a construção de uma estrada de ferro de Iguape a São Paulo. Esse projeto, no entanto, não teve andamento. Somente dez anos mais tarde seria inaugurada a Estrada de Ferro Santos-Juquiá.

 

O POLÍTICO

 

Eleito vereador com expressiva votação nas eleições de 30 de julho de 1895, tomou posse em 7 de janeiro  de  1896, e nesse mesmo dia foi escolhido  pelos  seus  pares para ser o Intendente de Iguape (cargo hoje equivalente a prefeito).

 

A Câmara eleita tinha o coronel Agostinho José Moreira Rollo (Coronel Rollo) como presidente e o tenente-coronel Zacharias Augusto Teixeira como vice-presidente, sendo os demais vereadores figuras ilustres da época, como o capitão Júlio Fernandes de Aquino, o vice-cônsul português Antônio Ferreira de Aguiar (que faleceu em 11 de fevereiro de 1896), o tenente José de Souza e Silva e o major Joaquim José Rebello (Major Rebello).  Foi reeleito nesse cargo nos dois anos seguintes.

 

Em 30 de outubro de 1898, novas eleições são realizadas (naquele tempo as eleições eram a cada três anos), sendo Young reeleito, tomando posse em 7 de janeiro de 1899, quando outra vez foi escolhido para o cargo de Intendente.

 

Permaneceu como governante de Iguape até o dia 3 de janeiro de 1900, quando, devido a manobras políticas, foi substituído pelo coronel Jeremias Júnior. Retornou ao cargo em 10 de setembro desse mesmo ano, onde permaneceu até setembro de 1901.

 

Como administrador do município, realizou um governo austero e equilibrado, no mais refinado estilo britânico, tendo se destacado por obras de infraestrutura, saneamento e educacionais. Note-se que o cargo de Intendente era o único remunerado, porém Young abriu mão do ordenado a que tinha direito, o que representou para a Câmara, durante os quatro anos em que administrou o município, uma economia de 4 contos de réis.

 

Recebeu a patente de major da antiga Guarda Nacional, passando a ser conhecido como Major Young.

 

Maçon, fez parte da Loja Maçônica Iguapense, do Grande Oriente do Brasil.

 

O ROUBO DE SÃO MIGUEL

 

Um acontecimento inusitado ocorreu em 1897, envolvendo o então padre de Iguape, José Moreau. Seu nome de batismo era Jean Moreau. Chegando em Iguape, passou a se chamar José Moreau (ou José Moraes, para alguns). Moreau foi vigário pelos idos de 1896/1897.

 

Por volta da década de 1860, a Irmandade do Bom Jesus de Iguape doou a imagem de São Miguel à Capela do Cemitério, onde desde então ficou entronizada. Ocorre que o inquieto padre Moreau entendeu que essa imagem deveria era ficar na Igreja Matriz de Iguape, dedicada ao Bom Jesus.

 

Sendo assim, resolveu ir até o Cemitério e, de revolver em punho, como se estivesse a empunhar um turíbulo ou outro objeto santo, intimou, sem mais nem menos, ao zelador do cemitério a lhe entregar a imagem de São Miguel. O assustado zelador, sem esboçar qualquer reação, não teve outra alternativa a não ser passar às mãos do padre o santo sob a sua guarda.

 

Evidentemente que a notícia desse inusitado “sequestro” de São Miguel se espalhou como o vento pela cidade, sempre pacata e sossegada. Sabendo do fato, o intendente de Iguape, major Ernesto Guilherme Young não perdeu tempo e foi se encontrar com o “raptor” no campo do Rosário e, no meio de várias testemunhas, intimou-o a devolver o santo ao seu nicho, no cemitério, o que Moreau foi obrigado a fazer por força das circunstâncias. O major Young requereu a vistoria, exame e auto de corpo de delito na capela e na imagem.

 

Assim, o desassossegado Moreau teve que amargar não ter conseguido o seu intento. Pouco depois, os seus superiores eclesiásticos o “convidaram” a procurar outros ares paroquianos.

 

AS DIVISAS COM ITANHAÉM

 

Em princípio de 1896, a Câmara Municipal de Itanhaém resolveu reclamar junto ao Governo do Estado e à Assembleia Legislativa a posse do território compreendido desde a barra do rio Una até o canto do morro da Jureia. A Edilidade itanhaense baseava a sua pretensão de posse num acordo feito, em 1747, entre o padre de Itanhaém, Diogo Rodrigues de São José, e o de Iguape, Antônio Ribeiro. Ocorre que esse acordo foi tão somente em nível eclesiástico, não tendo sido oficializado pelas câmaras de ambas as vilas. Para defender os interesses de Itanhaém foi encarregado o historiador e pintor Benedito Calixto (1853-1927), e os de Iguape, o historiador Ernesto Guilherme Young.

 

Assim comissionado, Young pesquisou os arquivos da Paróquia de Iguape e dos cartórios locais. No Livro do Tombo, encontrou registro feito pelo padre João Crisóstomo de Oliveira Salgado Bueno que, de fato, os padres das duas vilas haviam feito o referido acordo; no entanto, o governo da Capitania de São Paulo, em 22 de dezembro de 1817, ordenou ao capitão-mor da Vila de Iguape, José Antônio Peniche, que reconhecesse aquele território como distrito da Vila de Iguape, mandando, em 1818, ao Bispo de São Paulo, D. Matheus de Abreu Pereira, que, eclesiasticamente, ficasse “por termo dividente a barra do rio Yuna”, recobrando, assim, a vila e freguesia (paróquia) o seu antigo limite.

 

No despacho, enviado em 12 de dezembro de 1818, ao padre João Crisóstomo, o Bispo de São Paulo determinou: “Fique por termo de divisão entre as freguesias de Iguape e Conceição de Itanhaem o rio Yuna, e os moradores mencionados que se estabelecerem, sejam fregueses de Iguape.”

 

No entanto, os interesses da Vila de Itanhaém não se limitaram apenas ao trecho entre a barra do rio Una e o canto do morro da Jureia: pretendiam também estender os seus limites no rumo sueste-noroeste até atingir o rio Juquiá, tomando para si as freguesias de Juquiá e Prainha (Miracatu). A Vila de Itanhaém não apresentou documentos históricos comprobatórios de sua pretensão, mas alegou “que a constante e antiga tradicção affirmava ser a divisa civil, a mesma que a ecclesiastica, vindo a ser na marinha, desde o rio Mongaguá ao norte, até o cume da Juréa ao sul [..]”. Ou seja, Itanhaém pretendia valer os seus pretensos direitos baseando-se na tradição.

 

Após reunir documentação comprobatória suficiente, Ernesto Young publicou o resultado de sua pesquisa no livreto “A questão de divisas de Iguape com a Villa de Conceição de Itanhaem” (Typographia Castro, 1906, Iguape). Os documentos pesquisados por Young foram decisivos para que a Assembleia Legislativa confirmasse a posse de Iguape sobre a região contestada.

 

O HISTORIADOR

 

Foi como intelectual que Ernesto Young conquistou o seu maior brilho. Interessado pela história local, realizou profundo levantamento sobre as origens de Iguape, conseguindo publicar, em 1896, após anos de pesquisa, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do qual será sócio, o seu clássico ensaio “Esboço Histórico da Fundação da Cidade de Iguape”.

 

É' o mais completo trabalho histórico sobre as origens da cidade publicado até hoje. Nesse estudo, Young, após exaustivas pesquisas nos arquivos da Igreja de Iguape e nos cartórios locais, identificou o Bacharel de Cananeia como sendo Cosme Fernandes, o que foi posteriormente avalizado por renomados historiadores como Teodoro Sampaio e outros.

 

Em 20 de junho de 1895, Ernesto Young era admitido como sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, recentemente fundado em 1º de novembro de 1894, e que viria a se tornar uma das mais importantes instituições culturais do País.

 

Em reconhecimento aos serviços prestados ao IHGSP, no dia 20 de agosto de 1901, foi aceito como sócio honorário dessa respeitável instituição. A esse respeito, escreveu em 1908 o ilustre Dr. Edmundo Krug, sócio do IHGSP e presidente da Sociedade Cientifica de São Paulo:

 

“Ernesto Guilherme Young prestou tão relevantes serviços ao nosso Estado, que o Instituto Histórico e Geográfico de S. Paulo achou-se na agradável contingência de conferir-lhe o título de sócio honorário.”

 

O JORNALISTA

 

Em 1899, juntamente com o major Abel Alves Fortes, publicou o antológico “Almanach Iguapense”, editado por Francisco Eduardo de Castro, que foi um marco da imprensa local, onde, além de matérias variadas, incluiu seus trabalhos “Descrição da Zona do Rio Ribeira de Iguape” e “Uma Amostra da Nossa Entomologia”.

 

Também ao lado do inseparável companheiro de letras major Abel Fortes, fundou, no dia 18 de fevereiro de 1900, o semanário “Comarca de Iguape”, um dos mais importantes jornais da história da imprensa iguapense, que reunia a nata da intelectualidade da época.

 

A “Comarca de Iguape” era impresso pela Tipographia Castro, situada no Largo da Matriz. Esse periódico veio substituir ao “Município de Iguape”, editado anteriormente pela mesma tipografia.

 

O jornal contava com a colaboração de ilustres iguapenses da época, como o coronel Agostinho José Moreira Rollo, o major Ricardo Krone, o poeta José  Emílio Fortes (Jocelyn), o major Gentil Moreno Fortes, o poeta Fernando Álvaro Rebello, entre muitos outros.

        

Era um “semanario dedicado ao progresso da Comarca”. Depois passou a ter Antônio Marques Teixeira do Amaral como secretário. Funcionou regularmente até fins de 1901.

 

O POETA

 

Poema escrito por Young, “I know who”, em 15/8/1881.
Poema escrito por Young, “I know who”, em 15/8/1881.

Em sua juventude, Ernesto Young escreveu, à mão, em um pequeno caderno pautado, dezenas de poemas, e também algumas reflexões, sempre em inglês, seu idioma materno. Conforme lembrou a poetisa Adelaide Petters Lessa, bisneta de Young:

 

“Usava o verso como professor de humanismo, ecologia e ética. Nasceu poeta. De cada poema retira-se um ensinamento, cada um é educativo.” Os versos descrevem “jogos de cricket, viagem de vapor, as estações que ele percorreu no trem na Paulista, a história do testamento cheirando a whisky strong, a luta do Lagarto com a Serpente e o sintomático título In this wide world all alone. 

 

Vários de seus poemas foram dedicados à esposa Esther. Segundo Adelaide, esses versos “deixam transparecer a simplicidade, a ternura e a confiança com que eles se tratavam: ´I know who´, ´Kind lov I send you Esther dear´. Pode-se notar como ele percebia a saudade que ela sentia de suas amizades na Inglaterra, bem como a festa que era para a família o regresso dele ao lar após suas viagens de engenheiro-pesquisador, coletor de mostras de madeira e de borboletas, ecólogo por amor à natureza do Brasil”.

 

Continua Adelaide:

 

“São textos poéticos de mais de um século, datados, assinados. Ele anotava o número de sílabas do verso, o ritmo e as rimas desejadas. Sobreviveram cerca de 50 poemas, vários sem título, outros inacabados, quem sabe legando á bisneta vindoura algum fragmento de gene-para-a-poesia... Alguns são versiprosa, crônicas de fiel observador da vida social e esportiva ao seu redor. Em caderninho de bolso ele desenhava as curvas de rio, as altitudes do terreno, delimitando as fronteiras de Iguape e dos vizinhos municípios. Talvez o mais raro dos intendentes, foi ele o agrimensor, o prefeito-poeta.”

 

O APRENDIZADO AGRÍCOLA 

 

No mês de agosto de 1901, o Governo do Estado resolveu organizar um Campo de Experiências em Iguape, num terreno doado pela Câmara, localizado ao pé do Morro da Espia, a cua administração incumbiu o Dr. Lourenço Granato, inspetor do 6º Distrito Agronômico.

 

Já em 18 de março de 1903 o secretário da Agricultura aprovava as instruções apresentados pelo Dr. Lourenço Granato para o funcionamento, anexo ao Campo de Experiências, do Aprendizado Agrícola “Dr. Bernardino de Campos”, assim denominado em homenagem ao ilustre paulista que foi presidente do Estado de São Paulo em duas ocasiões, 1892-1896 e 1902-1904. Esse aprendizado foi o primeiro criado no Estado de São Paulo, sendo o segundo em São Sebastião (SP), em 1905, denominado “João Tibiriçá”, outro notório político paulista.

 

O Aprendizado Agrícola tinha por finalidade: difundir os preceitos e as práticas mais úteis à agricultura, por meio de lições teóricas elementares sobre as diversas disciplinas que constituíam o seu programa de ensino e as demonstrações essencialmente práticas a elas correspondentes, formando cultivadores práticos aptos para dirigir os diversos trabalhos das propriedades rurais.

 

Posteriormente, o Dr. Lourenço Granato foi removido para Campinas, onde, já em 1907, era diretor do conceituado Instituto Agronômico daquela cidade. Em seu lugar, foi nomeado o major Ernesto Guilherme Young para diretor do Aprendizado Agrícola.

 

Em 1911, Ernesto Young, que também era presidente da Comissão Municipal de Agricultura, enviou ao “Jornal do Brasil”, do Rio de Janeiro (nº 270, de 26/9/1912), algumas informações sobre a produção do arroz em Iguape:

 

“Em Iguape também foi menor do que a anterior a safra de 1911. Prejudicaram-na as chuvas na occasião das queimas, diminuindo a superfície plantada. As pragas do ´curuquerê´ e dos ´pulgões´ poucos damnos causaram. O arroz se exporta beneficiado para o Rio de Janeiro e Santos. Os preços médios em 1911 foram de 3$000 [três mil réis] a 4$000 [quatro mil réis] por alqueire de 40 litros em casca, na casa do lavrador. No município há 11 machinas aperfeiçoadas, a vapor, para beneficiar e 10 movidas a água, [pelo] systema de pilões.”

 

O Aprendizado Agrícola funcionou regularmente até o início de 1915, sendo então desativado. O major Young ficou no cargo de diretor até a sua morte.

 

Nesse local, em 1943, o Ministério da Agricultura criou em Iguape o Posto Agropecuário, com o objetivo de prestar assistência aos agricultores iguapenses e incrementar a produção de sementes. Esse posto, sob a direção do engenheiro-agrônomo Dr. Heitor Cordeiro, funcionou ininterruptamente até 1960, quando foi desativado.

 

OS ESTUDOS SOBRE O ARROZ DE IGUAPE

 

Em 1898, o major Young publicou o opúsculo “A Produção do Arroz em Iguape”, onde faz uma completa descrição desse cereal, então chamado de “legítimo de Iguape”.

 

Segundo Young, o arroz iguapense possuía casca de cor branca revestida por uma espécie de pelugem áspera, que os lavradores chamavam de jussu. A semente era alongada, de cor branca-mate, adquirindo brilho com a brunidura (beneficiamento). Um litro desse arroz em casca, na média, pesava 615 gramas e continha 21.200 sementes. Já um litro do “arroz maranhão”, que não era tão branco quanto o de Iguape, pesava menos (560 gramas), enquanto um litro do “arroz carolina”, que mais se parecia com o de Iguape, pesava 620 gramas e continha 21.000 sementes. De todas essas espécies, o mais apreciado era o arroz de Iguape.

 

A EXPOSIÇÃO MUNICIPAL

 

Em 1906, foi realizada a I Exposição Municipal Agrícola, Zootécnica, Industrial e Artística, promovida pela Câmara de Iguape e organizada pelo cientista Dr. Lourenço Granato, que era o inspetor de Agricultura no Vale do Ribeira, além de ser o diretor do Aprendizado Agrícola “Dr. Bernardino de Campos”, instalado em Iguape no ano de 1903.

 

Essa exposição, que durou de 28 de julho a 9 de agosto, além de outros colaboradores, teve o major Young como diretor técnico dos trabalhos, sendo realizada no Campo de Experiências, anexo ao Aprendizado Agrícola, no Canto do Morro. Participaram dessa exposição o Dr. Carlos Botelho, secretário da Agricultura, e o senador Cândido Rodrigues.

 

AS DIVISAS COM CANANEIA

 

No início do século XX, existiam grandes controvérsias quanto às divisas entre os municípios de Iguape e Cananeia. Acalorados debates foram travados entre as câmaras das duas localidades, que reivindicavam os seus direitos junto ao Governo do Estado. Comissionado pela Câmara de Iguape, o major Ernesto Young organizou um mapa e reuniu documentos históricos para comprovar os domínios iguapenses.

 

Em meados de 1907, entregou à Câmara o resultado de suas pesquisas, intitulado “Memorial Apresentado aos Illmos. e Exmos. Snrs. Presidente e Membros do Senado de S. Paulo pela Câmara Municipal de Iguape Relativamente às Divisas entre os  Municípios de Iguape e Cananéa”.

 

Finalmente, a causa foi ganha em favor de Iguape (segundo o Parecer nº 190, publicado no jornal “Correio Paulistano” de 25-12-1907), coroando o trabalho de Young.

 

O PRIMEIRO MUSEU

 

Afastado da política a partir de 1902, empenhou-se na criação de um museu para a cidade, onde pudesse reunir documentos e objetos relacionados ao passado de Iguape. Pela Lei nº 12, de 23 de dezembro de 1906, foi criado o Museu Municipal de Iguape, por determinação da Câmara local, que tinha como intendente o coronel Jeremias Júnior.

 

Para diretor do museu, foi nomeado o próprio Young, ficando como zelador Manoel Antônio da Rocha. A inauguração deste que foi o primeiro museu da cidade ocorreu no dia 5 de janeiro de 1907. Neste mesmo ano, no mês de junho, Young editou o primeiro (e, provavelmente, o único) número da “Revista do Museu Municipal de Iguape”, onde publicou completo levantamento da região, intitulado “Apontamentos para os estudos da Zona do Rio Ribeira e Município de Iguape”.

 

Em sua edição nº 15.584, de 6 de janeiro de 1907, o “Correio Paulistano” publicou mensagem do major Ernesto Young encaminhada ao presidente do Estado de São Paulo, Jorge Tibiriçá, comunicando a criação do Museu de Iguape:

 

“Tenho a honra de comunicar a v. exa. ter sido inaugurado hoje, nesta cidade, o museu municipal creado pela Camara Municipal para activar a propaganda em prol deste opulento município. Ao acto inaugural compareceram auctoridades locaes, commerciantes, agricultores, reinando grande animação. Direcção do museu foi-me confiada. Minhas Saudações. Ernesto Young.”

 

Por ato do secretário da Agricultura do Estado de São Paulo, em novembro de 1908, Ernesto Young foi nomeado presidente da Comissão Municipal de Agricultura, com os membros Zacharias Augusto Teixeira e Alfredo Fortes.

 

De 7 a 16 de setembro de 1910, era realizado em São Paulo o II Congresso Brasileiro de Geografia, que tratou de assuntos relativos à Geografia, Vulcanologia e Sismologia, Oceanografia, Meteorologia e Climatologia, Magnetismo Terrestre, Antropologia, Etnografia, Explorações Geográficas, Geografia Histórica, entre outras ciências. Ernesto Guilherme Young participou desse congresso, ao lado de ilustres cientistas e  intelectuais como Edmundo Krug, Manoel Pio Correa, Ermelino Agostinho Leão, Afonso de Freitas, Antônio Ludgero de Souza e Castro, Cornélio Schmidt, Domingos Jaguaribe, Eugênio de Andrada Egas, Guilherme Wendel, Gentil de Assis Moura, Horace Lane, João Pedro Cardoso, João Carlos Greenhalgh, Ricardo Krone, João Mendes de Almeida Júnior, entre muitos outros.

 

Por ato do secretário da Agricultura do Estado de São Paulo de 19 de janeiro de 1913, Ernesto Young foi nomeado presidente da Comissão Municipal de Agricultura, com os membros capitão José Anastácio Fortes e capitão Manoel Alves da Costa.

 

VIDA PÚBLICA

 

Ernesto Young, com a esposa Esther.
Ernesto Young, com a esposa Esther.

O major Ernesto Guilherme Young teve uma vida pública muito intensa. Engenheiro, pesquisou a geografia, hidrografia, fauna e fauna do Vale do Ribeira, escrevendo trabalhos históricos e científicos e confeccionando mapas precisos da região. Foi pesquisador e colecionador de entomologia (ramo da zoologia que estuda os insetos), reunindo uma valiosa coleção.

 

Foi vereador e intendente de Iguape, cargos que exerceu gratuitamente, com lisura e competência. Procurador da Irmandade de Nossa Senhora das Neves. Procurador e depois provedor do Hospital Feliz Lembrança (Santa Casa de Iguape); presidente do Club Recreativo e Recreativo Iguapense, fundado em 8 de março de 1891; bibliotecário e presidente do Gabinete de Leitura de Iguape, fundado em 31 de julho de 1847 e que funcionou regularmente até o ano da morte de Young.

 

Foi um dedicado estudioso da Entomologia (ramo da Zoologia que estuda os insetos), tendo formado uma rica coleção a respeito. Escreveu o estudo “Uma amostra da nossa entomologia”, publicado no “Almanack Iguapense para o anno de 1899”.

 

ESTUDOS HISTÓRICOS E CIENTÍFICOS

 

Ao longo de muitas décadas de estudos dedicados à história, geografia, antropologia, entomologia e outras áreas científicas, o major Ernesto Guilherme Young escreveu e publicou inúmeros trabalhos em livros, revistas, jornais e periódicos.

 

No “Almanach Iguapense para o anno de 1899”, publicou:

 

 “Descrição da Zona do Rio Ribeira de Iguape”.

 

“Uma Amostra da Nossa Entomologia”.

 

 

Na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo”, publicou:

 

Esboço Histórico da Fundação da Cidade de Iguape”  1896, volume II, págs 49-151.

 

“Subsídios para a História de Iguape - Mineração de Ouro” 1900-1901, vol.VI, págs. 400-435;

 

“Subsídios para a História de Iguape - Seus Fundadores” 1902, vol. VII, págs 286-297;

 

“História de Iguape” 1903, vol. VIII, págs 222-375;

 

“História de Iguape”(Documentos para a) 1904, vol. IX, págs 108-326;

 

– “Apontamentos Genealógicos de Famílias Iguapenses” 1905, vol. X, págs 3-28.

 

“Apontamentos sobre Aleixo Garcia” – 1907, vol. XII, págs. 217-228.

 

 

Pelo “Boletim da Agricultura” do Estado de São Paulo publicou:

 

“O Arroz de Iguape” – Série 8, nº 9, págs. 421-425; nº 11, págs. 516-523; nº 12, págs. 583-588, São Paulo, 1907.

 

Calendário Agrícola para a zona sul paulista compreendendo os municípios de Iguape, Cananéia e Xiririca” (in Boletim da Agricultura, Série 10, nº 7, págs. 556-567, São Paulo, 1909).

 

 

Em “O Estado de S. Paulo”, publicou:

 

“Subsídios para a História de Iguape – Seus FundadoresEdição nº 8.638, de 23/7/1902. 

 

 

Na “Revista do Museu Municipal de Iguape” (Typographia Brasil de Rothscild, São Paulo, 1907), publicou:  

 

“Apontamentos para os Estudos da Zona do Rio Ribeira e Município de Iguape”.

 

“Quadro Climatológico” (Anos 1895-1903).

 

 

Publicou ainda:

 

– “A Questão de Divisas de Iguape com a Villa da Conceição de Itanhaem” – Typographia Castro, Iguape, 1896.

 

  “A Produção do Arroz em Iguape” – Iguape, 1898.

 

– “Mineração do Ouro - Subsídios para a História de Iguape” – (Separata) – Typographia do Diario Official, São Paulo, 1902.

 

“A Igreja Matriz da Cidade de Iguape” – Publicado na revista “Santa Cruz”, do Liceu Coração de Jesus, nº 4, ano VI, 1906.

 

  A Cultura do Arroz no Município de Iguape” Typographia Espindola, São Paulo, 1906.

 

“Memorial Apresentado ao Illmos. e Exmos. Snrs. Presidente e Membros do Senado de S. Paulo pela Câmara Municipal de Iguape Relativamente ás Divisas Entre os Municípios de Iguape e Cananéa” – Duprat & Comp., São Paulo, 1907.

 

A MORTE

 

Young dirigiu o primeiro museu de Iguape e também o Aprendizado Agrícola até o dia de seu falecimento, ocorrido em 26 de outubro de 1914, aos 64 anos. O Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo assim se manifestou sobre a sua morte:

 

“Hoje não é possível falar do desenvolvimento das ciências histórica e geológica no Brasil sem a ele associar o nome do inolvidável consócio, que durante quarenta anos proficuamente se entregou a sérias explorações científicas.”

 

Iguape e o Vale do Ribeira perdiam o seu grande estudioso e defensor, que como nenhum outro soube investigar as origens, a história e a geografia regionais.

 

Por ocasião de seu falecimento, o “Correio Paulistano”, nº 18.420, de 28/10/1914. então o mais importante jornal publicado na Capital do Estado, escreveu:

 

Major Ernesto Young – Seu Passamento – Falleceu nesta cidade o major Ernesto Young, director do campo de experiência do Apprendizado Agricola ´Dr. Bernardino de Campos´. Era conhecido naturalista e secretário da junta de alistamento militar. Contava 70 annos de idade e era chefe de numerosa família, mantendo no nosso meio vastas relações. A sua morte causou grande pesar. Deixa algumas producções sobre trabalhos agrícolas. Entre os filhos, o finado deixa o sr. Ernesto Carlos Young e Eduardo Alfredo Young. Era sogro dos srs. Antonio Zacharias Teixeira e Salvador Moraes.”

 

Já o “Jornal do Commercio”, do Rio de Janeiro, em seu número 30, de 29/10/1914, publicou uma nota mais lacônica:

 

“Falleceu em Iguape o major Ernesto Guilherme Young, Director do Aprendizado Agricola, daquella cidade.”

 

Em 1917, durante o governo do prefeito capitão Augusto Rollo, o nome do ilustre inglês que adotou o Brasil como a sua segunda pátria, foi dado a uma rua na Beira do Valo, em Iguape.

 

 

ROBERTO FORTES

ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail:
robertofortes@uol.com.br

 

(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

 

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