A visita do ministro russo Maximow ao Vale do Ribeira

Em junho de 1911, o ministro plenipotenciário da Rússia no Brasil, conde Pedro (ou Pierre) Maximow, acompanhado de Oscar Löfgren, inspetor de Imigração de Santos, visitaram o Vale do Ribeira, em especial a cidade de Iguape e a colônia de Pariquera-Açu, onde haviam se estabelecido imigrantes russos.

Da esquerda para a direita: na frente, Manoel Lino Alves Vieira; Tobias Filho; major Joaquim José Rebello; ministro Pedro Maximow; coronel Jeremias Júnior, prefeito de Iguape; Oscar Löfgren, inspetor da Imigração em Santos; e Arthur de Oliveira Santos, escrivão do Cartório de Registro Civil de Iguape. No alto, o rebocador “São Paulo”, da Alfândega de Santos. (Foto: Revista santista “A Fita”, nº 6, de 1/9/1911, exemplar do acervo da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio - SHEC).
Da esquerda para a direita: na frente, Manoel Lino Alves Vieira; Tobias Filho; major Joaquim José Rebello; ministro Pedro Maximow; coronel Jeremias Júnior, prefeito de Iguape; Oscar Löfgren, inspetor da Imigração em Santos; e Arthur de Oliveira Santos, escrivão do Cartório de Registro Civil de Iguape. No alto, o rebocador “São Paulo”, da Alfândega de Santos. (Foto: Revista santista “A Fita”, nº 6, de 1/9/1911, exemplar do acervo da Sociedade Humanitária dos Empregados no Comércio - SHEC).


Curiosamente, a imprensa paulista e cariosa não deu destaque a essa visita à nossa região, nada publicando a respeito. Por isso, não conseguimos localizar a data exata que o ministro russo veio ao Vale do Ribeira. Mas foi possível estabelecer um período aceitável. Pela leitura dos jornais, ficamos sabendo que, no dia 5 de junho, o ministro Maximow chegava a São Paulo, sendo recebido pelo presidente do Estado (cargo hoje equivalente a governador) Albuquerque Lins. A 9 de junho, seguia para o núcleo colonial de Nova Odessa (SP) afim de conhecer a situação dos colonos. A 15 de junho, o ministro chegava a Santos, “procedente de Iguape”; e a 16 de junho, chegava a São Paulo, “vindo de Iguape”. Com base nessas informações veiculadas pela imprensa da época, é lícito aceitar-se que o ministro russo veio a Iguape e Pariquera-Açu entre os dias 10 e 14 de junho.

Gravura do ministro Maximow, em 1915. (Foto: “A Noite” (RJ), nº 1.404, de 18/11/1915).
 Gravura do ministro Maximow, em 1915. (Foto: “A Noite” (RJ), nº 1.404, de 18/11/1915).


Primeiramente, o ministro Maximow visitou a cidade de São Paulo, onde permaneceu por alguns dias e assistiu aos exercícios realizados pela Força Pública do Estado, dirigidos por instrutores franceses contratados pelo governo do Estado. Em seguida, seguiu para Santos, de onde partiu para Iguape, com a intenção de visitar o núcleo colonial de Pariquera-Açu.


A excursão a Iguape foi feita no rebocador “São Paulo”, da Alfândega santista, que foi gentilmente cedido pelo inspetor dessa repartição, Oscar Löfgren, que acompanhou o ministro. Pedro Maximow agradeceu o “fino trato que lhe foi dispensado pelo comandante e guarnição dessa elegante embarcação, durante a viagem”. (1)


Antes da chegada do ministro Maximow à colônia de Pariquera-Açu, cerca de 60 famílias russas haviam saído dali. O ministro conversou com elas, mas não conseguiu convencê-las a retornarem aos seus lotes. Com certeza, o motivo da evasão desses russos foi a falta de condições que oferecia a colônia, devido ao descaso das autoridades estaduais, e mesmo iguapenses, considerando que a colônia de Pariquera-Açu então pertencia ao município de Iguape.


Em setembro desse ano, um memorando publicado em São Petersburgo, Rússia, sobre essa visita, certamente redigido pelo ministro Maximow, dava as suas impressões a respeito da colônia de Pariquera-Alu:


“As terras marginaes do rio Ribeira são brejosas, cobertas de mattas ou pedregosas. Os colonos, não acostumados ao clima das vastas baixadas cobertas de brejaes, adoecem com febres e outras moléstias, não conhecidas na terra de sua origem. Os lotes cobertos de mattas não servem para a lavoura. Em geral não se presta o terreno em São Paulo para a cultura de gramíneas, com excepção do arroz, sendo unicamente approveitavel para batatas. Em São Paulo não há terra preta, predominando o barro cinzento-azul, areia e pedras. Os immigrantes encontram na sua chegada em São Paulo circunstancias estranhas aos seus hábitos e soffrem prejuízos na sua saúde, causados pelo clima e pela diversidade da alimentação. Não existem estradas no valle do rio Ribeira. O trafego pelos vapores, tanto marítimo como fluvial, é irregular e caro; mesmo os brasileiros alli se queixam constantemente disso. A colônia de Pariquera-assú é uma das mais miseráveis e, a respeito do clima, uma das peiores de todo o Brasil. Nos annos de 1890 a 1910 já foram localizadas alli numerosas famílias de Plock e a 10 annos atráz muitos emigrantes da Galizia; mas quasi todas abandonaram a colônia e mudaram-se para o Paraná. Em vista do exposto, officialmente deve ser prohibida a emigração para aquella zona.” (2)


O jornal oposicionista “Correio de Iguape” (nº 25, de 5/11/1911) atribuiu essa péssima impressão do ministro russo à má direção da colônia e também à facção situacionista de Iguape, então chefiada pelo coronel Jeremias Júnior:


“A facção situacionista de Iguape, que até agasalho negara aos infelizes immigrantes russos, coisa até então nunca vista nesta hospitaleira terra, mudou de táctica e procurando por todos os meios cercar o sr. ministro para evitar que elle tratasse com os opposicionistas que dizem o ´diabo´ da alludida colônia, levou o sr. Maximoff com festanças e banquetes á Pariquera-assú. E s. excia. Agradeceu, como lhe cumpria, elogiando até o seu digníssimo director!


“Difficultem, embora, uma futura immigração russa, não teremos com isso grandes prejuízos. As boas terras de Pariquera-assú ninguém nos tirará e não faltarão braços laboriosos para as tornar úteis! As vias de communicação ainda são insufficientes, mas serão bastantes dentro em breve.


“O clima não deixa nada a desejar: é optimo; e qualquer immigrante das zonas temperadas do velho mundo se aclima sem difficuldade! O azar da colônia de Pariquera-assú é a má administração; e está será melhorada com toda a brevidade.”


Durante a excursão, foram tiradas diversas fotografias. Antes de regressar a Petrópolis (RJ), onde residia, o ministro Maximow dirigiu carta ao presidente do Estado de São Paulo, Albuquerque Lins, que transcrevemos em parte:


“Permita-me ainda v. exa. a satisfação de lhe poder dizer uma palavra de minha admiração muito especial pelo estado, de todo o ponto brilhante, da força pública, cujas manobras, executadas na minha presença sob a metódica direção do tenente-coronel Forzinetti, me deixaram uma das mais belas e vivazes recordações. A precisão, a rapidez que presidiram à execução de todos os exercícios, bem como a perfeita ordem que observei, são dignos de todo o elogio, e não se sabe, positivamente, que mais admirar, se os oficiais ou os soldados.

“Nesses últimos dias, visitei, em companhia do sr. O. Löfgren, inspetor do serviço de imigração, em Santos, duas colônias do Estado e teria faltado a um dever do coração se não tivesse notado o perfeito trato e amabilidade do meu companheiro de viagem, assim como o acolhimento e dos mais hospitaleiros, por parte das autoridades de Iguape e da colônia de Pariquera-Açu, a qual se acha, a meu ver, em plena via de desenvolvimento”.


Pedro Maximow assumiu o cargo de ministro plenipotenciário da Rússia no Brasil em 6 de maio de 1910. Faleceu em Petrópolis (RJ) em 20 de novembro de 1915, onde foi sepultado. (3)


NOTAS

(1) Novo Milênio (http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0182w4.htm). Acesso em 4/6/2020.

(2) Correio de Iguape, nº 25, de 5/11/1911, pág. 1

(3) A Noite (RJ), nº 1.404, de 18/11/1915.


O AUTOR
ROBERTO FORTES

ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br

(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

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