Adélia Victória Ferreira de Sete Barras para a poesia nacional

O Vale do Ribeira sempre foi um celeiro de escritores, poetas, jornalistas e outros artífices da palavra. No rol desses talentos valerribeirenses, salienta-se a figura inconfundível da poetisa Adélia Victória Ferreira, que teve respeitável projeção nos meios culturais da Capital do Estado.

Adélia Victória Ferreira, de Sete Barras para a poesia nacional
Adélia Victória Ferreira, de Sete Barras para a poesia nacional


Nascida na cidade de Sete Barras (SP), Vale do Ribeira, no dia 17 de novembro de 1929, Adélia era filha do casal João Lucas Ferreira e Olinda de Souza Ferreira, sendo irmã de Lília Maria Ferreira Costa, Judith E. Ferreira Reis e Maurício Lucas Ferreira.

Por volta de 1937, quando Adélia tinha 7 anos de idade, a sua família se transferiu para a cidade de Mairinque (SP), onde a futura poetisa fez o curso primário.

Adélia começou a trabalhar aos 10 anos de idade. Aos 14 anos, já demonstrando o seu talento para as letras, foi correspondente do jornal “Cidade de S. Paulo”

Em 1948, aos 17 anos, residindo em Mairinque  com a família,  tendo apenas o primeiro grau escolar, Adélia decidiu fugir de casa,  motivada pelo desejo  de  estudar Direito, com o que o pai não concordava. Tabelião,  ele  queria  a filha no cartório, trabalhando a seu lado. Sem auxílio de quem quer que fosse, Adélia venceu, com muito esforço e dedicação, as vicissitudes que se colocaram em seu caminho. 

Várias fases de Adélia: mocidade, maturidade, velhice.
Várias fases de Adélia: mocidade, maturidade, velhice.



A ADVOGADA



Estudando por conta própria, desde a adolescência, Adélia fez o Curso Clássico no Colégio São Joaquim, em São Paulo, formando-se em Latim, Grego, Espanhol, Inglês e Francês.

Cursou o Ginásio e o Colégio também em São Paulo. Depois de muito estudo, conseguiu passar no vestibular de Direito da Faculdade do Largo de São Francisco (Universidade de São Paulo), realizando, assim, o grande sonho de sua vida.  Iniciando o curso em 1952, aos 23 anos de idade, Adélia bacharelou-se em Direito, num dos primeiros lugares, com a turma de 1956, colando grau no dia 23 de janeiro de 1957.

Entre os colegas de Adélia elencavam-se alguns jovens que, mais tarde, teriam grande destaque nos cenários paulista e nacional: Luiz Carlos Santos (1932-2013), advogado, ministro e articulador político; Rubens Approbato Machado (1933-2016), advogado tributarista; Mário Chamie (1933-2011), advogado e poeta, criador da poesia práxis; Umberto Luiz D´Urso (1925-2014), advogado e professor, pai de Luiz Flávio Borges D´Urso, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - OAB-São Paulo.

Por seu destaque na Academia, Adélia foi contemplada com uma bolsa de estudos de três meses na Alemanha Ocidental, com visitas às universidades das cidades de Colônia, Bonn, Frankfurt, Darmenstad e Hidelberg.

Ao mesmo tempo em que estudava, Adélia  se desdobrava em vários empregos. Por dez anos, trabalhou na televisão e no teatro como atriz dramática, apresentadora, locutora etc.  

Trabalhou também na Aeronáutica e no Jockey Club de São Paulo, como secretária da diretoria, e depois como procuradora jurídica.

Em 1969, numa volta ao mundo, conheceu vários países: França, Tchecoslováquia, Rússia. Estados Unidos, Japão, China, Hong Kong, Tailândia, Índia, Irã, Turquia, Grécia e Itália. Viajou também à Argentina e Uruguai. Na Rússia, dançou dentro do Kremlim.

EMANCIPAÇÃO DE MAIRINQUE

Adélia Victória Ferreira participou ativamente da emancipação de Mairinque (SP), cidade onde viveu a infância e adolescência. A primeira comissão pró-emancipação foi criada em 1950, presidida pelo cidadão Victorino Viliotti. Faziam parte dessa comissão, entre outros Gastão Bussamara, Maurílio Pereira de Araújo, João Chesine, João Lucas Ferreira (pai de Adélia) e Arganauto Ortolani.

O deputado Lino Matos, ligado politicamente a São Roque (SP), trabalhou junto à Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, mas, apesar do empenho realizado pela Comissão de Emancipação, da qual participava ativamente Adélia Victória Ferreira, a pretensão mairinquense foi derrotada, com 22 votos a favor e 32 contrários. Somente em 27 de dezembro de 1958 foi aprovado o projeto que criava 67 novos municípios, inclusive o de Mairinque.

Finalmente, com a Lei Estadual nº 5.285, de 18 de fevereiro de 1959, Mairinque foi elevada à categoria de município. Em 4 de outubro daquele mesmo ano ocorreram as eleições municipais para o mandato de 1960 a 1963. Para prefeito elegeu-se Arganauto Ortolani, tendo como vice José Francisco dos Santos (Zé Enfermeiro).

Para vereadores, os eleitores do novo município escolheram: João Lucas Ferreira (pai de Adélia Victória Ferreira), Luiz Zaparolli, Severino Simões de Almeida, Waldemar Pereira, Abel Souto, Antonio Cesar Netto, Ataliba da Silva, João Chesini, José Angelini, Orlando Silva e Raul Cavalheiro. O vereador João Lucas Ferreira foi eleito o primeiro presidente da Câmara Municipal de Mairinque, para o biênio de 1960-1961.

TEATRO

Quando ainda fazia faculdade, Adélia  trabalhava em quatro canais de TV:  Paulista  (hoje Globo), Tupi, Record e Cultura. Como atriz dramática, estreou em “A Bela e a Fera”, com o conhecido ator Dionísio Azevedo (1922-1994).

Adélia teve atuante participação no Departamento de Teatro do Centro Acadêmico XII de Agosto, da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, que encenou várias peças teatrais.

Em 13 de junho de 1953, estreava a pela “Eu já estive lá”, do dramaturgo americano John Boynton Priestley (1894-1984), com tradução de Daniel Rocha. Do elenco, participavam, além de Adélia Victória Ferreira, também Angélica Milena, Gildásio Pereira, J. J. Tanus, Paulo Hildebrando Barbosa e Rodrigo Rodrigues de Moraes. Direção de Evaristo Ribeiro, com cenários de Clóvis Garcia.

Em abril de 1955, era encenada a peça “Rosmersholm”, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), no Teatro Leopoldo Fróes, em São Paulo. A produção foi do Departamento Teatral da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, com direção de Evaristo Ribeiro. No elenco, Adélia Vitória Ferreira (que interpretou a personagem Rebeca West), Ophélia de Almeida, José Carlos Viegas, Sérgio Salém, Amim Abujamra e José Pacheco.

“Rosmersholm”, escrita e publicada em 1886, foi representada pela primeira vez em 17 de janeiro de 1887, no Den Nationale Scene, em Bergen, Noruega. Em 1893, voltou a ser representada no Théâtre de l’Oeuvre de Lugné-Poe, em Paris, transformando-se em representante do movimento simbolista francês. A encenação de 1955 foi a primeira apresentação dessa peça no Brasil.

O crítico teatral Mattos Pacheco, em sua coluna “Ronda”, do “Diário da Noite”, de São Paulo, em sua edição nº 9.290, de 27/4/1955, mesmo reconhecendo as deficiências da montagem da peça e das interpretações, escreveu que é “forçoso reconhecer que o fato de estudantes de Direito se animarem a fazer teatro, fazer logo Ibsen, mostra coragem, decisão, interesse por um Teatro de verdade, com T maiúsculo.”

Mattos Pacheco reconheceu a performance de Adélia: “Dos intérpretes, pelo menos uma, merece destaque especial, Adelia Victória foi quem mais se aproximou da sua personagem.” E concluiu: “Os estudantes de Direito estão de parabéns, não pelo ´Rosmersholm´ que fizeram, mas pela coragem, quase audácia, de montar Ibsen e se disporem a fazer Teatro. Devem continuar.”

A POETISA

Desde a infância Adélia escreveu poesias. Durante muitos anos publicou a sua produção poética nos jornais “Gazeta de Pinheiros”, “Gazeta do Butantã”, “O Dia”, “Diário Popular”, “Voz da Poesia” (do Movimento Poético Nacional) e “Fanal” (da Casa do Poeta de São Paulo, que dirigiu por vários anos).

Em 1978, publicou o seu primeiro livro, “Cantos de Amor à vida”, no qual reuniu todos os poemas que escreveu desde aos dez anos de idade. Não fez questão de que o seu livro de estreia fosse prefaciado por um notório poeta, por considerar ser constrangedor um pedido de tal natureza. Preferiu o julgamento “dos que, lendo a sua mensagem, venham a encontrar ou não alguma similaridade com seus próprios sentimentos e com a maneira com que os traduziram por escrito”, conforme lê-se na orelha do livro.

Após se aposentar em 1977, Adélia passou a dedicar-se inteiramente à poesia, arte que cultivava desde a mais tenra idade. 

Em 1973, escreveu o “Hino à Lapa”, com música do maestro Victor Barbieri.

Em 1980, ao conhecer o poeta e trovador Izo Goldman (1932-2013),  a poetisa estendeu o seu amor pelo soneto também à trova.  Adélia é considerada uma das maiores sonetistas brasileiras, além de exímia trovadora. 

Em 1983, escreveu o “Hino da Universidade Federal de Uberaba” (MG). Do concurso, participaram onze concorrentes, não havendo, no entanto, premiação.

Adélia pertenceu a inúmeras academias de letras nacionais e estrangeiras, sendo laureada com comendas, medalhas, troféus e diplomas honoríficos, além de centenas de prêmios literários. Foi uma figura de destaque em muitas antologias poéticas, jornais, sites e blogs.

Fez parte da Casa de Francisca Júlia e da Academia Eldoradense de Letras, entidades culturais fundada em 1978 pelo poeta João Mendes em Eldorado (SP). Na ocasião, Adélia declamou a fantasia poética “Reportagem sobre Francisca Júlia e sua terra” na inauguração da Casa de Francisca Júlia; e, também, o poema “À terra de Francisca Júlia” na inauguração da Academia Eldoradense de Letras.

CASA DO POETA

Presidentes da Casa do Poeta “Lampião de Gás” de São Paulo: Da esquerda para a direita: Aristóteles Lacerda Jr, Wilson de Oliveira Jasa, Adélia Victória Ferreira e Antônio Lafayette Natividade Silva.
Presidentes da Casa do Poeta “Lampião de Gás” de São Paulo: Da esquerda para a direita: Aristóteles Lacerda Jr, Wilson de Oliveira Jasa, Adélia Victória Ferreira e Antônio Lafayette Natividade Silva.



Em 7 de novembro de 1948, a poetisa Colombina, pseudônimo de Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1882-1963) e um grupo de poetas, fundaram a Casa do Poeta “Lampião de Gás”, considerada a mais antiga associação de poetas das Américas.

A entidade teve como presidentes desde então: Yde (Adelaide) Schloenbach Blumenschein (1948-1963); Bernardo Pedroso (1965-1971); Antônio Lafayette Natividade Silva (1972-1977); Benevides Beraldo (1977-1979); Adélia Victória Ferreira (1979-1987); Aristóteles de Lacerda Júnior (1987-1989); Walter Rossi (1989 -2001); e Wilson de Oliveira Jasa (desde 2001).

Adélia presidiu a Casa do Poeta de 1979 a 1987. Após quatro mandatos sucessivos, renunciou ao cargo, sendo eleita presidente emérita e de honra da entidade.

CINQUENTENÁRIO DA REVOLUÇÃO DE 1932

Em comemoração ao cinquentenário da Revolução Constitucionalista de 1932, o Museu da Imagem e do Som (MIS), de São Paulo, em 21 de julho de 1982, convidou várias personalidades para prestarem depoimento sobre o evento. Entrevistados pelo jornalista Augusto Benedito Galvão Bueno Trigueirinho, além de Adélia Victória Ferreira, participaram também Arnaldo Caleiro Sandoval, Pedro Oliveira Ribeiro neto e Léa Surian.

Adélia falou de sua infância em Sete Barras, de onde saiu com a família aos 7 anos de idade para irem morar em Mairinque (SP). Neta de agricultores de arroz, banana e cana-de-açúcar, filha de um pai que desistiu de sua herança para se transformar em um tabelião, que era o sonho da vida dele.

Adélia recordou-se de quando, aos três anos de idade, esvaziaram a igreja matriz de todos os seus santos para os guardarem em sua casa, a maior da cidade, para que os revolucionários fossem abrigados no templo. Em frente à sua casa, havia trincheiras, e essas imagens foram tão fortes que, apesar de sua pouca idade, ficaram gravadas em sua mente.

Aos cinco anos, quando o pai lhe perguntava o que ela queria ser quando crescer, a menina respondia: “Papai, eu quero ser advogada, eu quero ser doutora em Direito!”, apesar de não saber o que era isso. Ao que o pai voltava a perguntar: “Mas por que, minha filha?”. Adélia respondia: “Para defender o pobre contra o rico!”. E defender o pobre contra o rico era algo que ia contra a sua família, a mais abastada da cidade. Mas não era isso que Adélia queria dizer: ela queria defender os que não tinham forças contra aqueles que têm o poder, referindo-se, simbolicamente, aos revolucionários, que eram destituídos de armas e munições e de condições para lutar contra o governo de Getúlio Vargas, usando a sua inventividade para assustar o inimigo, que possuía todas as armas, “para vencer uma revolução que foi feita pelo coração e pela alma”.

Como pretendia deixar o seu cartório para a filha, o pai não permitiu que Adélia fizesse sequer o curso ginasial, temendo que ela seguisse o caminho que desejava. Sendo assim, a jovem, com apenas 17 anos, fugiu de casa e, em São Paulo, fez o curso de madureza, para, depois, frequentar o Colégio Roosevelt e ingressar na tão sonhada Faculdade de Direito. Assim foi a sua juventude, sempre baseada no ideal de dignidade humana do povo paulista, ideal que nasceu quando ela tinha apenas três anos de idade vendo as lutas da Revolução de 1932.

Por ocasião do depoimento, o jornalista Bueno Trigueirinho considerou AdéliaVictória Ferreira “a primeira dama declamadora de São Paulo, que aquecia os nossos corações quando fala, quando põe toda a sua alma dizendo essas coisas tão bonitas que São Paulo tem, a nossa poesia dos nossos grandes poetas.”

Com a sua voz firme e a dicção perfeita, Adélia declamou o poema “MMDC”, de sua autoria, em homenagem aos jovens que tombaram pela defesa dos ideais constitucionalistas:

MMDC

Miragaia, Martins, Dráusio, Camargo.
A história é assim
Não só a nós agora interessa.
É a história paulista escrita em sangue
E em nome de complexos ideais:
Democracia, constituição.
Fanais da liberdade,
únicos trilhos de qualquer paz,
qualquer prosperidade.
Martins, tua seiva corre em nossas veias.
Tu, Miragaia, louros depuseste
sobre a dignidade dos paulistas
Dráusio, implantaste em nossas mentes
a flama das intenções sadias
que baseiam o natural caráter firme e nobre
da brava gente de Piratininga,
que apenas dobra os joelhos reverentes
aos céus e àquele santo,
o padre Anchieta,
que a nossa história e Deus alicerçou.
Gente que aspira sempre ver brilhar,
no supremo concerto das nações,
este Brasil que, graças ao seu sangue,
suor, lágrimas, lutas e bandeiras,
com trépida bravura, transformou
num gigante a abarcar um continente.
Camargo exulta, ainda perseguimos
a mesma meta que nos apontou
o teu espírito audaz e democrático.
A nossa fibra se retesa diuturnamente
num labor constante,
mantendo sempre a aspiração que atua.
Tu, Alvarenga, ergue-te do olvido,
também tu deves repousar
no túmulo do herói reconhecido.
MMDC
A história é assim
E a história paulista, escrita em sangue
e em nomes de complexos ideais:
Democracia, constituição.
E agora vejam, heróis,
ela interessa não só a nós,
mas ao País inteiro quando
o edifício em que acomodou
o resto da nação tende a ruir em súbita implosão.
Mas São Paulo, paternal, estende as mãos,
como sempre estendeu,
para acudir a grandeza da Pátria.
E, agora, finalmente, vai se compreender
que a límpida razão estava com vocês,
e ao bandeirante, é certo, como sempre,
há de caber o peso maior,
mais exaustivo e desgastante
do pesadelo da reconstrução.

(Aplausos)

TURMA DE 1956: JUBILEU DE OURO

Para comemorar o Jubileu de Ouro da Turma de 1956, a Ordem dos Advogados do Brasil, de São Paulo, promoveu, em 20 de outubro de 2006, uma confraternização com os ex-alunos remanescentes.

O evento solene foi realizado no auditório da CAASP, em São Paulo. Participam da cerimônia toda a Diretoria da OAB/SP e da CAASP, além do então diretor da Faculdade de Direito da USP, professor João Grandino Rodas.

“A Turma de 1956 era numerosa, unida e animada. Resultou em grande número de advogados militantes”, ressaltou Rubens Approbato Machado, para quem não havia diferença entre advogar com um ou 50 anos de carreira.

Entre os homenageados estavam o ex-secretário municipal da Cultura e poeta, Mario Chamie; o ex-senador Pedro Franco Piva; o ex-deputado federal e ex-secretário dos Negócios Metropolitanos, da Habitação e Desenvolvimento Urbano e de Energia e Saneamento do Estado de São Paulo, e ex-ministro da Coordenação de Assuntos Políticos do presidente FHC, Luiz Carlos Santos; e dois ex-conselheiros seccionais, Samuel Sinder e Jayme Vita Roso. Os homenageados receberam placas alusivas à comemoração do Jubileu de Ouro e participaram de um almoço.

Depois de uma vida plena, inteiramente dedicada ao Direito, às artes e à literatura, Adélia Victória Ferreira faleceu no dia 13 de março de 2018, aos 88 anos.

LIVROS PUBLICADOS

                                                
Livros de Adélia Victória Ferreira.
Livros de Adélia Victória Ferreira. 




Durante a sua longa vida,  Adélia Victória Ferreira produziu centenas de sonetos e trovas, dispersos em antologias poéticas e sites literários. Publicou três livros:

Cantos de Amor à Vida” (Edição do Autor, 1978) – Em seu livro de estreia, Adélia Victória Ferreira reuniu 104 poemas, escritos desde os 10 anos de idade. O livro é dividido em 6 partes: I - Introito (1 poema); II - Amor (24 poemas); III - Vida (19 poemas); IV - Deus (8 poemas); V - Homem (20 poemas); e IV - Pátria/Lar (32 poemas). Predominam sonetos, encontrando-se também algumas trovas e poemas em quartetos. Adélia revela o talento que a projetaria como uma das melhores sonetistas brasileiras.

 “Poesias ao Sol” (Edição do Autor, 1984) – Neste segundo livro, Adélia Victória Ferreira divide espaço com o poeta Hélio José Déstro, também membro da Casa do Poeta “Lampião de Gás”, que publicou o maior número de poemas do livro (102 composições), de diferentes formas. Adélia participou com 26 poemas, incluindo a seleção “Choque de Antíteses em Campo de Sonetos”, com o subtítulo “15 sonetos que dialogam sentimentos humanos, opostos entre si, cabendo, a cada um, um quarteto e um terceto intercalados; ao final de cada terceto são declaradas as respectivas identidades.” Essa seleção seria republicada em seu livro seguinte.

 “Catálise - Trovas e Sonetos” (Edição do Autor, 1985) – A primeira parte do livro reúne as trovas premiadas de Adélia Victória Ferreira. De acordo com o inventário inserido no início do livro, de 1980 a 1984, a autora foi vencedora de 14 concursos poéticos; ficando em 2º lugar em 3 concursos; em 3º lugar em 3; em 4º lugar em 1; em 6º lugar em 1; e recebendo 24 menções honrosas, 12 menções especiais e 1 menção temática. A segunda parte reúne uma seleção de sonetos, incluindo  15 sob o título “Coroa de Sonetos”, com o subtítulo “Tema: Redenção pela Vida”. Na terceira parte, são republicados os sonetos “Choque de Antíteses em Campo de Sonetos”, do livro anterior. Na quarta parte, o “Rosário de Anchieta”, composto de 11 sonetos “inteiramente baseados no livro biográfico ´Anchieta O Apóstolo do Brasil´, do padre Hélio Abranches Viotti, S. J., a quem esse rosário foi dedicado.”

ANTOLOGIAS POÉTICAS

Dentre as inúmeras antologias que Adélia Victória Ferreira participou, destacam-se:

- “Anuário de Poetas do Brasil”, 1979, 1980, 1981, 1982 e 1983.

- “O Encanto das Trovas” - Tomo IV - Estado de São Paulo - Vol. 4.

- “Concurso Nacional de Trovas”, da UBT, Ribeirão Preto, 1999.

- “Antologia Poética de Pinheiros” - Vol. VIII, Scortecci Editora, 1990.

- “Trovas de Velhice” -  Editora Guararapes EGM, 2016.

- “Florilégio de Trovas”, nº 2, maio/2017, organização: José Feldman, Maringá (PR).

- “70 anos da Casa  do Poeta Lampião de Gás”, 1948-2018”, Jasa Produções Editora, 2018.

PRÊMIOS

Dentre as dezenas de prêmios e honrarias conferidos a Adélia Victória Ferreira, destacam-se:

- 1º lugar no Concurso Interno da União Brasileira de Trovadores (UBT) - 1982;

- 1º lugar no III Jogos Florais do Rio de Janeiro (RJ), ganhando também duas menções honrosas - 1982;

- 1º lugar no I Concurso Nacional de Trovas de Mauriceia (PE) - 1982;

- 1º lugar no Concurso Nacional de Macaé (RJ) - 1983;

- 1º lugar no II Concurso Nacional de Trovas de Tambaú (SP) - 1983;

- 1º lugar no I Concurso Nacional de Trovas de São Paulo (SP) - 1983;

- 1º lugar no II Concurso de Trovas de Vila Isabel, Tijuca e Grajaú (RJ) - 1984;

- 1º lugar no II Concurso Interno da UBT-SP, recebendo também menção especial - 1984;

- 2º lugar no IV Jogos Florais de Caçapava (SP) - 1983;

- 6º lugar no V Jogos Florais de Alegre (ES) - 1984;

- 1º lugar nos Jogos Florais de Campos (RJ) - 1984;

- 3º lugar no Concurso de Trovas do Grupo Literário e Artístico Antônia de Castro, Ilha do Governador (RJ) - 1985;

- 5º lugar no VIII Jogos Florais de Resende (RJ) - 1987.

- Co-vencedora do Concurso de Trovas de Rio Novo (MG) - 1992.

- 1º lugar  no II Concurso Assoc. R. F. Vilas de Portugal, São Paulo - 1992.

- 3º lugar no Concurso de Trovas de Nova Friburgo (RJ) - 1993).

- 9º lugar no Concurso Nacional de Trovas da UBT - 1999.

- 1º lugar no Concurso de Trovas de  Nova Friburgo (RJ) - 2002.

MENÇÕES HONROSAS E ESPECIAIS

- Menção especial no Concurso de Trovas do Consulado de Portugal em São Paulo e União Brasileira de Trovadores (UBT) - 1981;

- Menção especial no I Jogos Florais de S. Bernardo do Campo (SP) - 1981;

- Menção honrosa no Concurso de Trovas da UBT - Região Sul - Santos (SP) - 1981;

- Menção honrosa no Concurso de Trovas Esporte, Nova Iguaçu (RJ) - 1981;

- Menção honrosa nos Jogos Florais de Santos (SP) - 1982;

- Menção honrosa no III Concurso de Trovas da Associação de Cultura Luso-Brasileira de Juiz de Fora (MG) - 1982;

- Menção honrosa no I Concurso Nacional de Trovas de Tambaú (SP) - 1982;

- Menção honrosa no III Concurso Nacional de Trovas do Clube dos Trovadores de Vila Velha (ES) - 1982;

- Menção honrosa do I Concurso de Trovas da Drogazeta e UBT-SP - 1982;

- Menções honrosas nos IV Jogos Florais de Sete Lagoas (MG) - 1982;

- Menção especial no XVI Jogos Florais de Niterói (RJ) - 1983;

- Menção honrosa no Concurso Interno da UBT-SP - 1983;

- Menção honrosa no I Concurso de Trovas “Artesanato Paulista da SUTACO-SP” - 1984;

- Menção especial no I Concurso Nacional de Trovas do Elos Club de S. Paulo - 1984;

- Menção especial no II Concurso Interno da UBT-SP - 1984;

- Menção honrosa no II Concurso Nacional de Trovas de São Paulo - 1984;

- Menção especial no III Concurso Nacional de Trovas de Tambaú (SP) - 1984;

- Menção honrosa no IV Concurso Nacional de Trovas da UBT, Natal (RN) - 1984;

- Menção especial no Concurso Primavera - Praia Flores, da UBT, Santos (SP) - 1984;

- Menção honrosa no III Jogos Florais de S. Bernardo do Campo (SP) - 1984;

- Menção honrosa no I Jogos Florais de S. Jerônimo da Serra (PR) - 1985;

- Menção honrosa no Concurso Nacional de Trovas da Irmandade Antialcoólica de Niterói (RJ) - 1985.

- Menção especial no Concurso de Trovas de Niterói (RJ) - 1986.

- Menção especial no Concurso de Trovas de São Paulo (SP) - 1986.

- 4ª Menção honrosa  no VII Concurso de Trovas de Taubaté (SP) - 1988.

- Menção honrosa no XVI Concurso Nacional de Trovas do Rio Grande do Norte - 1996.

SONETOS

Adélia Victória Ferreira cultivou o soneto como forma superior de expressão poética, sendo considerada uma das melhores sonetistas brasileiras. Selecionamos alguns sonetos de sua vasta produção:

O tempo e a gente

Senhor, estrelas nascem na espiral do espaço,
Enquanto, agonizantes, outras mais se apagam;
Este universo imenso, em rápido compasso,
Galáxias, volteando, estuando, circunvagam.

É imenso teu reinado, fértil teu regaço!
Imersas no Infinito, estrelas nos afagam
Os sonhadores olhos num total abraço
E calam nos mistérios em que eles divagam...

Senhor, nós, – pobres seres de espiral tão breve
No tempo de viver, – que somos nós no acerto
Das contas, afinal? É tolo o que se atreve

Julgar, sobre os iguais, pairar na humana estrada
Pois vê que, nesse eterno e sideral concerto,
Milhoes de sóis no negro vácuo somam: Nada!

(De “Cantos de Amor à Vida”, 1978)

***

O rosário de Anchieta (I)

Era uma vez... Trajando uma batina preta,
Arcado o torso magro, em curva atestatória
Da prece... um jesuíta, um padre... era Anchieta;
Surgiu logo no albor da brasileira história.

Viveu fugindo, sempre, aos toques de trombeta
Que, em sua milagrosa e humana trajetória,
Devia receber dos homens. A faceta
Mais radiante nele era furtar-se à glória.

Foi piedoso e santo e foi, também, o filho
De Deus, cuja mansão, edênica, inefável,
Aos índios descerrou. Quem da Virgem o brilho

Em versos exaltou... Mas, servo da humildade,
Insistia em fazer calar, irrecusável,
Os testemunhos mil de sua santidade...

(De “Catálise”, 1985)

***

Amor que não tem preço

Depois que te perdi, só depois, mãe querida,
Notei que me fugira um bem que não tem preço,
O maior bem do mundo, o melhor desta vida,
E, se um dia existiu igual, não o conheço.

Ternura ardente e casta, oculta em manto espesso
De preocupações, quando não, diluída
Nesse olhar, cujo certo e único endereço
É seu filho, que a fez vaidosa ou mais sofrida.

Depois que te perdi, só depois... (como forço
O espírito a afastar a constante tortura!...)
É que a mente me invade um dorido remorso

De não ter, junto a ti, quando então me fitavas,
Com mil beijos provado esta minha ternura,
Num reflexo do amor imenso que me davas!

(Blog O Secular Soneto)

***

A grande dúvida

Levado pela vida aos trancos e barrancos,
A defrontar um vento eterno a desfavor,
Tentando, desde a infância a meus cabelos brancos,
Tirar do mal um bem, do frio algum calor;

Numa existência dura, a duros solavancos,
Levado à frente só por íntimo valor
Para enfrentar marés contrárias e aos arrancos
Que imprimem atração a tração ao passo vencedor,

Indago-me ao deixar para trás este mundo,
Ao despir-me do corpo, ao fim, perdido o alento,
Para enfrentar, lá em cima, aquele olhar profundo

A prometer-me paz, à luz da eternidade,
Eu que, senti prazer nos vãos do sofrimento,
Será que tendo paz, terei felicidade?...

(Fanal)

***

A Árvore e o Homem

...E Deus me disse: Nascerás primeiro,
Serás o ar, o teto, o alimento
Daquele que meu filho verdadeiro
Receberá de ti todo o sustento!

E tu vieste e que contentamento
Em te ofertar, pelo planeta inteiro,
Calor, pão, vinho, teto e desse alento
De que és, para viver, prisioneiro!

Porém... trocaste a vida natural,
Que me ligava a ti, pelo veneno
Da vida poluída artificial . . .

E, hoje... destruidos, os meus restos somem
Por toda a terra . . . E meu adeus te aceno.
Mas... que será de ti, sem mim, pobre Homem...?

(De “Poesias ao Sol”, 1984)

***

Tempo Presente

– Discutir o Presente? É falar de utopia!
Ele é simples bocal de acanhada abertura
Que a matéria do Tempo, em veloz travessia,
Do Futuro ao Passado, esfaimada perfura!

O lampejo fugaz de uma luz fugidia
É esse vulto que passa e passando fulgura,
Ao tomar-se um “já fui” na roldana macia
Que impulsiona ao Passado a existência futura.

Ao dizeres “eu sou!”, já não és! Terás sido!
O que foste partiu nos embalos da voz,
Mero “z” de um corisco entre o antes e o após...

Na ampulheta, é o gargalo, o funil reduzido
Que as areias do Instante, ansiando viver,
Atravessam fulgindo e... deixando de ser.

(Blog Singrando Horizontes, 2019)

***

Até um dia, Rute!

À memória de Rute Miranda Sirilo

Repousaste, querida, e Deus te abriu os braços
E disse: Rute, vem! Tua taça de dor
Esgotaste. Da Terra solta, agora, os laços,
E vem provar, nos céus, do meu imenso amor!

Foste pura e bondosa e meiga. Nos teus passos,
Por todo teu viver, teu fraternal calor
Fluindo, em outras almas, espalhou seus traços,
Banhando teu redor de encanto e dulçor.

Sofreste muito, eu sei, no terminal da estrada.
É a dívida terrena. E é paga pelo justo
Para alcançar depressa a celestial morada.

Aquele que a um sofrer acerbo, assim confranjo
É o que há de se instalar junto a teu rosto augusto.
Vem filha! Foste santa. Aqui, serás um anjo!

(Jornal “Alto Madeira” [de Rondônia], nº 14.463, 6/3/1983)

HINO À LAPA

Em 1973, Adélia Victória Ferreira escreveu a letras do “Hino da Lapa”, com música do maestro Victor Barbieri:

Sou a Lapa, guardiã do passado
Onde o tempo parece parar.
Num presente ele é aqui transformado
Nas lembranças que o fazem voltar

Solo:

Eu sou a Lapa
de encantos mil
Honro São Paulo
Honro o Brasil;
Ontem fui grande
Hoje maior.
E no futuro
Ainda melhor.

Sou também do presente apressado
Alinhada aos mais novos pendores
Em indústria, em comércio, em mercado,
Arte e ciência, tenho altos valores.

Solo: Eu sou a Lapa...

Do porvir nada temo, pois forte
Sempre foi o meu povo operoso
Sei que bela será minha sorte
E o amanhã promissor e grandioso.

Solo: Eu sou a Lapa...

HOMENAGENS

Em 2017, Wilson de Oliveira Jasa, poeta, escritor, jornalista, sonetista e trovador, escreveu um poema em homenagem a Adélia Victória Ferreira.  Wilson Jasa fundou diversas entidades poéticas; também é membro e presidente do Movimento Poético em São Paulo, Casa do Poeta “Lampião de Gás”, de São Paulo etc.

Adélia Victoria Ferreira

Querida Adélia Victória
Ferreira, grande mulher;
tem marcante trajetória,
e sabe bem o que quer.

Na Poesia faz história,
pois num momento qualquer;
cria na sua memória,
melhor verso que puder.

Muitos concursos venceu,
de Poesia e mereceu;
porque Adélia é sumidade.

Foi presidente da Casa
do Poeta e mantém a brasa,
com versos de qualidade.
(1/5/2017)

O poeta e trovador matogrossense do sul Renato Baéz, numa coleção de trovas que escreveu homenageando os principais trovadores do país com os quais tinha amizade, também incluiu Adélia Victória Ferreira:

São autores de obra prima:
Antônio Urbano Ferreira,
Brandina da Rocha Lima
ou Adélia V. Ferreira.

TROVAS SELECIONADAS

Esta seleção de 33 trovas de Adélia Victória Ferreira foi publicada no site “Florilégio de Trovas”, em 2017:

A fantasia é um brinquedo
para instantes enfadonhos:
nos porões varrendo o medo,
na torre embalando os sonhos...

Ao sofrer uma agressão
a terra não choraminga
nem esboça reação,
mas... cedo ou tarde, se vinga…

Circo de lona... de estacas,
pobre, no mundo a vagar...
E nessas bases tão fracas
o riso escolheu morar...

Com a lembrança marcada
por sofrimentos de outrora,
igual à pomba assustada
eu fujo aos sonhos de agora.

Esperança é a caminhante
que, ora animada, ora triste,
vai, teimosa, mais adiante,
quando a Certeza desiste.

Lago imóvel, preguiçoso,
que se espera repousante,
o sempre é um sonho enganoso
que só na perda é constante.

Meu olhar é um girassol,
avidamente a buscar
entre a aurora e o arrebol
o astro-rei do teu olhar!

Minha vizinha é tão feia
que, aparecendo à janela,
o furacão a rodeia
com medo de tocar nela!

Na pinga e de pito aceso,
pega a bela, o Serafim,
que no outro dia vai preso
nos braços de... um manequim,..

Na sala, a rica exibida
mostra o vaso e a amiga exclama:
Mas... esse vaso, querida,
se usava... embaixo da cama!…

No amor não raro acontece
estranha feitiçaria:
quando a vontade aparece
desaparece a energia…

No entrechocar das espadas,
que a ambição maneja a fundo,
como esperar alvoradas,
se a luz é expulsa do mundo?...

No mistério de seus planos
vai, o futuro inclemente,
burilando os desenganos
que irá nos dar de presente!

O grande, na trajetória
que palmilha passo a passo,
recebe em silêncio a glória
como recebe o fracasso.

O pato, à pata, zangado:
– Qualquer um pode notá-lo!
Aumentas teu rebolado
quando passas pelo galo!

O Sábio avança e recua
sobre um mistério esquisito,
onde um termo continua
termo sem termo... Infinito!…

O sol, filetando o olhar,
pelo arvoredo introduz
agulhas para bordar
bailados de sombra e luz.

Para a saudade que anela
voltar à ventura morta,
o passado abre a janela,
mas nunca destranca a porta...

Pelos gênios fascinado,
me indago, com inquietude,
se a inveja será pecado;
se o que se inveja é... virtude..

Por nosso irmão não se conta
quem apenas nos exalta
e, sim, quem também aponta,
censurando a nossa falta.

“Pra que rouge?” – indaga a Tita,
à mãe vaidosa que o aplica.
“Pra que eu fique mais bonita!”
E a filha: “Por que não fica?...”

Quando, mãe, o tempo ingrato
em bruma a lembrança envolve,
bendigo o velho retrato
que teu rosto me devolve!

Quem só conhece negrume
por onde os passos conduz,
no piscar de um vagalume
pode aprender o que é luz.

– Raio de bicho malandro! –
o astronauta geme e sua
e a pulga, em seu escafandro,
vai de carona pra lua…

Recorre ao bom-senso e ordena
teu viver, pelo vivido.
O que o passado condena
não deve ser repetido.

Se era às crianças que um vulto
no escuro punha assustadas,
hoje o temor é do adulto
que anda à noite nas calçadas…

Sem o amor, que é fantasia,
a vida, que é realidade,
transporta mala vazia
no rumo da eternidade.

Se os meus juízes confundo
com falsa argumentação,
recebo o perdão do mundo,
mas não meu próprio perdão.

– Se te vais, por gentileza,
deixa a porta sem trancar!
Não me roubes a certeza
de que logo irás voltar!

Silencioso, palmo a palmo,
irreversível, tirano,
o tempo devora, calmo,
todo e qualquer sonho humano...

Sol e sombra na floresta
e uma brisa, erguendo a mão,
rege os compassos da festa
de sombra e luz, pelo chão.

Torna um sonho em realidade
e verás, com ironia,
que, por mais que ele te agrade,
foi mais bela a fantasia.

Vivo a sonhar: Quem me dera
que eu, no amor sempre frustrado,
em vez de ficar à espera,
um dia fosse o esperado.

PREFÁCIOS E COMENTÁRIOS

Adélia Victória Ferreira, entre outros, prefaciou os livros:

“Florações da Primavera”, da sonetista Noemise Machado de França Carvalho (1906-2008), destacando [...] “sua cultura lhe permite manejar as riquezas da língua pátria com arte e maestria” e [...] “seu conhecimento musical transmite ao verso cadência perfeita e cativante, eterna em sua poesia. E sua inspiração colhe seixos brutos pelo caminho e os lapida transformando-os em gemas ofuscantes que ela incrusta no diadema dos versos. Noemise é perfeita, é única, é inimitável.”

“Poemas” (Shogun Editora, 1986), de Wanderlino Teixeira [...] "Wanderlino é um poeta filósofo, completamente fora de série ou de escolas. Não copia ninguém, não se submete a formalismos. Tem sua própria e magnífica musicalidade; trata as ideias de forma tão original e graciosa que não pode sequer ser imitado! Isso porque penetra na essência das ideias. Modela-as, lustra-as, e as torna obras de arte com seu raro conhecimento da língua pátria e com seu espírito perspicaz, arteiro, evocando-nos o dos gnomos das antigas lendas." [...]

“Poesias ao Sol” (Edição do Autor, 1984), de Hélio José Déstro, cirurgião-dentista e poeta “Ao iniciar a leitura dos poemas de Hélio José Déstro, não imaginei o que iria encontrar. À medida que avancei, mais e mais me empolguei com a descoberta nos dias de hoje de um espírito poético fantasticamente puro. [...] Hélio deve ser um poeta que para seu carro em meio à maior confusão de trânsito, e, sob impertinentes buzinadas, gritos, imprecações, apitos de guardas, abre a porta e, calmamente, de pé, do lado de fora, escre seus poemas num guardanapo de papel, sobre o capô do carro; ou que para, em meio a um tratamento de canal de dente, para transferir ao papel a poesia que lhe vai na mente, sobre o tipo de reação do paciente... [...].

“Reticências”, do professor Sebas Sundfeld (1924-2015) “Seus trabalhos são de uma versatilidade tal, que, se você, Sebas, fosse mais audaz e multiplicasse as edições, espalhando-as pelo País, estou certa que teriam repercussão internacional.” 

Sobre a poetisa e trovadora Vanda Fagundes Queiroz (autora de “Uma luz no caminho”, “Trajetória”, “Descortinando Poesia”, “Conversa Calada” e “Uma candeia na janela”) “Vanda não precisa de apresentações ou apologistas. Sua arte fala por si. Basta conhecê-la para se constatar que ali se desvenda uma das maiores poetisas brasileiras da atualidade”.

TROVAS DISPERSAS

Além das trovas publicadas no livro “Catálise Trovas e Sonetos” (1985), muito da produção poética de Adélia Victória Ferreira está espalhada por dezenas de sites e blogs literários. Conseguimos garimpar as trovas abaixo, com os respectivos créditos:

De madrugada, em surdina,
filha da noite fechada,
surge, faminta, a neblina
e engole as curvas da estrada!

(Menção Honrosa - XVI Concurso Nacional de Trovas do RN, 1996 - Blog Falando de Trova, 1996)

***

No amor não raro acontece
estranha feitiçaria:
quando a vontade aparece,
desaparece a energia...

(Blog Singrando Horizontes, 2016)

***

Saudade é tarde chorando
um tempo em que foi aurora,
ao ver a noite levando
o brilho do sol embora.

(“Trovia”, Revista Virtual de Trovas,  nº 147, março/2012)

***

Ao sofrer uma agressão
a terra não choraminga
nem esboça reação,
mas… cedo ou tarde, se vinga…

(Antologia Poética de Pinheiros - Vol. VIII)

***

Dia da Bandeira - 19 de novembro

Ama, criança, a Bandeira,
e, por onde quer que vás,
toda a Terra brasileira
no teu peito encontrarás!

(“Tribuna do Norte”, Pindamonhangaba, nº 8.444, de 13/11/2014)

***

Dá, mãe, calça comprida
e, num trauma repentino,
vê que a pessoa crescida,
lhe roubou o seu menino...

(9º lugar, Concurso Nacional de Trovas da UBT, 1999)

***

Tiradentes (Liberdade)

Sem laços, independentes,
os seus elos, à vontade,
mão se submete a correntes,
a essência da Liberdade!

(“Adepom News”, nº 126, abril/2013).

***

Lutemos pela defesa
Das matas e de ar mais puro!
Só o respeito à Natureza
Pode nos dar um futuro!

(“Seleções em Folha”, nº 2, fevereiro/2002)

***

Se a velhice tem direito
de, ao sonho e às forças, dar fim,
por que não mata, em meu peito,
o jovem que existe em mim?...

O grande, na trajetória
que palmilha passo a passo,
recebe em silêncio a glória
como recebe o fracasso.

(Revista Trovar, nº 145, janeiro/2017)

***

Já o cantei pra nós dois
Mas isso foi no passado
Já que assim é, seja assim
Já me esqueceste depois

Já cada qual tem seu fado
O mais feliz é o teu, tenho a certeza
É o fado da pobreza
Que nos leva à felicidade

Se Deus o quis
Não te invejo essa conquista
Porque o meu é mais fadista
É o fado da saudade

(Folhetim Literário Desiderata, nº 4)

***


Sedenta do teu carinho,
imagino em sonhos vãos,
tuas mãos tecendo um ninho
para aninhar minhas mãos...

(Blog de Airton Soares)

***

Saudade é tarde chorando
um tempo em que foi aurora,
ao ver a noite levando
o brilho do sol embora.

(Balaio de Trovas)

***

Em jogo triste ou risonho
e sempre em contrapartida,
a vida alimenta o sonho
e o sonho alimenta a vida.

(Blog Filemon Martins, 2016)

***

Certeza

Se te vais, por gentileza,
deixa a porta sem trancar...
Não me roubes a certeza
de que logo irás voltar!

(Blog Pedro Melo)

***

Julguei-me livre da cobra,
qual não foi a decepção
vendo, ilesa, minha sogra
no olho do furacão!...

Minha vizinha é tão feia
que, aparecendo à janela,
o furacão a rodeia
com medo de tocar nela!

(Menções honrosas no XVI Jogos Florais de Bandeirantes/PR)

***

Minha mulher tanto embirra
que os vizinhos ao porão
se recolhem se ela espirra,
com medo de furacão!

(Falando de Trova, 1999)

***

Esperança é a caminhante
que, ora animada, ora triste,                      
vai, teimosa, mais adiante,
quando a Certeza desiste. 

(Conc. Elos Club ABC 2000)

***

Para a saudade que anela                        
voltar à ventura morta,
o passado abre a janela,
mas nunca destranca a porta...

(Pindamonhangaba, 2000)

***

O auxílio cristão atua
com a maior discrição,                                     
indo da concha da tua
para a concha de outra mão.

(Itanhaém/SP, 1999)

***

Torna um sonho em realidade                       
e verás, com ironia,
que, por mais que ele te agrade,
foi mais bela a fantasia.

(Barra do Piraí, 1999)

***

No entrechocar das espadas,
que a ambição maneja a fundo,               
como esperar alvoradas,
se a luz é expulsa do mundo?...

Por nosso irmão não se conta
quem apenas nos exalta
e, sim, quem também aponta,
censurando a nossa falta.

(Vencedora Pouso Alegre, 1995)

***

Quando, mãe, o tempo ingrato      
em bruma a lembrança envolve,
bendigo o velho retrato
que teu rosto me devolve!

(3º lugar Nova Friburgo, 1993)
 
***

Circo de lona... de estacas,          
pobre, no mundo a vagar...
E nessas bases tão fracas
o riso escolheu morar...

(Co-vencedora em Rio Novo/MG - 1992)
 
***

Silencioso, palmo a palmo,   
irreversível, tirano,
o tempo devora, calmo,
todo e qualquer sonho humano... 

(“Calma” - Menção honrosa em Rio Novo (MG), 1988)

***

A fantasia é um brinquedo
para instantes enfadonhos:
nos porões
varrendo o medo,       
na torre
embalando os sonhos...

Sol e sombra na floresta
e uma brisa, erguendo a mão,
rege os compassos da festa
de sombra e luz, pelo chão.

O grande, na trajetória
que palmilha passo a passo,
recebe em silêncio a glória
como recebe o fracasso. 

Lago imóvel, preguiçoso,
que se espera repousante,
o sempre é um sonho enganoso
que só na perda é constante.

 Se te vais, por gentileza,
deixa a porta sem trancar.
Não me roubes a certeza     
de que um dia irás voltar!

(Menção Especial em Niterói, 1986)

***

O iludido não se cansa
de aceitar gostosamente,
os convites da esperança,
mesmo ao saber que ela mente...

No entrechocar das espadas,
que a ambição maneja a fundo,
como esperar alvoradas,
se a luz é expulsa do mundo?

(1º lugar Nova Friburgo, 2002)

***

O sol, filetando o olhar,      
pelo arvoredo introduz
agulhas para bordar
bailados de sombra e luz.

Se os meus juízes confundo
com falsa argumentação,
recebo o perdão do mundo,
mas não meu próprio perdão.       
        
 Sol e sombra na floresta
e uma brisa, erguendo a mão,
rege os compassos da festa
de sombra e luz, pelo chão.

O grande, na trajetória
que palmilha passo a passo,
recebe em silêncio glória
como recebe o fracasso.           
    
Lago imóvel, preguiçoso,
que se espera repousante,
sempre é um sonho enganoso
que só na perda é constante.

(Menção especial São Paulo, 1986)

***

Se te vais, por gentileza,
deixa a porta sem trancar.
Não me roubes a certeza     
de que um dia irás voltar!

(1º lugar - Nova Friburgo 2002)

***

O iludido não se cansa
de aceitar gostosamente,
os convites da esperança,
mesmo ao saber que ela mente...

No entrechocar das espadas,
que a ambição maneja a fundo,
como esperar alvoradas,
se a luz é expulsa do mundo?

O sol, filetando o olhar,     
pelo arvoredo introduz
agulhas para bordar
bailados de sombra e luz.

Se os meus juízes confundo
com falsa argumentação,
recebo o perdão do mundo,
mas não meu próprio perdão.        
       
 Sol e sombra na floresta
e uma brisa, erguendo a mão,
rege os compassos da festa
de sombra e luz, pelo chão.

O grande, na trajetória
que palmilha passo a passo,
recebe em silêncio a glória
como recebe o fracasso.              

Lago imóvel, preguiçoso,
que se espera repousante,
sempre é um sonho enganoso
que só na perda é constante.

(Menção Especial - São Paulo 1986) 

***

Por uma estranha ironia,
difícil de se explicar
não há maior alegria
que aquela que faz chorar.

(Blog de Lavras de Palavras, 2016)

***

Com a plangência de um sino
que anima a oferta da prece,
Fêgo Camargo é o violino
que Taubaté não esquece!

(4ª Menção honrosa - VII Concurso de Trovas de Taubaté, 1988 - Blog Falando de Trova)

***

É nas horas de fraqueza,
quando o medo em mim flutua,
que a minha mão sem firmeza
navega, buscando a tua.

(1º lugar II Concurso Assoc. R. F. Vilas de Portugal-SP, 1992 - Blog Falando de Trova)

***

Carona

Formiga, evite a carona
que lhe oferece o elefante!
Sabe lá o que ele ambiciona
quando chegar adiante?...

(5º lugar VIII Jogos Florais de Resende-RJ, 1987) - Blog Falando de Trova)

***

Meigo animal, sob a canga,
lavra o campo e, em vai-e-vem,
leva um sino que se zanga,
na zanga que o boi não tem...

(Menção especial - XIV Jogos Florais de Niterói-RJ, 1984 - Blog Falando de Trova).

Sobre o dilúvio, a boiar,
o Mal entre as ondas erra
e, antes da barca atracar,
repõe as garras na Terra.

(21º lugar II Concurso de Trovas da ABT, 1992 - Blog As Memórias de Dimas)

Bendiz teu chão, de mãos posta,
por ser terra boa e sã,
se ele te traz, em resposta,
de uma semente a maça!

(Jornal O Pioneiro de Caxias do Sul, 117, 19-4-1986)


O AUTOR
ROBERTO FORTES

ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br

(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).


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