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A chegada da Família Real


Em 2008, foi comemorado o bicentenário da chegada da Família Real portuguesa ao Brasil. As datas comemorativas, principalmente as chamadas datas “redondas”, sempre provocam a atenção da mídia e do público. Foi assim com o cinquentenário da Revolução Constitucionalista; foi assim com os 500 anos do Brasil; com o Centenário da Imigração Japonesa no Brasil. Como era de se esperar, não poderia ser diferente com relação ao bicentenário da chegada da Família Real às terras de seu mais importante domínio, no contexto do império português, o Brasil. Na realidade, a transferência desse império às plagas brasileiras já era objeto de discussão, na Corte lusitana, desde o século XVIII, ou antes até, uma vez que o próprio padre Antônio Vieira já “profetizava” essa trasladação.

A chegada da Família Real

Os ingredientes históricos que a viabilizariam só seriam “fermentados” a partir das invasões napoleônicas, que varreram toda a Europa, no início do século XIX. Cercado e acuado pelas tropas francesas, o príncipe regente D. João não vislumbrou alternativa mais viável senão a transferência de sua Corte para o Brasil, numa decisão considerada acertada, pois lhe garantiu a coroa e a permanência do império português, ao contrário das demais monarquias européias, que foram subjugadas por Napoleão.

Na rabeira das comemorações do bicentenário da chegada da Família Real, dezenas de livros e teses foram sendo despejados no mercado pelas editoras, ávidas em aproveitar a deixa, mormente num país onde a leitura não goza de tanto prestígio quanto o futebol ou as novelas da Globo. Alguns desses livros são frutos de metódicas e sérias pesquisas; outros, apenas foram lançados para aproveitar o “boom” literário gerado por esse evento histórico.

A imagem e o governo de D. João têm sido alvos de revisionismo histórico. Considerado um monarca “bonachão” e “comilão”, a viver pelos corredores de seu palácio sempre trazendo pedaços de frangos escondidos nos muitos bolsos de sua casaca, as evidências históricas, no entanto, levam o historiador a ter outra ideia de D. João, bem diferente daquela que foi estereotipada pelo filme “Carlota Joaquina”, de Carla Camurati. De todas as nações invadidas por Napoleão, Portugal foi a única que manteve a coroa, transferida à sua mais próspera colônia, que seria elevada à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Por outro lado, os historiadores debatem sobre quais foram as reais consequências da transferência da Corte portuguesa ao Brasil, que alguns limitam quase que exclusivamente à abertura dos portos às nações “amigas” (entenda-se aqui, preferencialmente, a Inglaterra, cuja frota assegurou a travessia marítima da Corte de D. Maria I, “a louca”, às terras de sua colônia).

Ao longo de mais de quarenta anos dedicados ao estudo da História do Vale do Ribeira confessamos que ainda não havia nos inteirado da importância desse evento, no caso, a transferência da corte portuguesa ao Brasil. Seguindo o conceito de que “a minha vila é o meu mundo”, quais teriam sido os reflexos da chegada da Família Real, aqui, no Vale do Ribeira, que, à época, era composto pelas vilas de Cananeia, Iguape e Apiaí? Algumas luzes surgem das “Memórias da Câmara da Vila de Iguape”, que compreendem os anos de 1787 a 1827, e que foram resgatadas, em 1938, dos arquivos municipais da cidade, pelo historiador Antônio Paulino de Almeida, quando participou das festividades comemorativas do IV Centenário de Iguape, e publicadas pelo Departamento de Cultura do Estado, em separata da Revista do Arquivo, volume CLI, em 1952.

De acordo com relato do “segundo vereador”, o alferes Manoel Baptista Gomes, transcrito nas memórias, com data de 24 de dezembro de 1808, pelo escrivão da Câmara Francisco dos Santos Carneiro:

“Sendo injustamente o Reino de Portugal acometido da insolente Nação Franceza que sem motivo algum nelle entrou no mês de Novembro e de Dezembro do anno antesedente de 1807, (...) o Principe Regente Nosso Senhor Dom João, por Graça de Deos, (...) prevendo que a defeza do seo Reino e Dominio dependia de grandes combates a custa de sangue dos seos fieis Vassalos Portugueses, foi servido Decretar e ordenar por seo Real Decreto dactado no mesmo mês de Outubro ou Novembro do dito anno de 1807, que, sabendo que aquella Nação Franceza se encaminhava a seo Reino, mais em procura de sua Real Pessoa do que por outro diferente motivo, e desejando portanto não ver derramar sangue da humanidade, se retirava para o Rio de Janeiro, capital dos seos Dominios do Brasil deixando o Reino de Portugal provido de Governos e com todas as cautellas necessarias debaixo da ordem de não rezistirem a aquela impia e deshumana Nação, que sem o menor motivo se encaminhava com todo o atrevimento a entrar e a espalhar-se pello Reino de Portugal, Corte de Lisbôa, Cidade do Porto, e mais provincias Portuguezas.”

Prosseguindo seu relato, o vereador fala das festividades que foram realizadas no país e na Vila de Iguape por ocasião da restauração do reino português:

“Foi tanto o contentamento que tivemos, e que ouve geralmente em todo o Reino Português quando se teve a notícia da total restauração do Reino de Portugal e Algarves, que se festejou por todas as partes e nesta Villa o fizemos com três noites de Luminarias e hum Te-Deum, dando graças ao Omnipotente Deus por tão grandes beneficios, cujas festas fizemos por Ordem Regia que nos enviou o nosso Doutor Ouvidor e Corregedor desta Comarca Antonio Ribeiro de Carvalho”.

Encerrando seu relato, o vereador anota que, em 1808, nasceram na vila 41 crianças (20 do sexo masculino e 21 do sexo feminino), tendo sido celebrados 51 casamentos (16 de brancos, 26 de pardos libertos e 9 de cativos). Também cita que o “país” (no caso, a vila) era composto por 822 brancos machos, “da primeira idade até a maior”; 925 brancas fêmeas, “da primeira idade até a maior”; 307 pardos libertos, “da primeira idade até a maior”; 343 mulheres pardas libertas, “da primeira idade até a maior”; 478 pessoas pardas e pretas do sexo masculino cativos; 474 ditas do sexo feminino, segundo o Mapa Geral dos habitantes do distrito. Declarou mais o vereador que:

“a lavoura vai sempre em auge, digo, em aumento, muito principalmente a plantação dos Arrozes, e que este anno houve muito por cauza da plantação passada ser grande porem foi de pouca conveniencia e utilidade ao País [vila] em razão do baixo preço em que tem estado este gênero”


ROBERTO FORTES
ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br

(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).


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