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Katsura, a primeira Colônia Japonesa do Brasil








APRESENTAÇÃO

Nas últimas décadas do século XIX, o Brasil começou a receber levas de imigrantes europeus, que vieram trabalhar nas fazendas de café no estado de São Paulo e também em outras regiões do país, em especial os estados da região Sul.

Vista Geral da Colônia Katsura. Década de 1930-1940
Vista Geral da Colônia Katsura. Década de 1930-1940

A partir do início do século XX, teve início da imigração nipônica ao país, com a chegada, em 1908, no porto de Santos, de 781 japoneses que trabalhariam pelo prazo mínimo de cinco anos em fazendas estabelecidas no estado de São Paulo.

No contexto desse projeto de fomento à imigração asiática no Brasil, foi estabelecida, em 1913, no município de Iguape, no bairro rural de Jipovura, a Colônia Katsura, que durante aproximadamente cinco décadas teve marcante atuação na produção agrícola regional.

Pela importância da Colônia Katsura, foi aprovada a Lei Federal nº 11.642, de 11 janeiro de 2008, de autoria do deputado Arnaldo Madeira, que considera o município de Iguape como o “Berço da Colonização Japonesa no Brasil”.

IGUAPE EM 1913

Como era a cidade de Iguape no ano em que foi fundada a Colônia Katsura? Era prefeito de Iguape desde 1908 o coronel Jeremias Júnior, que fora eleito nas eleições de 14 de janeiro de 1908, reelegendo-se em 1909, 1910, 1911 e 1913 (as eleições municipais eram trienais, porém a Câmara Municipal elegia anualmente a sua mesa, composta pelo prefeito, vice-prefeito, presidente e vice-presidente da Câmara).

A Câmara Municipal, que tinha tomado posse em 15 de janeiro de 1911, era assim constituída: Presidente: Joaquim José Rebello; vice-presidente: Zacharias Augusto Teixeira; além dos vereadores Jeremias Júnior (prefeito), Gentil Moreno Fortes (vice-prefeito), Mário de Andrada Rollo, Sizenando Trigo, Joaquim César da Rosa Peniche  e Manoel Lino Alves Vieira (proprietário do antigo Hotel do Commercio).

A CHEGADA DO KASATU MARU”


Com esta breve anotação, assim Ryo Mizuno abria o seu diário.

Dia 28 de abril de 1908 – Terça-feira, tempo bom. Saída do navio às 17:55 horas”.

Começava a ser escrita a primeira página da saga da vinda de imigrantes japoneses para o Brasil. Mizuno foi o comandante da expedição pioneira, que deixou o cais do porto de Kobe naquele dia 28 de abril, exatamente às 17h55, a bordo do navio Kasatu Maru. Cinquenta e dois dias de viagem esperavam os 781 imigrantes, agrupados em 164 famílias, cada uma constituída por 4,5 indivíduos, em média.

Doze mil milhas foram percorridas, com escalas em Singapura, na Ásia, e na Cidade do Cabo, na África, até a chegada ao porto de Santos no dia 18 de julho de 1908, às 9h. Chegava o primeiro grupo de imigrantes que viera ao Brasil em busca de um novo mundo.

Dia 18 de junho – Às 17:00 horas, o Kasato Maru atracou no cais nº 14. Ninguém foi autorizado a desembarcar” – escreveu Ryo Mizuno quando finalmente o navio aportou em Santos.

Desse total de 781 imigrantes, 68% sabiam ler e escrever, ou seja, 532 japoneses. Dos 249 considerados analfabetos, muitos sabiam “ler mal e escrever um pouco”, já que, na acepção literal da palavra, vieram menos de cem analfabetos. Esses imigrantes eram oriundos de onze províncias diferentes: Tóquio, Fukushima, Kagoshima, Kumamoto, Okinawa, Ekime, Yamagushi, Iroshima, Cochi, Nugata e Yamanachi. Dessas províncias, as que forneceram maior número foram as de Okinawa, Kagoshima e Yamagushi.

O jornal Correio Paulistano”, o principal publicado na Capital do Estado à época, admirou-se com o asseio das acomodações do navio Kasatu Maru:

“É preciso notar que se trata de gente de humilde camada social do Japão. Pois houve em Santos gente que afirmasse que o navio japonês apresentava em sua terceira classe mais asseio e limpeza que qualquer transatlântico europeu na primeira classe”.

O jornal prossegue fazendo a descrição dos imigrantes:

“Estavam todos, homens e mulheres, vestidos à européia: eles de chapéu ou boné; e elas de saia e camiseta pegada à saia, apertada na cintura por um cinto, e de chapéu de senhora. Um chapéu simples, o mais simples que se pode conceber, preso na cabeça por um elástico e ornado com um grampo (...)”.

Todos os japoneses eram, geralmente, de baixa estatura, apresentando cabeças e troncos grandes e reforçados, em oposição às pernas curtas. Um adolescente japonês de quatorze anos não era mais alto que uma criança brasileira de oito anos de idade.

O Correio Paulistano” encerrou a matéria com os seguintes comentários:

“Os empregados da alfândega declaram que nunca viram gente que tenha com tanta ordem e com tanta calma assistido à conferencia de suas bagagens e em nenhuma só vez foram apanhados em mentiras. A raça é muito diferente, mas não é inferior. Não façamos antes do tempo juízos temerários a respeito da ação do japonês no trabalho nacional”.

Essa primeira leva de imigrantes seria, gradativamente, fixada em diversas fazendas do Estado de São Paulo, onde se cultivava principalmente o café, como Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Jaboticabal, São Manoel, Três Córregos, etc. Nessas fazendas, formaram-se verdadeiros núcleos de colonos, mas pouco apoio receberam do Governo esses imigrantes, que, deixando para trás o Japão, chegaram ao Brasil em busca de uma vida melhor.

Passaram-se cinco anos até que as autoridades brasileiras se conscientizassem da necessidade de se receber condignamente os japoneses aqui chegados e instalá-los no país adequadamente, dando condições para o seu desenvolvimento pessoal e material. Foi quando se teve a ideia de se fundar uma colônia especialmente para receber uma leva de imigrantes, que seria administrada pelos próprios colonos. O local escolhido foi o Vale do Ribeira, mais exatamente o bairro Jipovura, no município de Iguape, às margens do rio Ribeira.

A COMPANHIA COLONIZADORA

Engenho de beneficiamento de arroz, em 1933.
Engenho de beneficiamento de arroz, em 1933.

Em meados de 1913, era constituída em Tóquio a Companhia de Colonização do Brasil – a Brasil Takushoku Kaisha –, com o propósito de estabelecer, no Vale do Rio Ribeira de Iguape, colonos japoneses para trabalharem no cultivo do arroz.

Essa companhia dispunha de um capital de um 1.000.000 de ienes, sendo que, em junho de 1913, já estavam realizados 250.000 ienes. A Takushoku Kaisha era presidida pelo visconde de Sakai e composta pelos “melhores elementos de finanças” do Japão, entre os quais se destacavam: Mitsubishi e Pitsui, pertencentes às mais ricas famílias japonesas; barão Shibusawa, presidente do primeiro Banco Nacional, figura muito influente nos negócios públicos; visconde Mishima, presidente do Banco do Japão; barão Kondo, presidente da Companhia de Navegação “Nippon Yusen Kaisha”, linha postal para a América do Norte, Índia, etc; sr. Asano, da Companhia de Navegação “Toyo Kisen Kaisha”.

O Brasil era, nesse tempo, um país pouco conhecido no Japão, o que gerava certa hesitação entre os empresários em investir grandes capitais nessa companhia, cujo objetivo, a principio, visava mais o estudo da colonização ao Brasil, como também “verificar quaes os fructos que se podem obter”, conforme se lê em antigo jornal iguapense.

Partiu para o Brasil um grupo formado por um engenheiro agrônomo, um médico e vários auxiliares, que percorreram o Vale do Ribeira para preparar as condições ao estabelecimento dos primeiros grupos de colonos. Após esse trabalho, estava prevista a vinda de cem famílias, que trabalhariam diretamente no cultivo do arroz, “sendo seguida de outras, conforme for se desenvolvendo a zona”.

Os diretores da companhia acreditavam no sucesso do empreendimento e esperavam produzir, anualmente, a vultosa cifra de 500.000 sacas de arroz, de excelente qualidade, que seria destinada aos mercados consumidores nacionais. Previa-se que, após a instalação de 2.000 famílias, outros produtos deveriam ser explorados “para concorrer e para reduzir os preços de cereaes e de aves”. Para a região de Iguape esperavam tentar a cultura do chá e, talvez, a indústria da seda.

A direção da Takushoku Kaisha no Estado de São Paulo ficou a cargo de Ikutaro Aoyagui.

A COLÔNIA KATSURA


Procissão em homenagem a Santa Luíza, padroeira da colônia. Década de 1940-1950.
Procissão em homenagem a Santa Luíza, padroeira da colônia. Década de 1940-1950.

Essa colônia, chamada Katsura em homenagem ao ministro japonês Taro Katsura, foi estabelecida no dia 9 de novembro de 1913, quando ali aportou um grupo de cerca de 20 famílias de colonos japoneses, liderados pelo Dr. Ikutaro Aoyagui. Entre esses primeiros imigrantes instalados no Jipovura, destacavam-se os nomes de Katsumi Fujita, Choichi Ono, Hidekit Nomura, Shiniti Fukamoto, Uichi Kiniyui, Wasataro Watanabe, Motoichi Yoshimoto e muitos outros. São também dessa época as famílias Tadano, Takano, Namba, Aoki, Haiassaki, Kumiama, Kaeriyama, Yanaguisawa. Mais tarde chegaram as famílias Maeda, Miashida, Hashimoto e outras.

Através de contrato assinado entre os governos brasileiro e japonês foram doados à companhia de imigração japonesa Brasil Takushoku Kaisha uma área de 859 hectares. Essa companhia, mais tarde, em 1917, foi substituída pela Companhia de Imigração Ultramarina S/A (Kagai Kogyo Kabushiki Kaisha, a famosa K.K.K.K., ou Kaiko, como era carinhosamente conhecida). A Colônia Katsura era administrada pela Sociedade Katsura Ltda, tendo como diretor o Dr. Ikutaro Aoyagui. Esta sociedade, por sua vez, era administrada pela Kaiko.

A pesquisadora iguapense Laís Carneiro Muniz, em trabalho biográfico sobre o seu avô, coronel Antônio Jeremias Muniz Júnior, chefe político em Iguape durante quase três décadas, fornece dados interessantes sobre a instalação da Colônia Katsura. Os imigrantes japoneses instalados no interior do Estado, por vários razoes, não se aclimataram naquelas fazendas paulistas:

“Viu-se o Governo de braços com um grande problema: ou aproveitava os imigrantes em outra região do Estado, ou mandava-os de volta ao Japão. Foi então consultado o coronel Antônio Jeremias Muniz Júnior sobre a possibilidade de se instalarem os imigrantes japoneses em Iguape. Jeremias Júnior, homem de visão, assessorado por José de Sant´Anna Ferreira, seu irmão Luiz Gonzaga Muniz e outros correligionários políticos, começou a estudar a melhor forma de se criar uma colônia agrícola na região. Não faltaram inimigos políticos para se oporem aos seus planos. Alguns jornalistas do Estado de São Paulo combatiam Jeremias Júnior, responsabilizando-o pelas desastrosas consequências que acarretariam a instalação de uma colônia de imigrantes japoneses em terras do nosso Estado. Mas Jeremias Júnior jamais duvidou de suas convicções. Ele sabia, tinha certeza que estava defendendo uma causa justa. Sentiu que devia lutar até o fim”.

E o sonho ia tomando vulto. Assim, em sessão da Câmara de Iguape do dia 21 de agosto de 1913, era apresentado projeto de lei que autoriza o prefeito municipal a adquirir o sítio Jipovura, pela quantia de 22:000$000 (vinte e dois contos de réis), que seria destinado à fundação de um núcleo colonial de imigrantes japoneses. A Lei nº 43 foi assinada pelo prefeito Jeremias Júnior no dia 21 de outubro de 1913.

As terras situadas no bairro Jipovura foram doadas à companhia ultramarina pela Câmara de Iguape, através de contrato de doação assinado em 14 de janeiro de 1914. A instalação dessa colônia muito deveu aos esforços do coronel Antônio Jeremias Muniz Júnior, prefeito de Iguape e chefe político do município, e também ao coronel José de Sant'Anna Ferreira, ao capitão Luiz Gonzaga Muniz e ao capitão Augusto Rollo, que muito se dedicaram para acolher essa primeira leva de imigrantes.

Pela leitura de diversos documentos da Câmara Municipal de Iguape, constata-se que parte do dinheiro levantado para o pagamento do sítio Jipovura foi tomado emprestado do capitão Eurico Moutinho, abastado capitalista iguapense, considerado o homem mais rico de seu tempo. No dia 9 de janeiro de 1914, Eurico Moutinho e sua mãe Avelina de França Moutinho emprestaram à Câmara de Iguape a importância de 5:500$000 (cinco contos e quinhentos mil réis), “para cumprimento das obrigações assumidas com a compra do sitio Jypuvura que fôra doado a Brazil Takushoku Kaisha, para a fundação de um Nucleo Colonial”. As letras venceriam no dia 31 de março. No dia 23 de fevereiro de 1914, o prefeito Andrelino de Oliveira assinava a Lei nº 47, que “autorizava o resgate de duas letras no valor de 5:500$000”. O artigo 2º dessa lei rezava que “não existindo verba especial na vigente lei orçamentária, para resgate daquellas letras, será esse resgate feito com os recursos da verba ´Obras Publicas´”.

Destacando o decisivo papel representado por Jeremias Júnior no estabelecimento de uma colônia de imigrantes japoneses no Vale do Ribeira, Laís Carneiro Muniz finaliza:

“Na sua coragem e amor por sua terra natal, Jeremias Júnior fez tudo para incentivar os amigos que já granjeara na colônia japonesa. Ele estava certo. Foi como se lançasse boa semente em terra fértil. A colônia cresceu, prosperou, se expandiu. Os japoneses trouxeram inovações para a cultura do arroz e iniciaram o plantio do chá. Mas não ficaram só em Iguape. Subindo o Ribeira, se instalaram em Registro, para cujo progresso e desenvolvimento muito concorreram. Jeremias Júnior tinha razão. Aquela gente humilde e trabalhadora viera dar impulso à agricultura no Vale do Ribeira. (...) O imigrante japonês veio trazer os seus conhecimentos e sua vontade de trabalhar. E, partindo de Iguape, se espalharam por todo este imenso Brasil, que ajudaram a fazer crescer. Hoje, mais de meio século passado, nós vemos nos seus descendentes não uma raça à parte, mas os filhos da mesma família brasileira”.

O DESENVOLVIMENTO DA COLÔNIA


A colônia Katsura logo se desenvolveu, transformando-se num dos principais centros produtores do Vale do Ribeira. A sua produção agrícola anual era avaliada em milhares de contos de réis, sendo exportada pelo seu próprio porto, que chegou a rivalizar com o porto de Iguape, à época um dos quatro mais importantes do Estado. Katsura possuía quatro engenhos de arroz, casas de comércio, agência de correio, escola e muitos outros estabelecimentos. Era comum os habitantes da cidade de Iguape irem até a colônia para fazer compras, onde a mercadoria era mais variada e barata.

Em 1915, já estavam instaladas na colônia 29 famílias japonesas, totalizando 121 pessoas. No ano seguinte, esse número subiria para 30 famílias, num total de 136 indivíduos. Em 1915, existiam 16 casas construídas, sendo 20 em 1916. A área da colônia foi dividida em 27 lotes de 25 hectares cada um e mais cinco lotes de 15 hectares destinados aos colonos sem recursos. Existia uma serraria onde se industrializava a madeira extraída das redondezas, além de diversos engenhos de aguardente. Na agricultura, predominava a cultura do arroz, para cujo beneficiamento existiam vários engenhos.

No período de 1914 (quando a colônia entrou efetivamente em funcionamento) a 1915 (quando foi publicado o primeiro levantamento estatístico), a produção total de arroz foi de 3.962 alqueires, colhidos por 17 famílias, cada uma delas colhendo, em média, 233 alqueires. Já no ano de 1916, a produção desse cereal aumentou para 8.840 alqueires, colhido por 25 famílias, colhendo cada uma 340 alqueires. Também se plantou, nesse período, feijão e milho, mas apenas para o consumo da colônia.

No Campo de Demonstração “Jeremias Júnior”, instalado em Katsura, eram plantadas experimentalmente culturas como cana-de-açúcar, batata, cebola, alfafa, algodão, soja japonesa e outras, com resultados animadores. Foram plantadas ainda muitas amoreiras, para a criação do bicho-da-seda, o que deu grande impulso à sericultura da colônia. Os agrônomos responsáveis eram Massao Hashida e Katsumi Fujita.

Durante muitos anos foi diretor da colônia o Dr. Ikutaro Aoyagui, que tinha como médico o Dr. Kenzo Kitajima e ainda os doutores Sakamoto, Shiratori e o próprio Aoyagui. Note-se que, nessa época, nem mesmo em Iguape havia um médico formado, mas apenas farmacêuticos “entendidos” do assunto.

O Jipovura dista aproximadamente 20 quilômetros de Iguape, e antigamente, para se atingir o local, somente era possível pelo rio Ribeira, servido pelos vapores da famosa Companhia de Navegação Fluvial Sul Paulista, que tinha entre seus sócios o poeta Vicente de Carvalho, e executava o serviço de navegação fluvial na região. Uma viagem entre Iguape e o Jipovura, pelo rio, às vezes demorava até 5 horas, pois os vapores eram muito lentos, apesar de a viagem ser muito agradável, principalmente pela beleza do rio e das florestas que o circundavam.

A EXPEDIÇÃO ARQUEOLÓGICA


Em 1937, uma expedição arqueológica japonesa, chefiada pelo renomado arqueólogo japonês Dr. Kiju Sakai, nos meses de abril a junho, efetuou escavações no Jipovura, onde existiam vários sambaquis, ali deixados, milênios atrás, pelos silvícolas que habitaram o local.

Nessas escavações trabalharam 176 pessoas e mais os jovens da colônia, sendo o custo dos trabalhos avaliado em 2:015$900 réis (dois contos, quinze mil e novecentos réis), com recursos liberados pelo governo japonês.

Os resultados dessas escavações foram publicados por importantes entidades científicas do Japão e, recentemente, pelo Instituto Paulista de Arqueologia.

A COLÔNIA COMEMORA 25 ANOS

 
Dezessete famílias das 20 que chegaram a Katsura em 09/11/1913. Década de 1940-1950.
Dezessete famílias das 20 que chegaram a Katsura em 09/11/1913. Década de 1940-1950.


No dia 9 de novembro de 1938, foi festivamente comemorado o 25º aniversário da fundação da colônia, quando foi realizada grande festa em Katsura, com variadas programações esportivas e culturais.

Essas festividades foram presididas pelo prefeito de Iguape, tenente Manoel Honório Fortes, que muito colaborou para o desenvolvimento da colônia. Manoel Honório (ou Neco Fortes, como era conhecido), foi um dos mais ilustres líderes políticos de Iguape em seu tempo, dominando a política local da década de 1930 até o fim da Segunda Guerra.

No banquete oferecido às autoridades discursaram, além do prefeito, o Dr. Tadao Mizuguti, Kinsau Nakamura e Isawo Kanataue, destacadas personagens japonesas.

A ligação de Manoel Honório com a colônia japonesa da região sempre foi marcante, principalmente com as colônias de Katsura e de Registro, tendo sido diretor do KKKK na década de 1940.

A DECADÊNCIA


Apesar do progresso que durante três décadas bafejou a Colônia Katsura, a partir da Segunda Guerra a vila começou a entrar em decadência. O país estava em crise e Katsura também foi envolvida por esse clima de marasmo.

A Sociedade Katsura, que era dividida em quotas, e que administrava a colônia, foi finalmente liquidada em 1945, quando foram vendidas todas as quotas dessa sociedade e também uma grande gleba de terras no Jipovura.

A maioria das famílias japonesas ali radicadas foi obrigada a deixar o local e ir para Iguape ou para outras cidades da região ou do interior do Estado.

É aceita, geralmente, a época da Segunda Guerra como a data da decadência da Colônia Jipovura. No entanto, é um erro acreditar que a colônia tenha se extinguido nesse tempo. De acordo com artigo do Prof. José Rubens de Oliveira Fortes (“Jipovura, a antiga Katsura”, publicado na Tribuna de Iguape, nº 2, 25-12-1995, p. 8), a localidade ainda permaneceu prospera por mais uns dez ou quinze anos até a sua extinção quase que completa:

“As últimas famílias japonesas deixaram a antiga colônia por volta dos anos que vão de 1954 a 1960, dirigindo-se para Iguape, Registro, Mogi das Cruzes, São Paulo e outras cidades.

“Neste último período de existência, o Jipovura (Katsura), a despeito de todas as dificuldades, ainda era desenvolvimentista. Contava então com três casas comerciais, um engenho de beneficiar arroz funcionando diuturnamente, três bares, uma pensão, clube recreativo, time de futebol, igreja católica, posto dos Correios, escola estadual com quatro classes”.

Segundo o Prof. Oliveira Fortes, antes da Segunda Guerra, existia uma escola particular, a “Sotero Dias”, e ainda uma escola de aprendizado do idioma japonês, com aulas ministradas pelo prof. Seo. Os vapores da Companhia de Navegação Fluvial Sul Paulista atracavam no porto do Jipovura a cada dois dias, fazendo a linha Iguape-Registro. O local, à noite, contava com luz elétrica, produzida por maquina movida a vapor. O abastecimento de água era do próprio rio Ribeira, em virtude de não existir nas proximidades um manancial suficiente para abastecer toda a população da colônia. O autor enfatiza a importância da colônia:

“(...) O Jipovura (Katsura) era importante centro comercial do médio-baixo Ribeira. Havia tanta seriedade neste ramo de atividade que um guarda-livros, o sr. José Muniz Teixeira, dirigia-se semanalmente à localidade para fazer a escrituração comercial. Além das funções de guarda-livros, Teixeira atuava como uma espécie de representante de seus clientes junto às autoridades e órgãos públicos, tal a confiança nele depositada, sendo tão benquisto no bairro que tornou-se padrinho de vários jipovurenses”.

A economia da colônia era baseada nas culturas do arroz e da cana-de-açúcar para a fabricação da aguardente. Existiam diversos alambiques, entre os quais os mais famosos foram os que produziram as marcas “Bandeirantes” e “Morrão Ribeira”.

O Prof. Oliveira Fortes lista as famílias japonesas desse último período: Tanissaburo Ono, Tatsutaro Ono (topógrafo), Kanatani, Nishidate, Nakamura, Yanaguizawa, Hayashi, Uraguti, Ueno, Tadano, Ikegami (construtor naval).

Explicando o motivo da decadência da colônia, o pesquisador elenca os seguintes:

1) Concentração das glebas de terras nas mãos de poucos proprietários;   

2) Queda no cultivo e na produção do arroz;

3) Dificuldades de comunicação e transporte;

4) Crise no comércio em geral;

5) Procura por centros mais desenvolvidos para que pudessem oferecer um futuro melhor a seus filhos;

6) Assoreamento do porto, o que veio dificultar o embarque e desembarque de passageiros e cargas nos vapores e lanchas da linha de navegação.

Depoimentos dos antigos moradores atribuem às constantes enchentes que destruíam a produção da colônia um papel importante na saída de muitas das famílias para outras localidades.

A HISTÓRIA CONTADA POR SEUS MORADORES

UMENA TADANO

Filha de Yoshimatsu Harabayashi e Ito Harabayashi, a senhora Umena Tadano nasceu em Fukuyama, Japão, no dia 8 de janeiro de 1883. Veio ao Brasil aos 25 anos, na primeira leva imigratória, dando entrada no porto de Santos em 28 de abril de 1908. Era uma das 781 pessoas que integravam o primeiro grupo de colonos japoneses que seriam encaminhados a diversas fazendas de café no Estado de São Paulo. Durante cinco anos Umena trabalhou em fazendas de café, conforme determinava o acordo assinado entre Brasil e Japão.

Veio para a Colônia Katsura em 1913, juntamente com a primeiro grupo de vinte famílias japonesas, chegadas ao Jipovura no dia 9 de novembro. Em 1981, aos 98 anos, devido à grande enchente do rio Ribeira de Iguape, que arrasou seis alqueires da plantação de arroz de seu filho Yoshike Tadano, foi obrigada a abandonar definitivamente o Jipovura, transferindo-se junto com a família para o vizinho bairro de Momuna.

Umena Tadano teve destacada participação na comunidade do Jipovura, desempenhando a função de parteira, numa época em que o posto médico mais próximo, a Santa Casa de Iguape, distava dali cerca de 20 quilômetros. No início de sua permanência no país, ela chorava muito de saudade do Japão, terra para a qual nunca mais voltou e dizia “ter esquecido”. Até mesmo quando ganhou uma passagem de avião para uma viagem àquele país, preferiu não ir, “pois não conhecia mais ninguém lá, nunca mais tive contato”.

No Japão, Umena trabalhava como tecelã. Sua maior dificuldade no Brasil, como aconteceu com a maioria dos japoneses, foi a alimentação, mas depois se acostumou com o arroz e o feijão e passou a apreciar a comida brasileira. Ao chegar ao novo país, a intenção de Umena era ganhar muito dinheiro e retornar ao Japão. Pelo menos, era assim que as companhias de imigração convenciam os interessados, pintando o Brasil como uma terra onde havia facilidade de enriquecimento rápido. A realidade, no entanto, mostrou-se bem diferente.

Umena Tadano casou-se e teve quatro filhos, dois homens e duas mulheres. Faleceu em 1983, aos 103 anos, ainda lúdica e bastante ativa.

TUNEU HAIASHI

De acordo com Tuneu Haiashi, nascido no Jipovura em 1927, as família estabelecidas na colônia começaram a mudar-se para outros lugares a partir da década de 1940. Em seu tempo de rapaz, Jipovura era apenas uma parte, o centro da grande Colônia Katsura. “Até o pessoal de Iguape vinha aqui fazer compras”.

Segundo ele, a debandada das famílias, entre outros fatores, foi motivada pela desativação do transporte fluvial, que era a única maneira de se chegar ao local. Tuneu chegou a morar dois anos no bairro de Biguá, em Miracatu, mas, em seguida, retornou ao Jipovura.

Nos áureos tempos, a colônia chegou a contar com quatro engenhos de arroz, que ficaram reduzidos a apenas um quando o Jipovura já estava em franca decadência. Na década de 1980, Tuneu trabalhava como gerente de um alambique pertencente a um ex-morador de Katsura.

Os imigrantes que chegaram à colônia, no dizer de Tuneu, foram obrigados a desbravar a nova terra “a pás e picaretas”. O terreno, alagadiço, era adequado à rizicultura, que foi o propulsor do progresso que bafejou a colônia durante algumas décadas. O transporte era unicamente pelos vapores. Muitas vezes, o vapor vinha direto de Santos ao porto de Jipovura para buscar a produção de arroz.

A crise no transporte fluvial, as perseguições aos japoneses motivadas pela Segunda Guerra Mundial e as frequentes enchentes contribuíram para o isolamento da colônia, que, após a debandada geral, ficou relegado ao saudosismo.

PEDRO ARAGUTI

Nas lembranças de Pedro Araguti, nascido no Jipovura em 1924, o local era muito alegre e festeiro. “Festas, muita gente, barco chegando e partindo e um vapor que vinha especialmente de Santos buscar a produção do arrozal.”

Em 1938, três anos após a morte do pai, a familia Araguti mudou-se para Pedro de Toledo (SP). Só retornaria ao Jipovura em 1988.

BIBLIOGRAFIA


Livros e monografias


FORTES, Roberto. “Katsura, a primeira colônia japonesa do Brasil”, in O Estado de S. Paulo, de 01/07/1988, pág. 31.

MUNIZ, Laís Carneiro. “Coronel Antônio Jeremias Muniz Júnior”, trabalho biográfico, datilografado, s/data.

SAKAI, Kiju. “Notas Arqueológicas do Estado de São Paulo – Brasil”, Instituto Paulista de Arqueologia, São Paulo, 1981.

Jornais e revistas


A Tribuna do Ribeira, ano II, nº 96, 14/06/1980. Encarte especial “Os 72 anos da imigração japonesa no Brasil”, pág. 4.

A Tribuna do Ribeira, ano II, nº 40, 14/05/1981, pág, 4. Matéria: “Umena Tadano: mãe e mulher que fez a história do Jipovura”.

A Tribuna do Ribeira, 18/06/1983. Encarte especial “A história dos imigrantes que há 70 anos começaram a desbravar o Vale”, pág. 23.

A Tribuna do Ribeira, 23/06/1984. Encarte especial “71 anos de união entre dois povos”, pág. 3.

A Tribuna do Ribeira, 18/06/1988. Encarte especial “Os 80 anos da imigração japonesa”, pág. 9.

O Estado de S. Paulo, 22/09/1921, pág. 3. Matéria: “Notas e Informações”.

O Estado de S. Paulo, 24/09/1921, pág. 3. Matéria: “Notas e Informações”.

O Estado de S. Paulo, 18/06/1988. Encarte especial “Japão-Brasil 80 anos”.

Revista Globo Rural Especial, ano I, nº 2, março de 1988, págs. 27 a 31.

Tribuna de Iguape, ano I, nº 8, 24/06/1913, págs. 1 e 2. Matéria: “Colonização Japoneza”.

Tribuna de Iguape, ano III, nº 43, 29/08/1915, pág. 3. Matéria: “Colônia Katsura”.

Tribuna de Iguape, ano V, nº 142, 07/10/1917, págs. 1 e 2. Matéria: “Colônia Katsura – O seu desenvolvimento”.

Suplemento de “A Tribuna do Ribeira”, de 23-6-1984, em comemoração aos 71 anos da imigração japonesa no Vale do Ribeira.

O AUTOR

ROBERTO FORTES

ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br





(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

(Fotos: Cortesia Família Yanaguizawa, de Iguape)




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