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MINAS DE IVAPORUNDUVA








“Falleceu emfim essa virtuosa mulher aos 2 de abril de 1802, com idade de noventa annos, sem deixar bens alguns, porque em vida soube distribui-los e remunerar com a liberdade os escravos que lhe serviam.” – Livro do Tombo da Paróquia de Xiririca.

MINAS DE IVAPORUNDUVA
MINAS DE IVAPORUNDUVA


Minas de Ivaporunduva, Freguesia de Nossa Senhora da Guia de Xiririca.

Aquele pôr do sol melancólico que banhava o morro da Joana parecia refletir a tristeza que se apossara de todos os corações. Os negros não continham a dor estampada nos olhares lacrimejantes. Deitada no catre, dona Joana Maria está em seus derradeiros momentos. Cercada pelos ex-escravos, agora forros, muitos dos quais vieram com a ilustre dama desde os sertões das Gerais, todos velam pela veneranda senhora, cujos cabelos prateados lhe impõem um ar de respeito e dignidade. Joana Maria está serena. Naqueles momentos finais, a Senhora de Ivaporunduva vê passar, como num mágico caleidoscópio, cenas relâmpagos dos seus noventa anos de vida.

André de Souza, português, o primeiro esposo, que com Joana Maria viera das Gerais e com ela deitara raízes ali no Ivaporunduva (“rio de muito vaporu”, fruta, está escrito no Tombo), que cedo a deixou viúva... João Marinho, também português, o segundo marido, que logo acompanhou o seu antecessor... E José Manuel de Sequeira Lima, natural das Gerais, o terceiro e último... Todos casamentos legítimos, abençoados pela Madre Igreja, como convinha à formação cristã de Joana Maria. Os três homens não lograram alcançar a longevidade de sua consorte, e Joana Maria se deixou ficar ali para sempre no Ivaporunduva, a habitar na sua austera casa de taipa, na companhia dos negros que trouxera dos Cataguazes e que ela devolvera à liberdade sem nada esperar em troca, mas tão somente a felicidade daquelas sofridas criaturas aprisionadas na África e agrilhoadas pelas mãos insensíveis do senhor branco.

À princípio, os terços eram rezados na casa de dona Joana Maria, onde se cultuava a imagem de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Mais tarde, entre os anos de 1775 e 1780, durante o paroquiato do padre João Teixeira da Cruz, conseguiu-se autorização e construiu-se a singela capela que atravessou, impávida, séculos de fé e resistência. De aspecto acanhado e pobre de arquitetura, o templo foi erigido às margens da Ribeira de Iguape, à maneira de um guardião daquela gente sofrida e esquecida por todos, menos pela Senhora dos Pretos. Muitas das alfaias e ornatos da capelinha foram doados pela senhora dona Joana Maria, mulher de fibra, cristã abnegada e amiga da pobreza. Vez ou outra, por ali aparecia um padre, vindo de Xiririca, ou mesmo de Iguape, lá de quando em vez. A desobriga anual dos sacramentos era tarefa trabalhosa, o acesso às Minas de Ivaporunduva, navegando-se por dias em frágeis canoas, desanimava os sacerdotes seculares, que, muitas vezes, faziam as vezes de verdadeiros bandeirantes.

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Minas de Ivaporunduva. Minas das mais ricas da Ribeira. O arraial conheceu dias de grande gala. As festas realizadas no povoado eram nababescas. Nos fandangos, que se prolongavam por dias, as negras douravam os cabelos com muitas gramas de ouro em pó. Reza a crônica que, certa feita, um casal de negros chegou a Ivaporunduva, vindo do sertão, com uma grande pepita de ouro que tinha o formato de uma cabeça de macaco. Foi um espanto. Não pelo ouro, pois ouro dava que nem capim, mas pelo formato inusitado da pedra cobiçada. São histórias do arraial, que os papéis carcomidos pelos cupins registraram para os pósteros. Casamento era coisa de causar inveja a muitos nobres da Europa. O noivo oferecia à sua consorte nada menos do que um litro cheio de ouro em pó. Era riqueza que não se exauria e que fascinava aos viajantes que, vez por outra, davam com os ares de suas graças pelas Minas de Ivaporunduva, a terra do ouro.

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A fama de Joana Maria, a amiga dos pretos, penetrava pelos sertões inexplorados da Ribeira, e em todos os rincões, por mais distantes que fossem, era raro de se encontrar alguém que não ouvira falar da virtuosa Senhora de Ivaporunduva. Mas nem todo o ouro daquelas minas poderia se igualar à mina de bondade e amor que todos reconheciam na figura vetusta de Joana Maria, mulher benemérita, as marcas da vida estampadas no rosto enrugado, sempre a trajar luto em respeito aos três homens que ela amara, amor que também soubera dividir à Virgem do Rosário e a toda aquela gente humilde que fazia crescer o arraial de Ivaporunduva a cada ano que transcorria.

A vida simples do arraial tinha uma página virada depois da outra, sempre com a pacatez e a ordem costumeira. Acontecimento de monta, ali, só mesmo a festa da Virgem do Rosário, ou quando algum mineiro surgia do sertão com uma pepita de formato curioso. No mais, as águas da Ribeira sempre a correrem pelas ribanceiras, algumas canoas singrando aqui e ali, uns pescadores mais fortuitos acolá, o pôr do sol sempre majestoso a dominar todo o cenário do morro da Joana. E Ivaporunduva ia levando a sua vida de todo santo dia, as mulheres raspando mandioca para fazer farinha, um peixe que era moqueado no fogão à lenha, uma caça que os homens pegavam nas matas, os folguedos infantis da molecada, a congada e as cheganças a evocarem os reis da África e as lutas épicas entre mauritanos e cristãos.

Debaixo do olhar sereno da senhora dona Joana Maria, o sol inclemente a lhes banhar todo o corpo em suor, eis que os escravos deram por terminadas as obras da pequena capela dedicada à Senhora dos Pretos. Chegada das Gerais, Joana Maria, dona viúva, trouxera consigo a escravatura e se estabelecera naqueles ermos: tinha a certeza absoluta de encontrar muito ouro naqueles sertões esquecidos por Deus. E por temência a esse Deus ordenara que erigissem uma ermida para serem celebrados ofícios religiosos. Passaram-se os anos. Choupanas foram levantadas nas proximidades da capelinha. Assim nasceu Ivaporunduva.

Dona Joana Maria ainda veria a aurora do século seguinte, não sem antes dar aos seus escravos o bem mais precioso: a liberdade.

Morta está Joana Maria.

AVISO AO LEITOR

 “Minas de Ivaporunduva” é um dos contos de ficção histórica que compõe o livro (no prelo) “Os Mistérios do Vale - Crônicas Ribeirenses”, de minha autoria, a ser publicado brevemente.

ROBERTO FORTES
ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br






(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

(Fotos: Cortesia Família Yanaguizawa, de Iguape)