Estudantes de Cananéia criam 1ª maquete interativa de boto-cinza do país e são premiados na 11ª FECIVALE

 Vale do Ribeira - Projeto científico inovador utiliza materiais sustentáveis para desvendar a anatomia da espécie sentinela e garante vaga em feira nacional no Rio Grande do Sul.

Estudantes de Cananéia criam 1ª maquete interativa de boto-cinza do país e são premiados na 11ª FECIVALE
Estudantes de Cananéia criam 1ª maquete interativa de boto-cinza do país e são premiados na 11ª FECIVALE

11ª Feira de Ciências do Vale do Ribeira (FECIVALE)

Os integrantes do Programa Jovem Pesquisador, do Projeto Boto-Cinza, acabam de finalizar mais uma etapa de sua trajetória com um projeto científico inovador: construíram a primeira maquete anatômica e interativa de um boto-cinza (Sotalia guianensis) de que se tem registro no país. Na 11ª Feira de Ciências do Vale do Ribeira (FECIVALE), realizada pelo Instituto Federal - Campus Registro (SP), o município de Cananéia foi representado pelos alunos Augusto Caetano Neves Pereira, Cíntia Martins Morais e Melissa Herminia Felizari.


O Programa Jovem Pesquisador é uma das ações extracurriculares do Projeto Boto-Cinza, realizado pelo Instituto de Pesquisas Cananéia (IPeC), em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.


Os estudantes integram o Programa sob a coordenação de Danielly Xavier, que orientou o grupo no trabalho junto a Daiana Proença, bióloga e coordenadora de Educação Ambiental do Projeto Boto-Cinza. 


O trabalho apresentado, intitulado "Por dentro do boto-cinza: construindo conhecimentos por meio de uma maquete anatômica interativa", obteve duas premiações: uma na categoria Destaque Popular e a outra — resultado impulsionado pelo resultado na FECIVALE — foi a participação na próxima edição da MOCITEC (Mostra de Ciências e Tecnologias promovida pelo IFSul - Campus Charqueada-RS), evento que acontecerá em setembro de 2027.


A iniciativa explorou a anatomia do cetáceo, convidando os visitantes a fazerem uma viagem interativa por um mar ainda desconhecido por muitos. "Identificamos a falta de um material profundo, didático e, ao mesmo tempo, simples sobre o boto-cinza, uma espécie comum no dia a dia dos jovens e cheia de peculiaridades. Para ir além do óbvio, decidimos mergulhar na anatomia desse cetáceo, revelando em detalhes como o seu organismo funciona", explicou Danielly.



Espécie sentinela

O boto-cinza (Sotalia guianensis) é a espécie símbolo de Cananéia. Eles habitam as águas calmas do Complexo Estuarino-Lagamar da região durante o ano todo, sendo que a maior ocorrência de avistamentos se dá na Baía de Trapandé.


Além do carisma, que é sua marca registrada, esses animais desempenham um papel fundamental na saúde e no equilíbrio dos ecossistemas costeiros, atuando como um verdadeiro termômetro da qualidade ambiental nas regiões de estuários, baías e manguezais. Por ser um predador de topo de cadeia alimentar — que se alimenta de peixes, lulas e crustáceos —, ele atua diretamente na regulação dessas populações, garantindo a estabilidade e a dinâmica saudável da fauna marinha local.


Como possui uma expectativa de vida longa e vive muito próximo à costa, o boto-cinza acaba acumulando em seu organismo as substâncias poluentes presentes na água. Por conta disso, ele é considerado pelos cientistas como uma "espécie sentinela": qualquer alteração em sua saúde, comportamento ou tamanho populacional funciona como um alerta precoce de que o ambiente ao redor está sofrendo com a poluição ou a degradação.


Ciência na prática e materiais sustentáveis

Foi diante desta grande relevância ambiental para a região que os jovens pesquisadores lançaram um novo questionamento: “Será que construir uma maquete anatômica nos ajudaria a compreender melhor esta espécie?”


E assim a ideia foi ganhando vida, onde papel, cola e tinta, foram transformando-se em órgãos internos e vértebras, sem esquecer do melão. Mas é claro que não se trata da fruta: o boto-cinza tem um órgão com esse nome, situado na testa, por onde emite as ondas sonoras que chegam até suas presas e voltam para ele em forma de eco (processo conhecido como ecolocalização)."


“Antes de começar a construir, fizemos uma atividade para identificar o que já sabíamos sobre o corpo do boto-cinza”, explicou a jovem pesquisadora Cíntia. “A gente precisava identificar os órgãos, descobrir onde eles ficavam e pensar em suas funções. 

Depois começamos a estudar a sua anatomia, comparando suas estruturas com as de outros mamíferos, inclusive nós, seres humanos”, concluiu.


Para a confecção da maquete, os estudantes testaram materiais recicláveis e sustentáveis, como jornal, caixas de ovos e papel sulfite reutilizado. A partir de uma réplica externa utilizada como molde, eles modelaram primeiro um boto oco, estrutura que serviu de base para receber a inserção dos órgãos interativos — objetos que o público da FECIVALE teve a oportunidade de explorar de perto, interagir e entender o funcionamento do corpo do animal.


“As premiações da FECIVALE coroam um ciclo emocionante e reforçam o verdadeiro propósito do Programa Jovem Pesquisador: dar voz e ferramentas para que nossos estudantes sejam protagonistas na mudança. A maquete anatômica interativa não é apenas uma conquista científica ou um prêmio de Destaque Popular e MOCITEC; ela é o reflexo prático de como a ciência pode e deve ser acessível, conectando os estudantes de Cananéia à conservação da nossa espécie símbolo", comemorou Caio Louzada, coordenador do Projeto Boto-Cinza / IPeC.


Louzada complementa o impacto social da ação: "Ao pesquisarem, testarem materiais sustentáveis e explicarem a importância do boto-cinza como sentinela do nosso ecossistema, esses jovens deixam de ser espectadores e passam a liderar a transformação ambiental e socioeconômica do nosso território. Estamos extremamente orgulhosos e entusiasmados para levar esse talento caiçara mais uma vez para a MOCITEC, no Rio Grande do Sul".


“Quando indicamos caminhos, oferecemos oportunidades e confiamos no potencial dos jovens, eles são capazes de realizar coisas extraordinárias. Aproximá-los da educação e da ciência é mostrar que eles não são apenas espectadores, mas protagonistas na construção do conhecimento”, concluiu Danielly.


Sobre a FECIVALE


A Feira de Ciências do Vale do Ribeira (FECIVALE) é o maior evento científico da região, idealizado e promovido pelo Instituto Federal de São Paulo (IFSP) – Campus Registro. Criada em 2016 com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), a feira tem como propósito estimular a cultura científica, a inovação, a criatividade e o intercâmbio de conhecimentos entre estudantes, pesquisadores e a comunidade. Em sua penúltima edição (2026), o evento reuniu mais de 150 trabalhos submetidos de diversos estados, abrangendo pesquisas que vão desde a educação infantil (através da FECIVALE Mirim) até o Ensino Superior, com destaque para a filiação a grandes feiras nacionais como a FEBRACE, MOSTRATEC e MOCITEC.



Sobre o Programa Jovem Pesquisador

O Programa Jovem Pesquisador surge com a premissa de integrar jovens nas atividades de pesquisa e educação ambiental do Projeto Boto-Cinza, despertando diversas habilidades profissionais e interpessoais, sendo a principal delas o senso de pertencimento ao território onde vivem. A ação integra o conjunto de programas extracurriculares do Projeto Boto-Cinza, ao lado do Programa Boto em Cena (aulas de teatro) e da Escola Náutica Marapé (aulas de navegação). O objetivo é propiciar um ambiente acolhedor e participativo onde os alunos do ensino médio das escolas públicas de Cananéia possam interagir com a ciência de forma prática, crítica e transformadora.


“O foco principal do Programa Jovem Pesquisador sempre foi estimular o protagonismo entre os jovens, ampliar a comunicação e o senso crítico frente às questões ambientais, o senso de coletividade e a autoconfiança, dentre outras capacidades”, explica Danielly Xavier, coordenadora do programa.


De acordo com Caio Louzada, as atividades propostas durante os encontros têm como objetivo trazer um novo olhar para as riquezas naturais do município, de forma que possam ser vistas como potenciais geradoras de renda para esses jovens no futuro. “Cananéia possui uma grande riqueza cultural, histórica e natural. Hoje, boa parte desses patrimônios fazem dela um destino de natureza que atrai turistas de todo o Brasil e de outros países também, contribuindo para a economia local. Por outro lado, municípios com contextos parecidos veem seus potenciais subaproveitados e sua cultura desaparecendo por conta do êxodo dos jovens. Com as nossas iniciativas, queremos mostrar aos estudantes que há, sim, um futuro próspero e sustentável aqui, proveniente dessas riquezas”, explica o coordenador.

O programa ganha força ao aproximar jovens caiçaras à realidade dos cientistas. Por meio de capacitações, oficinas e tutorias, as atividades do projeto são espelhadas para a rotina do jovem. Assim, eles se tornam multiplicadores das ações em eventos socioambientais, com seus familiares e com a comunidade local.


Sobre o Projeto Boto-Cinza

O Projeto Boto-Cinza é uma iniciativa do IPeC que visa o conhecimento e a conservação desta espécie, bem como do seu habitat. As atividades tiveram início na década de 80 na região de Cananéia, litoral sul do Estado de São Paulo. Ao longo deste período, foram desenvolvidos inúmeros trabalhos de conclusão de curso, dissertações de mestrado e teses de doutorado com o apoio do Instituto de Pesquisas Cananéia e parcerias com diferentes instituições de ensino e pesquisa do Brasil e do exterior.


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