O cinema de Chloé Zhao sempre buscou a alma humana no horizonte das vastidões, mas em Hamnet ela finalmente encontra o infinito dentro de um jardim de ervas e quatro paredes de pedra.
Este longa não se apresenta como uma cinebiografia convencional, mas como uma exumação poética do luto que deu origem à maior tragédia da literatura ocidental, posicionando-se não apenas como um concorrente ao Oscar de Melhor Filme, mas como o ápice sensorial da trajetória da diretora.
Ao reconstruir o legado de William Shakespeare a partir da ferida devastadora da morte de seu filho, Zhao transforma o trauma doméstico na própria matéria-prima da imortalidade.
Diferente das produções de época que se sufocam em figurinos rígidos e palácios frios, a narrativa liberta a família Shakespeare para mergulhá-la no barro e na botânica de Stratford, onde a natureza pulsa como um personagem vivo.
A terra, as ervas e o vento atravessam a experiência do luto como extensões emocionais de Agnes, interpretada por uma Jessie Buckley de intensidade arrebatadora.
Sua dor é visceral e mística, uma força telúrica que domina a tela enquanto ela sustenta a casa e se dissolve na própria perda. Agnes sente o mundo antes que ele aconteça e, através de sua presença, o luto se torna físico e inescapável para o espectador.
No outro extremo dessa balança emocional, Paul Mescal oferece um Shakespeare despido de sua aura mítica, revelando um patriarca fragmentado entre a ambição do palco e o peso do arrependimento.
Seu olhar carrega a confusão de quem tenta organizar o caos interior por meio da palavra escrita, compreendendo a dimensão do que perdeu apenas quando o toque já não é mais possível.
É no palco rural e despojado que ele tenta reorganizar essa dor, invocando-a em encenações quase naturalescas onde a palavra respira com uma clareza essencial, longe do glamour ruidoso de Londres.
A grande potência simbólica da obra reside na fusão final entre a criança perdida e a criação de Hamlet.
O teatro torna-se um instrumento de invocação e permanência, sugerindo que a arte é o único lugar onde o que se foi pode finalmente habitar. Quando o jovem ator assume no palco a energia do menino Hamnet, o filme consolida a ideia de que a ausência pode ser transfigurada em linguagem viva.
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| Chloé Zhao |
Chloé Zhao exalta o teatro como um rito humano de presença e respiração compartilhada, uma ode à memória que se recusa a desaparecer.
Por sua delicadeza formal e profundidade emocional, Hamnet alcança uma universalidade rara, reafirmando que toda grande arte nasce de uma perda que insiste em ser lembrada e, por isso, merece o reconhecimento máximo da Academia.
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| Yago Tadeu |


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