Um pensamento ou uma fagulha Um pensamento ou uma fagulha 1
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Um pensamento ou uma fagulha

Um pensamento ou uma fagulha


Uma inquietação, um desconforto e lá vai o nosso cérebro gerar um pensamento para tentar estabelecer uma relação causal entre o mal-estar e os momentos da vida.

Por que nosso pensamento aparece sem que tenhamos condições de dominá-lo? Acho que ele nos atravessa como uma espécie de “flechada do amor”, sem que tenhamos qualquer domínio sobre como nos defender para que não nos toque, nem de leve. Mas a gente não consegue. Quando algo se dá conta dentro de nós ele já está ali, à espreita, esperando para que, dando passagem ou não, ele vem e vai, nos penetra, nos perfura e nos gera.

Quase me perdi na linha de raciocínio deste texto quando um pensamento veio até mim. Se dou atenção a ele, não sei por onde estaríamos. Quase que este artigo não teria essa forma. Por muito pouco já estaríamos refletindo sobre outro assunto.

Mas o problema é que não dominamos. Agora, por exemplo, “eu” não sei mais se estou pensando ou se o pensamento pensa em mi. Realmente, caro leitor (ou amigo, não sei ao certo), não sei se eu quero mesmo escrever sobre isso ou se estou sendo dominado por uma espécie de massa que me constitui e que me faz acreditar que de fato sou “eu”.

Sei que a conversa foi para outro lado. Quando começamos não era sobre isso que você me perguntou, mas diante do inesperado foi o que juntou e aconteceu. Você havia me dito para escrever, como numa paisagem aberta tomar um rumo inesperado. É o que faço, mas a sensação é que estou perdendo terreno, não sabendo por onde ir e me ‘pré-ocupando’ com falta de demonstração e domínio de mim mesmo.

Você não se assusta, leitor? Pois estou assustado. Estamos acostumados a estar centrados, focados (essa é a palavra de ordem do momento). Quando nos deixamos livres, como numa trilha sem trilha, não sabemos se voltaremos, se seremos encontrados, ou se perderemos para sempre. Sempre? Sim, sempre. Você não acha que está exagerando? Acho e não acho. Já não estou em condições de saber se acho ou não. Na verdade não me acho nem em mim mesmo, quanto mais pensar por meus próprios pensamentos.

Fica tranquilo, estou aqui com você, diz você me olhando como que um grande amigo. Sei que está aí, e sei que te vejo. Mas o que me apavora é que não me asseguro se estou conversando com você ou se estou falando com outra parte de mim, como quando pensamos e rebatemos nossos próprios pensamentos. Uma figura, uma imagem e suas palavras me aconselham a não desistir.

Tive uma ideia! Você sinaliza com a cabeça como dizendo ‘vamos lá’! Ao mesmo tempo que a ideia veio outra apareceu instantes depois contrapondo a ideia primeira, gerando uma insatisfação e uma dúvida. Será que a primeira era de fato uma ideia e a segunda foi só para atrapalhar a primeira? Ou será que a primeira e uma preparação para a segunda? Digo a você que a primeira tinha como fabulação discorrer com você sobre a valorização que deveríamos ter com os nossos pensamentos. Mas já a segunda ideia estragou a primeira porque me pôs numa sensação de que não valeria a pena valorizar os pensamentos, logo eles seriam desvalorizados pelos próprios pensamentos que o acompanham. Ou seja, só haveria de valorizar um pensamento se ele não deixasse que outro se intrometesse na sua ordem. Isso seria possível, caro leitor? Pensa rápido, porque outro pensamento de raspão pode chegar e acabar com a soberania do precedente.

Bem, de toda forma, te vejo (ou te penso, ou te imagino, não sei mais) nas próximas. Espero (acho que sou “eu” que espero e não um outro em mim) que tenhamos mais assuntos, reflexões e problemas para discutir no próximo ano. Foi bom estar com você (ou vocês). Não sei se “eu” estive com vocês mesmo ou se imaginei estar. De forma que ao mirar com as palavras e fantasiar acertar o alvo considerei, sempre, uma boa medida de transgressão.

Deixo aqui meus pensamentos me guiarem e voto para que o ano novo possa ser com menos tentativas e promessas de mudança e mais condições de desejar o que já desejamos sem que o desejo seja algo obrigatório.



Daniel Vicente da Silva

Psicanalista, Psicólogo clínico e Professor Universitário. Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região – NEPS-R.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com

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