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O psicoterapeuta e o sentido da vida

O psicoterapeuta e o sentido da vida


Uma das grandes questões humanas de todos os tempos pode se resumir na expressão ‘o que estamos fazendo aqui?’. Responder a essa pergunta levou grandes pensadores e intelectuais em diversas épocas a construir e contribuir com tratados sobre a nossa existência e as diferentes formas de viver.

Os psicoterapeutas seriam uma classe de destaque entre os que estão diretamente relacionados com o tema, porque a partir daqueles que o interpelam sobre a existência e as dores vindas dela, tratariam de auxiliar nos questionamentos e contribuir para aberturas de novas gramaticas de significados sobre a vida de cada um.

Uma coisa que o psicoterapeuta não pode realizar é algo pelo outro. Isso seria absurdo, quando não antiético. Orientar, a partir do que lhe trazem as pessoas em sofrimento, sem correr na tentação de aplicar sobre o outro achismos que serviram para sua vida; essa seria uma das questões mais difíceis de sua prática. Respeitar a singularidade de seu paciente, esse um exemplo original a ser seguido.

Digo isso por conhecer pessoas que gostariam de escolher a profissão de psicoterapeutas e que admitem que teriam que fazer um percurso pessoal como pacientes em psicoterapia para aparar as arestas do preconceito que inviabilizam certa disponibilidade e curiosidade pela variedade humana. Desaprovações morais preconcebidas e julgamentos sobre atitudes e comportamentos humano faria com que a pessoa tivesse pouca chance de ser um bom psicoterapeuta.

Quando recebemos uma pessoa em sofrimento nos deparamos com um pedido quase que inaudível que poderia ser traduzido como ‘minha vida vale mesmo a pena ser vivida? Poderia me responder isso?’ Disse acima que os psicoterapeutas estão em destaque porque ao ouvirem essa demanda são eles que podem ter a capacidade de ajudar a pessoa que os procura a pensar e refletir sobre a sua própria vida concreta.

Li recentemente, numa sentada, o livro “O sentido da vida” (Calligaris, 2023). Nele (livro póstumo) o autor critica a nossa obrigatoriedade de sermos felizes. Defende que, ao mesmo tempo em que falamos sobre a felicidade a qualquer preço (nunca falamos tanto e deixamos de fazer algo concreto), nos afastamos dos prazeres escolhendo às cegas (ele chama de escolhas bovinas) a resignação no sofrimento e no desprazer.

Sua justificativa é que para sermos sujeitos hedonistas (seres que procuram os prazeres aos desprazeres, algo que parece obvio mas que na realidade é uma queixa importante das pessoas em não encontrar tal prazer na vida) teríamos que ter uma dedicação e atenção sobre o mundo, coisa que não conseguimos atualmente por nosso modo de vida desatento e pouco dedicado. Ele nos dá um exemplo interessante. Quando tentamos imortalizar o momento com a câmera do celular e as selfies, damos as costas para o evento original, perdendo a oportunidade de contemplação daquilo que acontece, por conta de nossa distração.

Ou seja, fruir da vida seria algo para quem não é distraído e que consegue manter-se atento constantemente à ela. E não se trata de um esforço prejudicado e pouco prazeroso. A defesa aqui é que a primeira coisa que seria boa tem que ver com a própria atenção às coisas da vida. Parece algo ridículo de se escrever, mas que ao nos afastarmos da nossa própria história sonhando em viver algo extraordinário, perdemos o “encanto do trivial e do cotidiano”, atravessando a “vida como uma história entediante” (Calligaris, 2023, p. 119)

Agora, voltando ao trabalho do psicoterapeuta, ele teria a difícil tarefa de auxiliar na condução de levar as pessoas que se queixam por uma vida triste e pouco interessante a analisarem por outros ângulos e tentarem ‘inscrevê-la’ de uma forma diferente. Penso em ‘inscrever’ e não ‘escrever’ apenas porque as contingencias que estarão presentes nem sempre facilitarão o percurso. Escrever diz respeito à ‘narração’. Não se trata somente de narrar os fatos. A inscrição traz uma ideia de gravar, de esculpir a partir da própria narração de sua história. Trata-se do que fazer com aquilo que foi narrado.

Então, mais um esforço para pensarmos que o caminho para uma vida agradável passa pela valorização da nossa própria história, que não é feita longe das adversidades. Uma vida atraente não para a apreciação dos outros, mas para nossa própria condição de admirá-la.



Daniel Vicente da Silva

Psicanalista, Psicólogo clínico e Professor Universitário. Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região – NEPS-R.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com

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