Desejo e luto, luto e desejo Desejo e luto, luto e desejo
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Desejo e luto, luto e desejo

Desejo e luto, luto e desejo


“Se conseguir vir amanhã! Acho que já deu seu tempo para aceitar a morte da sua filha, não acha?”

Foi após essa ligação telefônica do gerente da loja em que a senhora Rosana trabalhava, que seu quadro depressivo se estendeu com muita intensidade.

Ela perdeu a filha de 10 anos durante os primeiros anos da pandemia, no Brasil. Teve direito a alguns dias de ‘licença nojo’. Após esse período precisou de declarações e atestados psicológicos e psiquiátricos para justificar que não estava em condições de retornar à sua função.

A empresa na qual ela trabalha há mais de 20 anos (inclusive o gerente já foi convidado para festa de aniversário da sua filha – Rosana nos contou em uma das sessões) estava pressionando seu retorno, ameaçando a perda seu cargo se ela não retornasse o mais breve possível.

Rosana chega até o atendimento psicológico e nas primeiras sessões relata: “Não serei mais uma mãe. Uma mulher que perde sua única filha nunca será chamada de mãe. Serei pra sempre a mulher que perdeu uma filha. Vocês acham que é fácil aceitar essa situação?”

É com esse pequeno recorte de um caso atendido por nós, durante a pandemia no ano de 2020, que trago para refletir sobre alguns pontos relacionados com o luto e o processo de elaboração (ou tentativa), muito particular em cada ser humano.

O desejo seria algo que movimenta, ou seja, às condições nas quais o sujeito ergue um projeto, manifesta interesses e executa o trabalho de realização de algo que ambiciona.

É aquela flama que ilumina o sujeito em busca de algo que acredita ser uma fonte de realização. O desejo também passa a ser um estímulo para o psiquismo. O desejo faz com que o sujeito procure saídas, as mais diversas, para os obstáculos que a vida lhe impõe.

O contrário do desejo seria um sujeito, por exemplo, em estado depressivo, queixoso, que se lamenta da vida, que, ao escutá-lo na clínica, percebemos que está paralisado e distanciado em relação ao seus impulsos.

Às vezes ele pode estar às voltas com uma perda – um luto – quando perdemos alguém que é amado ou algo que nós é precioso.

Freud disse que o “luto é, via de regra a reação à perda de uma pessoa amada, ou de uma abstração colocada em seu lugar, como pátria, liberdade, um ideal etc”. (Freud, 1914)

A fala da senhora Rosana nos apresenta bem esse momento em que o sujeito pode expressar que nada vale a pena, que as coisas não dão certo, que tudo foi (e vai) por água abaixo.

Essa situação pode demonstrar o afastamento do sujeito em relação ao registro do desejo. Sem o desejo como motor, a vida fica reduzida ao puro existir – Lacan chamou de “dor de existir” (Jacques Lacan, psicanalista francês).

Rosana necessitava de um tempo (um tempo do inconsciente) e não um tempo cronologicamente disponibilizado pela legislação trabalhista.

O trabalho de análise seria o de pedir à Rosana que diga o que ela quer dizer com isso (quando falava de não ser mais mãe, quando dizia que não havia sentido pra viver, quando se emocionava e se lembrava de momentos com a filha); e que isso seria uma tentativa, por parte do analista, de mobilizar o início de um trabalho psíquico de subjetivação.

“No luto encontramos a informação de que o tempo era necessário para executar detalhadamente a ordem da prova de realidade, após cujo trabalho o Eu conseguiu liberar a sua libido do objeto perdido.” (Freud, p. 111). A prova da realidade seria constatar que de fato ela perdeu uma pessoa querida. Liberar a libido do objeto perdido podemos entender como a possibilidade de novos caminhos de buscas e realizações.

O tempo de análise possibilitou que a senhora Rosana pudesse subjetivar a dor da perda da filha (e de outras perdas que apareceram com o trabalho analítico, perdas que ficaram acumuladas sem a condição de elaboração psíquica), dando lhe condições de se perguntar se gostaria ou não de retornar para essa empresa que não lhe acolheu no momento em que mais precisou.

Obs. 1 – Essa é uma história ficcional que se aproxima de uma caso atendido por nós durante o período mais crítico da pandemia do coronavirus, no Brasil;

Obs. 2 – O título dessa história poderia ser “O tempo de cada um no processo de elaboração de uma perda”.

Daniel Vicente da Silva

Psicanalista, Psicólogo clínico e Professor Universitário. Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região – NEPS-R.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com

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