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O olhar

Um paciente me relata, durante a sessão de análise, que não gostaria de ficar deitado no divã por conta de sentir-se alheio, perdido sem sua referencia visual. Num filme a mocinha conta para a amiga que ficou perdidamente presa no olhar do amante. No dia a dia a criança olha para sua mãe e tenta decifrar em seu olhar o que a mãe espera dela, que ela seja (ou se torne) para seguir sua vida. Os alunos na sala de aula, conta-me um professor, ficam com os olhos brilhando diante do novo conhecimento apresentado. O último suspiro e a pupila fechada bloqueia para sempre a visão daquele que não está mais entre nós. A beleza, a feiura, o disposto e o oculto, o cotidiano e o sonhado; ambos são formas e exemplos de ver e olhar o mundo.

Vemos com o instinto animal (da espécie dos mamíferos que somos), mas não só. Dizem que olhamos com a alma. Quando algo me chama o impulso me salta aos olhos. É tanto assim que a vida é percebida de forma bem diferente por cada um de nós. Algumas flores no caminho na entrada de uma escola pode ser percebida e admirada por alguns enquanto outros diz nunca ter reparado nelas. Numa exposição de artes é muito comum focarmos em um quadro e seus detalhes. Na saída, comentando com algumas pessoas nos damos conta de que provavelmente não vimos as mesmas obras expostas. Minimamente olhamos as mesmas coisas. Mas cada um olha aquilo que mais lhe atrai.

A linguagem é uma das manifestações humanas para nos relacionarmos com os outros. O olhar faz parte dessa ocorrência. Um dia de domingo não é o mesmo para os integrantes de uma família. Olhar para o céu azul pode ser reconfortante para a mãe, o pai pode nem se dar conta de que ele existe. Os filhos, um olha e se dá conta de que está um azul anil. O outro, não vê e muito menos olha. A filha, admirada pelo esplendor e beleza do que seu olhar captura tenta aprisiona-lo para eternidade. Registra várias fotografias com seu celular.

A complexidade da vida humana e seus adereços são tão atrativos que o fato do ‘olhar’ fazer parte de uma de nossas atividades interpretativas mais importantes (como os demais 4 sentidos do humano) nos incomoda quando tomamos consciência de que na sua ausência perderíamos algo muito valioso.

Tudo isso também para dizer de um filme chamado ‘Sentidos do amor’ (David Mackenzie, Reino Unido, 2011) um drama poético que mistura história de amor com ficção-científica (atenção: contém spoilers). Pessoas passam a perder os sentidos, um sintoma que uma das personagens principais, que na trama é uma epidemiologista constata em seus pacientes e a partir daí o filme se desenrola apresentando um mundo onde a convivência se torna insustentável.

Mackenzie já havia produzido em 2007 um filme sobre o olhar (Olhar do desejo, 2007). Naquele ele apresentava a fascinação de um jovem pelo prazer em olhar. Hallam tem como hobby espionar as pessoas de cima de sua casa da árvore. Logo mais ele se muda da casa do pai para um vilarejo, começa a trabalhar e encontra uma moça que é muito parecida fisicamente com sua mãe já falecida. O olhar leva o personagem ao encontro com o seu desejo.

Na obra de 2011 Mackenzie extravasa possibilidades de imaginação do telespectador. O segundo personagem que faz par entre os dois personagens por onde o enredo se desenvolve é um profissional ‘chefe de cozinha’. Você já deve estar pensando que para um chefe atuar na sua função, os seus sentidos – olfato, paladar, mas não só, o próprio olhar auxiliaria na estruturação e formação dos pratos – devem estar ‘a flor da pele’. É realmente esse o encontro entre a doença que tem como sintoma a perda dos sentidos humanos, uma epidemiologista que estuda suas causas e o ‘chefe’ que pode ficar sem sua ‘bússola’ interna para tirar de seus pratos seus melhores sabores, cheiros e formatos; que faz com que o filme nos apresente uma inquietação. Deixo a partir daqui a ‘degustação’ do filme para aqueles que se interessarem em assisti-lo.

De volta ao olhar, ele nos possibilita o encontro com a beleza, mas também com os dissabores. A diferença entre ver e olhar está nas entrelinhas. O afeto produzido só será percebido diante do ato de olhar. A visão não é olhar. Quando olhamos podemos sentir a satisfação com o ato percebido (percebido pela visão, como o exemplo em que algumas pessoas olharam as flores na entrada da escola). Uma coisa liga a outra. Ao mesmo tempo que olhamos e sentimos satisfação, procuramos no ato de olhar reproduzir a satisfação experimentada.

O olhar
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Daniel Vicente da Silva

Psicanalista e Psicólogo clínico, Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região – NEPS-R.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com

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