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Do janeiro branco ao setembro amarelo

Em 2022 ocorrerá a Conferência Nacional de Saúde Mental. Após dois anos de pandemia, o que falar sobre saúde mental?

Neste mês de fevereiro, iniciamos as atividades escolares. Na escola em que trabalho, retornamos no sistema de rodízio, para que pudéssemos cumprir os protocolos sanitários. Fazia dois anos que eu não me arrumava para ir trabalhar. Coloquei a calça jeans, que impressionantemente ainda me serve. Será que eu teria fome no trabalho? Preparei o lanche, arrumei a bolsa. Retornar foi emocionante. Porém, não me sinto retornando: sinto-me como se fosse meu primeiro dia. Quem eu encontraria? O que eu faria?

É minha primeira semana de trabalho presencial. As pernas dos meus colegas e as suas alturas me chamam a atenção: muitos, eu conhecia apenas o rosto, que via pelo Meet. Zoom. Teams. Estou feliz em estar ali, mas não sei dizer se estou “de volta”. Não sei se aquela que eu era até 2020 é a mesma que está ali, em 2022. Vamos com calma.

Há sete anos eu sou psicóloga escolar, e um dos relatos mais frequentes dos estudantes que procuram atendimento individual são de sintomas ansiosos e depressivos. O sofrimento não é exclusivo de estudantes de ensino médio: em 2018, a revista Nature[1] publicou um estudo no qual entrevistou mais de 2.200 estudantes de 26 países, e cerca de 40% dos entrevistados apresentaram sinais de ansiedade e depressão de nível moderado ou grave. Na população em geral, em média, esses índices são ambos de 6%.

Segundo pesquisa que realizamos com estudantes do ensino médio[2], o sofrimento parece estar relacionado à pressão por corresponder às expectativas, familiares e próprias, que têm as médias escolares e o êxito no vestibular como produtos finais; resultado que, para ser alcançado, leva a priorizar os estudos em detrimento da saúde e das relações sociais. A competitividade e o discurso meritocrático ressaltam a premissa de que o esforço está intimamente ligado ao mérito individual. O estudante então acredita que não acompanhar o ritmo significa algum “defeito de caráter” (preguiça, má vontade, malandragem) ou pouca dedicação.

Após dois anos de pandemia, como estão os estudantes? Quais situações eles vivenciaram? Quem eles perderam? De quem não puderam se despedir? Sentem-se confiantes em relação ao conteúdo trabalho neste período de atividades remotas?

Só nessa semana, atendi dois estudantes que tiveram que sair da sala de aula para conter os mesmos sintomas: taquicardia, sudorese, sensação de estar sendo julgado, vontade de sair correndo. São muitas emoções presentes, embaladas com a sonoplastia da sala de aula e do conteúdo sendo ministrado, alheio ao turbilhão de pensamentos. Quero aqui fazer um parêntese e pontuar algo que sempre trabalhamos nas atividades alusivas ao Setembro Amarelo: o cuidado com a saúde mental não deve ser em apenas um mês. Ele deve acontecer o ano inteiro.

Enquanto escola, como podemos ser um espaço que não ignore as questões emocionais, a saúde mental dos estudantes e dos trabalhadores? A coluna da querida colega Michele, do início de fevereiro[3], pontuou a importância da arte, dos jogos e da brincadeira para lidar com os conteúdos emocionais e inconscientes. Daniel, por sua vez, nos relembrou da importância da música e sua relação com nossa percepção[4].

Professoras e professores podem contribuir para a promoção de saúde mental dos estudantes, e a Arte mostra-se como uma excelente forma de mediação para esse trabalho. Desejo um excelente ano de 2022 a todas e todos.


Do janeiro branco ao setembro amarelo


[1] Fonte: https://www.nature.com/articles/nbt.4089

[2] Fonte: https://tede2.pucsp.br/handle/handle/22607

[3] “A ambivalência de sentimentos: O amor e o ódio pela mesma pessoa”. Link para a coluna: A ambivalência de sentimentos O amor e o ódio pela mesma pessoa (ovaledoribeira.com.br)

[4] “Tratado para uma boa música”. Link para a coluna: Tratado para uma boa música (ovaledoribeira.com.br)


Carla Cristina Kawanami, CRP 06/96109, é psicóloga escolar do Instituto Federal São Paulo (IFSP) campus Registro, graduada pela USP e Mestre em Educação: Psicologia da Educação pela PUC SP.

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(Direitos Reservados. A Autora autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).




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