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As torres da Basílica de Iguape

 

De acordo com o historiador Ernesto Guilherme Young (1850-1914), a construção da igreja dedicada ao Bom Jesus de Iguape, possivelmente, teve início no ano de 1787, quando era governador da Capitania de São Paulo o capitão-general Bernardo José de Lorena (1756-1818). As obras de construção do novo templo, várias vezes interrompidas por falta de verbas, se estenderam por sessenta e nove anos, e, graças à dedicação do tesoureiro da Irmandade do Bom Jesus, comendador Luiz Álvares da Silva (1808-1883), a igreja, apesar de não totalmente concluída, foi solenemente inaugurada em 8 de agosto de 1856, numa grande festa que ficou marcada na história da cidade.


As torres da Basílica de Iguape
Igreja do Bom Jesus, em fotografia por volta de 1873. Acervo do Museu de Iguape, restaurada por Adriana Ortega

O engenheiro alemão Carlos Rath (1802-1876), ao visitar a cidade de Iguape no ano de 1855, um ano antes da inauguração da Igreja do Bom Jesus, em seu manuscrito “Fragmentos Geológicos e Geográficos das Províncias de São Paulo e Paraná”, fez a seguinte descrição da igreja, por sinal nada lisonjeira:

 

“A nova Matriz, segundo meu entender, é um montão de pedras, sem plano próprio, sem elegância para uma semelhante obra, e cheia de desproporções, digo,  desproporcionada ás sommas que nella se tem gasto, e ainda se hão de gastar, por isso que só duas terças partes estão concluidas, restando a outra parte para fazer. Ella é dividida em três partes, e em nem uma cabe o povo que costuma frequentar as festas. Se em lugar dos paredões grossíssimos, que se acham no meio, e que repartem a igreja em três partes estreitas e compridas, existissem arcos altos, abertos com pilares adequados á obra, ficava tudo um templo só, e assim mesmo repartidos no fundo para os três altares. Assim receberia a capella no meio mais luz, e o templo seria suficiente para o povo em todas as festas”

 

Interessante ressaltar que a igreja foi inaugurada ainda sem as duas torres. No dia 15 de julho de 1871, foram tiradas as formas de três arcos de sineiros da torre “do lado do mar”. Já no dia 23 de julho, ao meio-dia, subiam os sinos para essa torre, sendo um sino grande dedicado ao Bom Jesus, outro também grande do Santíssimo e mais dois pequenos do Senhor.

 

Em 29 de julho de 1873, dia de São Pedro, domingo, subiu o sino grande da frente da torre, que a firma Oliveira Bastos & Mesquita doara ao Bom Jesus. Esse sino foi batizado com o nome de Apóstolo São Pedro, sendo padrinho o comendador Luiz Álvares da Silva. Houve missa e, após, grande festa, onde tocaram duas bandas da cidade, a Harpa Protectora dos Artistas e a Seis de Agosto, havendo queima de fogos e salvas nos barcos ancorados no Porto Grande.

 

A torre “do lado do mar” foi concluída somente no dia 30 de junho de 1876. Em 2 de julho, teve lugar a benção e colocação da cruz, ato que foi revestido de toda a solenidade.  Os serviços, então, se intensificaram e foi começada a construção da outra torre (“do lado da terra”), que, em 1878, achava-se em estado bastante adiantado.

 

A segunda torre só seria concluída cinco anos mais tarde, em 9 de maio de 1883. A esse respeito, encontramos a seguinte notícia no “Diario do Brazil”, do Rio de Janeiro (nº 68, de 24/5/1883, p. 2):

 

“A obra da segunda torre da matriz de Iguape foi concluída completamente a 9 deste mez, à uma e meia da tarde. Os sinos das duas torres, salvas e foguetes, a hora indicada, deram o signal da conclusão dessa importante obra, que segundo se diz, é um primor de arte e gosto.”

 

Analisando a fotografia que ilustra este trabalho certamente a mais antiga da cidade de que se tem notícia , é possível fazermos algumas considerações. A foto deve ter sido tirada entre 1871 e 1876. Vimos que em 1871 foram tiradas as formas de três arcos de sineiros da torre “do lado do mar” e que no dia 23 de julho daquele ano subiam os sinos para essa torre, apesar de não totalmente concluída. Somente no dia 30 de junho de 1876 é que essa torre foi finalizada.

 

Observando-se a fotografia em questão, verificamos que a torre “do lado do mar” já tinha os sinos e ainda não estava de todo concluída. Portanto, a fotografia deve ter sido tirada por volta do ano de 1873, quando foi colocado o sino de São Pedro e a torre ainda não estava finalizada.

 

Os sobrados e as casas térreas que vemos na fotografia conservam-se praticamente iguais até os dias atuais. À esquerda, vemos o casarão que em 1688 pertencia ao padre de Iguape (possivelmente o padre Francisco Pereira da Silva) e, em 1900, ao alferes Luiz de Souza Castro (que foi vereador e intendente de Iguape em 1891). Nesse imóvel funcionou uma padaria na década de 1920; depois, nos anos 1970, o restaurante “Visomar”; na década de 1990, o “Ximbica´s Bar”; nos anos 2000, o “Bar do Godão”; e, atualmente, o “Big Pizzas”.

 

Em seguida, vemos uma sequência de casas térreas. Na esquina do Beco do Padre Roma (antigo Beco de Dona Úrsula e antigo Beco de São João, mais conhecido como Descida do Restaurante Zé Juca), vemos o Sobrado de Zé Juca, ao lado do qual é discernido o Sobrado do Sr. Okawashi (onde, no início do século XX, funcionou o Vice-Consulado Português). Na sequência, outro tanto de imóveis térreos; outro sobrado (possivelmente o pertencente ao mesmo sr. Okawashi); outra sequência de imóveis térreos; e, no extremo à esquerda, utro sobrado, hoje inexistente, mais ou menos na altura do Supermercado Nakamura.  

 

Á direita da foto, ao lado da Igreja do Bom Jesus, vemos parte do sobrado que pertenceu ao ex-prefeito Carlos Fausto Ribeiro; ao lado, trecho da atual rua Paulo Moutinho (antiga rua General Glicério). Percebe-se o “vulto” da Igreja do Rosário, ainda sem a sua única torre. Em seguida, uma sequência de imóveis térreos, até chegar ao meio da foto, onde se destaca o sobrado que pertenceu ao coronel Jeremias Júnior (1872-1929), chefe político da cidade (onde funcionaram, no andar superior, os clubes “XV” e “25 de Janeiro”, e, hoje, é a atual Casa Paroquial); em seguida, o Solar de Ambrósio Simões; o imóvel onde funcionou a “Farmácia Colombo”; uma sequência de imóveis térreos, até chegar ao Sobrado dos Rollo. Observem o imóvel térreo na sequência, reformado posteriormente em estilo art nouveau, hoje conhecido como Sobrado de José Rollo.  

 

É possível serem discernidas, na foto, ao longo da extensão do Largo da Matriz, várias pessoas, adultos e crianças. Na frente da Igreja do Bom Jesus podem ser percebidos os alicerces e o entulho que sobraram da antiga Igreja de Nossa Senhora das Neves, a primitiva padroeira da Vila de Iguape, demolida em 1858 por encontrar-se em avançado estado de ruínas.

 

Notem que a Igreja do Bom Jesus (que seria elevada à categoria de Basílica Menor em 1962) ainda ostentava a sua antiga fachada, inspirada na antiga Igreja da Sé, de São Paulo. Essa fachada foi modificada para o formato atual, em estilo neoclássico, no final da década de 1890. A antiga fachada ainda existe por detrás da atual.

 

REFERÊNCIAS

 

SILVA, Comendador Luiz Álvares da. “Diário do Comendador Luiz Álvares da Silva”. Manuscrito copiado e datilografado por Laís Carneiro Muniz.

 

RATH, Carlos. “Fragmentos Geológicos e Geographicos para a parte physica da estatística das províncias de S. Paulo e Paraná começados no anno de 1845, dedicados ao illustrissimo e excellentíssimo senhor doutor Francisco Diogo Pereira de Vasconcellos, presidente desta provincia, pelo doutor Carlos Rath”. São Paulo: Typographia Imparcial, de Joaquim Roberto de Azevedo Marques, 1856.

 

“Diario do Brazil”, nº 68, de 24/5/1883, p. 2.

 

 

 

ROBERTO FORTES

ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br

 

(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

 

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