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Uma (quase) revolta de escravos em Iguape







Os escravos africanos começaram a ser trazidos para o Vale do Ribeira a partir da primeira metade do século XVII, com a descoberta do ouro de aluvião nos rios da região. Em 1630, de acordo com o historiador Waldemiro Fortes (1873-1932), foi instalada na Vila de Iguape uma Casa da Fundição do Ouro, a primeira de que se tem notícia no país.

Uma (quase) revolta de escravos em Iguape
Vista de Iguape, início do século XX. 

O cotidiano dos mineiros era sofrido: passavam todo o dia com os pés dentro da água, suportando os raios inclementes do sol e o calor sufocante, passando continuadamente as bateias, nas quais, quando a sorte ajudava, apareciam algumas gramas do cobiçado metal.

A mineração no Vale do Ribeira sempre foi pouca. O historiador Afonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958) escreveu, citando a região de Paranaguá, que quem voltava com cem gramas de ouro, voltava rico. Mas não se pode dizer que o ouro não teve importância. Ao contrário, foi gerador de muitas fortunas.

Diversos dos sobrados construídos no centro histórico de Iguape datam da época do fausto do ouro; isso também em Xiririca, Iporanga e Apiaí. Há registros que, durante as festas em Iguape e Ivaporunduva, as mulheres, e até mesmo as escravas, adornavam as bastas cabeleiras com algumas gramas de ouro em pó. Era costume, ainda, o noivo oferecer à noiva um litro de ouro em pó.

Com a decadência da mineração aurífera, a partir do final do século XVII, mas que ainda se manteve até meados do século seguinte, a Vila de Iguape conheceu um período de retração. Somente no final do século XVIII tem início o ciclo do arroz. Foi nesse período – considerado a “época de ouro” de Iguape – que grande contingente de escravos foi utilizado nas plantações de arroz.

As estatísticas confirmam a importância do trabalho escravo na vila. Em 1772, existiam 229 escravos; em 1808, 952; em 1819, 954; em 1845, 2.150; em 1874, 1.894. Quando da abolição da escravidão, em 1888, segundo a tradição oral, existiam apenas 90 escravos na cidade.

Os escravos que cometessem infrações eram condenados ao pelourinho, que a princípio se localizava em frente ao antigo prédio da Câmara Municipal, demolido em 1827 para a ampliação da Igreja do Bom Jesus, então em construção.

Como o açoitamento dos escravos perturbava as sessões da Câmara, os vereadores decidiram transferir o pelourinho para a Fonte do Senhor, onde os negros costumeiramente realizavam seus batuques e folguedos. Já os crimes mais graves eram punidos com a forca, armada no Largo do Rosário, onde foi construída a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

O que muitos desconhecem é que há registro de uma frustrada revolta de escravos na Vila de Iguape, curiosamente cinco anos depois da Revolta dos Malés, na Bahia, em 1835. Este fato foi registrado pelo jornal “A Phenix”, então editado na capital da Província de São Paulo, em seu número 302, de 24 de fevereiro de 1841.

Quem enviou a correspondência foi um iguapense que usou o pseudônimo de “Anti Haytianista” (numa clara referência à revolta de escravos ocorrida no Haiti em 1791-1804, que resultou na abolição da escravidão e na independência do país, tornando-se a primeira república governada por pessoas de ascendência africana).

A história foi a seguinte. Os escravos pretendiam, na noite de 25 de dezembro de 1840, em pleno Natal, assassinar todos os seus senhores. Mas o plano foi descoberto por um “preto forro” (livre) no dia 22 de dezembro.

Os senhores, assustados, “vendo seus dias ameaçados”, procuraram o juiz de paz, Francisco Augusto de Oliveira Muniz, que, “apezar do seu grande acanhamento”, conseguiu descobrir os “cabeças” da malograda revolta. (Francisco Augusto de Oliveira Muniz era também advogado, homem de letras e professor de Latim e Francês).

Alguns dos escravos foram presos, sendo outros soltos logo em seguida. Muitos receberam “carta de alforria”, para que não fossem açoitados, como mandava da Lei da Chibata, de 1835. Parece que os senhores não tinham a menor vontade de manter em suas senzalas esses negros revoltados.

Até mesmo o respeitado padre José Alves Carneiro (1799-1850), ao saber que o seu escravo participara da tentativa de levante, rapidamente concedeu-lhe carta de liberdade. (Esse sacerdote nasceu em Iguape a 15 de setembro de 1799, filho de José Alves Carneiro e dona Ana Joaquim dos Passos. Foi nomeado padre de Iguape em 18 de maio de 1840, em substituição a João Baptista Ferreira, que falecera em dezembro de 1839. José Alves Carneiro já era vigário coadjutor desde 1823. Morreu vitimado pela febre amarela que assolou Iguape nos anos de 1849-1850).

Escreveu o missivista de Iguape, revoltado com a impunidade: “O crime pois terá de ficar impune; e o exemplo será péssimo. [...] O certo é que nem uma providencia se tem dado, e que de nada servem n´esta malfadada Villa um Promotor e um Juiz de Paz.”

E assim terminou a (quase) revolta de escravos na Vila de Nossa Senhora das Neves de Iguape.

ROBERTO FORTES
ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br

(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).


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