A mistura da alegria e de elementos da memória social no Carnaval de Registro-SP A mistura da alegria e de elementos da memória social no Carnaval de Registro-SP
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A mistura da alegria e de elementos da memória social no Carnaval de Registro-SP

A mistura da alegria e de elementos da memória social no Carnaval de Registro-SP


Foi em 2020 que conheci o carnaval da cidade e fiquei encantada com a participação do povo. 

Ao passar os blocos e da escola, a passarela do desfile era tomada por crianças brincando, cadeiras de praia ao longo da rua, com pessoas de várias faixas etárias, estilos e etnias. 

Uma experiência inusitada para quem já pulou em diversos carnavais nas capitais de Aracaju, Salvador, Rio e São Paulo, seguindo ritmos do axé, frevo, marchinha aos sambas-enredos, pois, fui levada a sensação de um sonho feliz de cidade no carnaval de Registro-SP e senti que os demais carnavais tinham na minha experiência se tornado uma realidade ao avesso como Caetano Veloso descreve sua chegada em Sampa com seus olhos de um jovem do interior da Bahia.

O avesso do avesso que vejo nos carnavais me remete aos custos dos abadás, arquibancadas, camarotes e desfile nas Escolas de samba em São Paulo e no Rio de Janeiro, uma vez que ficando inacessível a cada ano. 

Como muitos que gostam da mistura do carnaval, pulei dos desfiles para os maravilhosos blocos de rua nas cidades do Rio e de São Paulo, sem corda e marchinhas críticas e engraçadas pelas paródias da vida, ia no embalo, rumo ao samba e às origens do carnaval no Brasil.

Mas como tudo se transforma, o carnaval das grandes cidades, e das pequenas também, no caso de Registro-SP essas mudanças aconteceram.

Conforme os relatos de organizadores do carnaval no documentário “Registro do Samba” (2021), o carnaval de rua em um momento deixou de existir e passou a ser no clube RBBC, hoje chamado de ACER, e que nos últimos anos voltou a ser na rua com a iniciativa da prefeitura que decidiu resgatar o potencial cultural e econômico que a festa carrega.

Espera-se que a tradição permaneça sendo apoiada pelos governantes, pois além de promover uma festa popular, gera trabalho e um ambiente de transmissão da cultura e história do lugar. 

Ainda mais que em Registro-SP é possível encontrar vários ritmos em uma única avenida, uma riqueza cultural, sem corda e com uma atmosfera acolhedora, respeitosa e democrática. 

Observo a vivência do carnaval alinhada ao pacto assinado pelo Brasil na convenção organizada pela UNESCO sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais. 

Neste documento, o Brasil se compromete em respeitar e ampliar a diversidade cultural favorecendo ambiente democrático, de justiça social e respeito mútuo entre povos e culturas, fundamental para a promoção da paz e segurança ao nível local, nacional e internacional” conforme (UNESCO, 2006).

Para dar uma palhinha dessa atmosfera, destaco alguns blocos, entre eles: Bloco Afoxé Opará, um movimento que resgata as origens africanas e seus ancestrais; o Bloco Batucada Abençoada organizado por pessoas da Bola de Neve, que compreendem que o desfile é uma forma alegre de levar o amor e a mensagem de Deus; o Bloco dos Belos que fez um lindo samba-enredo falando sobre o São João, e a Escola de Samba GRES VILA SÃO JORGE que fez uma linda homenagem ao poeta, escritor e maestro Benevides Teixeira.

Cabe ressaltar que o samba-enredo conta uma história, por meio de sua letra, do ritmo e de suas fantasias divididas por alas temáticas. Em 2020, a Escola de Samba GRES VILA SÃO JORGE em seu samba-enredo “10 anos de Vila” dos compositores Wilson Midei/ Tiago Neves, homenageou Benevides Teixeira, uma personalidade que deixou diversas marcas na cidade, entre elas liderando vários movimentos culturais e responsável por criar em 13 de maio de 1963, a “Associação dos Homens de Cor de Registro-SP (hoje Associação dos Negros de Registro-SP), cuja diretoria era composta por negros, brancos e nipônicos, inclusive mulheres” conforme ACIAR, [s.d].

Compreendo que o samba-enredo tem uma potência na sua narrativa poética, pois além de ser uma narrativa que abre para novas formas de entender a história que está sendo narrada, ela também se apropria da letra, dos sons, do ritmo, da dança e das fantasias que favorecem a transmissão ao longo dos anos. 

A psicóloga Ecléa Bosi (2004) em seu livro que discorre sobre a Memória social, trata o som como um elemento primário, pois primeiro escutamos as palavras, somente depois escrevemos, assim é com o ritmo, a dança, a criança aprende primeiro a se movimentar e depois a cantar e por fim escrever as músicas. De acordo com Raymundo (2020):

o gênero samba-enredo é ´poética da brasilidade`, assentada, simultaneamente, nas memórias comunitárias e na representação de memórias nacionais, na reprodução de discursos hegemônicos e na afirmação de discursos contra-hegemônicos, na manutenção do status quo e na resistência ao poder dominante. 

Uma poética radicada na diversidade como elemento distintivo do povo brasileiro (p.120).

Quando estudamos memória social, discutimos que as histórias que são publicadas nos livros são partes da história, pois a escolha da história que vai ficar nos livros não depende somente da relevância da histórica, mas de quem decide e quem vai escrever os livros de história. 

Uma parte da memória social só é possível de ser realmente acessada por meio das narrativas diretas com as pessoas que passam pelos acontecimentos, uma forma de acessar isso é ouvindo as pessoas contarem as suas histórias, suas lembranças, por isso, no campo da memória social o uso das histórias orais, e outros recursos como fotos, crônicas, músicas, vão trazer elementos que se repetem e nos apontam a relevância dos fatos para o povo que menciona de diversas formas aquelas histórias.

No que tange as contribuições da psicanálise sobre este tipo de narrativa que é o samba-enredo, destaco a contribuição do psicanalista Tomás Mendes, que realizou uma pesquisa¹ que proporciona uma reflexão de como o samba pode ser uma via sublimatória para os envolvidos, pois em vez de descarregar no corpo suas tensões e frustrações diante das faltas humanas que nos fazem sentir insatisfeitos. 

Sendo assim, o samba possibilita uma forma de encarar nossas dores, nossos sonhos impossíveis. 

Essa é a função da arte, pois nos permitir acessar coisas que não nos permitimos, ou mesmo que são muito duras para acessar diretamente. Segundo Tomás Mendes (2021):

pelo hábito dos sambistas de compor, improvisar e compartilhar de forma intensa suas canções, o samba produz um campo social que contém um saber riquíssimo e veias abertas para a fácil circulação de significantes entre os sujeitos, que poderão ornar estes com as suas fantasias e, eventualmente, realizar a sublimação (s.p).

Um exemplo da transmissão de elementos culturais em nosso carnaval é o samba-enredo “Nos limites dos confins”², bela letra do compositor, passista e mestre sala Wilson Midei da escola de samba GRES VILA SÃO JORGE, que traz alguns dialetos da região e pronuncias de nossa região “, depois a nossa mistura de diferentes estilos de vida e etnias, assim como as belezas naturais e alguns aspectos da economia local.

²No Limite dos confins...
Samba-enredo 2023 da GRES VILA SÃO JORGE
Compositor: Wilson Midei



Ohhhh maenga do céu
Meu bom jesus
É quem protege essa gente
Sou roceiro sou peão
Gente de bom coração
ah poisoque
Disk meu sotaque é diferente
Quilombola Bandeirante
Sou o índio o imigrante
Fruto da mistura brasileira
A Vila desce a avenida altaneira
Pra encantar o nosso Vale do Ribeira
Meu Vale
Plantado as margens do Ribeira
Uma riqueza brasileira
De uma beleza sem igual
Tem
Nas cachoeiras e cascatas
O verde vivo das suas matas
É um patrimônio nacional
Traz
Na sua essência uma mistura
Conhecimento e cultura
Que atravessa gerações
Sou
Apaixonado nessa terra
E no meu canto se encerra
Emocionando os corações
Sou filho da terra
Do chá e do ouro
Pupunha e banana
Meu grande tesouro
Uma imensidão
Beleza sem fim
Sou Registrense
No limite dos confins



Michele Gouveia é Psicanalista, Psicóloga Clínica e Consultora de Carreira, mestre em Psicologia Social e Especialista Clínica em Psicanálise e Linguagem pela PUC/SP. site: https://michelegouveia27.wixsite.com/michelegouveia

(Direitos Reservados. A Autora autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos)



Referências:

ACIAR. Benevildes Teixeira. São Paulo. (s.d.) Acessado em 05 de fevereiro de 2023.Disponível em: https://www.aciar.com.br/benevides-teixeira

BOSI, E. O tempo vivo da memória -2.a edição. 2. ed. São Paulo: Atelie, 2004

¹MENDES, T. A fantasia e Outro como saber no samba: uma via possível para sublimação. 2019. Disponível em:https://tede2.pucsp.br/bitstream/handle/22155/2/Tom%C3%A1s%20de%20Campos%20Andrade%20Mendes.pdf

MENDES, T. O samba o seu saber e a psicanálise cadencias entre a fantasia e a sublimação. Acessado em 05 de fevereiro de 2023.Disponível em :https://conexoesclinicas.com.br/o-samba-o-seu-saber-e-a-psicanalise-cadencias-entre-a-fantasia-e-a-sublimacao/

Raymundo, J. (2020). Memórias e resistência na poética das escolas de samba. Literatura e Autoritarismo, (36).

REGISTRO DO SAMBA- Documentário Carnaval 2021. Diretoria de Cultura, Turismo e Economia Criativa de Registro. São Paulo, 2021. Acessado em 05 de fevereiro de 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UDmfQifgZUQ

UNESCO. Convenção sobre a proteção e a promoção da diversidade das expressões culturais. Brasília, 2006

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