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Quando os adultos percebem as potências das crianças

Neste domingo, senti que precisava abordar uma experiência que, a meu ver, transmite esperança, cuidado e transformação. Dedico esta coluna a todos que cuidam para que toda a vida no Vale do Ribeira possa ser potencializada.

No mês passado foi noticiado uma bela história no campo da Educação Infantil de nossa região do Vale do Ribeira. Após a direção e professores notarem que um aluno era apaixonado por planetas e pelo sistema solar, eles iniciaram um movimento para que duas creches de Registro, as creches Kiyoshi Seimaru e Novo Mundo, pudessem participar da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica.

Até então, isso não era permitido dentro dessa Olimpíada, pois não contemplava na inscrição a faixa etária de estudantes do Ensino infantil. Depois de muita insistência, somando esforços de professores, diretores e pais que se engajaram nesta empreitada, a diretoria conseguiu incluir as duas creches, e as crianças participaram da Olimpíada.

A discussão a respeito das capacidades das crianças de desenvolverem determinadas atividades que podem ampliar seus conhecimentos é algo que atravessou a história de vários campos, até mesmo no círculo psicanalítico, pois houve aqueles que no início achavam que não era possível a terapia com crianças, mas a maioria dos psicanalistas provou que sim, é possível uma criança passar por um processo psicanalítico, e desenvolver de sua forma lúdica associações e elaborar conteúdos que estavam lhe causando sofrimento. Freud mesmo, que acabou não atendendo diretamente uma criança, supervisionou o pai do pequeno Hans que sofria com uma fobia de cavalos. Neste percurso, Freud deixou claro que a criança tende a ser mais sincera que o adulto se tiver uma situação que favoreça que ela se expresse e seja acolhida, afinal, ela pode falar mais verdades que um adulto. E mesmo que ela minta, como muitos adultos também mentem em algumas situações de suas análises, a sua mentira diz alguma coisa que precisa ser compreendida pelo psicanalista. A mentira fala algo sobre o sujeito, às vezes, pode ser uma defesa, pode ser muitas coisas que só fazem sentido quando faz sentindo para a dupla analítica.

Foi a insistência de pessoas capazes de enxergar a criança com um sujeito singular, de direitos e deveres como todo ser humano, que permitiu surgir o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Antes dele uma criança não tinha como saber os seus direitos.

A insistência da direção e de professores, evidenciou-se que as crianças podem se interessar e demonstrar seus conhecimentos em diversas áreas do saber. Com muita criatividade da direção e de professores, contando com o interesse dos alunos e o apoio dos pais, estas escolas levaram as primeiras crianças para uma Olimpíada Brasileira de Astronomia, e nisso conseguiram abrir um espaço para que outras crianças da pré-escola possam ser incentivadas a conhecer mais sobre o nosso sistema solar, e quem sabe, os pais e as crianças possam sonhar com novas descobertas cientificas. Foi dado o primeiro passo.

Vale destacar que o economista James Heckman, ganhador do prêmio Nobel em 2000, é um grande defensor da importância de investir na educação infantil e do quanto isso pode ajudar na redução da desigualdade social. Em suas entrevistas ele menciona a importância de criar um ambiente de apoio aos pais, assim como o incentivo dentro ambiente escolar de atividades lúdicas, entre elas o Xadrez.

A forma lúdica como é apresentada os novos conhecimentos, favorece que a criança participe de forma ativa, e não apenas como uma receptora de conteúdo. O fato de poder interagir com as histórias e com os objetos, favorece que ela se expresse, dessa forma ampliando a espontaneidade e a autenticidade. Este é um grande desafio para a educação: elaborar espaços dinâmicos para que os sujeitos possam aprender considerando suas singularidades. O esforço para favorecer que uma criança possa expressar seus interesses e ampliar seu autoconhecimento, considerando seu ritmo, sem impor, mas buscando construir junto com ela esse conhecimento, é uma forma de potencializar novos conhecimentos.

O psicanalista Ferenczi tem textos muito pertinentes que falam sobre a sua experiência de atendimento com crianças. Um deles é “A adaptação da família a criança” (1928), e uma das coisas que destaco é que as crianças são sensíveis e como é comum, e assustador, que pais e outros adultos falem coisas importantes na frente das crianças, sobre separação, ou mesmo que estão cansados de serem pais, e acharem que elas não são afetadas por tais falas. Infelizmente ainda é ver pessoas que subestimam as crianças, tratando-as como “se nada sentissem diante das cenas” que muitas vezes são exaltadas e repletas de sentimentos dos adultos.

Em outro texto, “Análise de crianças com adultos”, Ferenczi menciona como é importante que a escola primeiro favoreça que a criança possa expressar-se de forma espontânea, e que aos poucos, cuidadosamente, possa intervir ajudando a criança a controlar seus diversos impulsos. Ao mesmo tempo, o autor assim como Freud, observavam que o sistema escolar engessado traz muito sofrimento; infelizmente, isto é algo que atravessa a escuta clínica de muitos colegas, assim como de professores que buscam trazer um olhar sensível para as demandas de seus alunos.

Sustentar a sensibilidade de investir no interesse e capacidade dos alunos possibilita transformar processos e instituições, tal como o ato dos educadores mostrou que temos um caminho que nem imaginamos que a educação infantil ainda pode desbravar.

Referências:

Ferenczi, S. (1928/2011).A adaptação da família a criança. Obras completas. Psicanálise IV. A. Cabral, Trad. São Paulo: Martins Fontes.

Ferenczi, S. (1931/2011).Análise de crianças com adultos. Obras completas. Psicanálise IV. A. Cabral, Trad. São Paulo: Martins Fontes.

https://www.ovaledoribeira.com.br/2022/05/pela-primeira-vez-historia-creche-municipal-olimpiada-brasileira-astronomia-astronautica.html

https://www.afbnb.com.br/investir-em-educacao-para-a-primeira-infancia-e-melhor-estrategia-anticrime-diz-nobel-de-economia/



Escrito por Michele Gouveia é Psicanalista, Psicóloga Clínica e Consultora de Carreira, mestre em Psicologia Social e Especialista Clínica em Psicanálise e Linguagem. E-mail: michelegouveia.psi@gmail.com,site: https://michelegouveia27.wixsite.com/michelegouveia/publicacoes

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