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O peso do mito do instinto materno

Quem pode garantir que um filho fará a mulher feliz e realizada? Desde quando o que faz bem para um necessariamente serve para o outro?  

O peso do mito do instinto materno


Nas últimas semanas estive pensando na situação de pessoas que projetam nas outras a ideia de que ter um filho é algo essencial na vida de uma mulher, dizendo que é contra a sua natureza não vivenciar este instinto, desconstruído há anos, mas ainda presente no imaginário de muitos. Estes que projetam demonstram uma dificuldade de entender que as pessoas podem desejar experiências diferentes por vários motivos.

Já não bastasse a falsa promessa de que um filho, garantidamente, será a alegria do casal, ou mesmo o motivo para uma mulher se sentir feliz e realizada, vale o questionamento: quem pode garantir que isso vai ser exatamente assim na experiência futura de outra pessoa? Desde quando o que faz bem para um necessariamente serve para o outro?  

Para a entender como começou este mito, é necessário resgatar dados históricos, lembrando que a sociedade brasileira, em sua fundação, foi influenciada pela cultura europeia. Um exemplo disto se encontra na ideia do casamento apenas ocorrer sob a condição da família da mulher pagar um dote ao marido.

Foi na Europa da Idade Moderna que surgiu o mito do “instinto materno”. Naquela época, a mulher não tinha nenhum valor especial na sociedade, os casamentos eram em grande parte arranjados e não se dava muita atenção para as crianças. Já nas famílias feudais, as crianças eram cuidadas pelas amas de leite até os cinco anos, sem contato com os pais, pois compreendiam que se passassem dessa idade, as crianças tinham mais chances de sobreviver. Dessa forma, a preocupação dos pais era garantir os cuidados biológicos da criança, sem uma preocupação com os cuidados afetivos. Esta falta de atenção para com o bem-estar das crianças, incluindo sua saúde física e psíquica acarretou um alto índice de mortalidade infantil. Após pesquisas constatarem a importância de mais cuidados, estas orientações passaram a influenciar os cuidados na Idade moderna.

Assim, foi após a primeira Guerra Mundial (1914-1918), com o despovoamento causado pela guerra, que surgiu a preocupação com o crescimento da natalidade e redução da mortalidade infantil na Europa. Neste momento, os países passaram a fazer campanhas de incentivo a fecundidade e educação dos filhos, as mulheres passaram a ser reconhecidas como responsáveis pelos futuros cidadãos, sendo cobradas socialmente para cumprir seu dever cívico de contribuir com o desenvolvimento das nações.

Na época, as mulheres de baixa renda (as proletárias) foram convocadas a trabalhar nas industriais para cobrir a mão de obra escassa e passaram a vivenciar o sentimento de culpa por não conseguir realizar a maternagem, antes vista como praticamente de exclusiva responsabilidade da mulher. Isto vem mudando devido a luta dos movimentos feministas.

Foi neste período que surgiu os relatos de médico feitos sem evidência cientifica, por exemplo, de que a mulher tem um “instinto inato para ser mãe” porque ela pode gerar uma criança, reduzindo isso a ideia de que toda mulher pode ser uma boa mãe por possuir este instinto, sem considerar a singularidade de sua existência e dos seus desejos e de suas possibilidades.

Diante disso, muitas mulheres até hoje sofrem por não desejarem ser mães, de acharem que são menos mulheres por não ter sentido este instinto. Apesar de termos pesquisas que desconstroem este mito, esta ideia ainda é disseminada.

Foi em 1960 que o movimento feminista ganhou grande expressão na luta pela divisão das tarefas domésticas. Na França, ocorreu o desenvolvimento do conceito de parentalidade que compreende a relação de filhos com os pais, considerando que o cuidado da criança é de responsabilidade dos pais independente do gênero.  Atualmente, discutimos em nossa sociedade várias formas de reduzir a dupla jornada das mulheres, porém, ainda é triste saber que as mulheres gastam mais de três horas do que os homens em trabalhos de cuidados (das crianças, de idosos e da casa) não remunerados.

O livro “Um amor conquistado: o mito do amor materno”, escrito em 1980 pela filósofa Elisabeth Badinter, descreve os vários fatores que desconstroem o mito de que a mulher tem um instinto materno, deixando claro que isto é uma construção social, que a mulher por meio de suas experiências e possibilidades pode ou não desejar ser mãe, assim como um homem sempre pode escolher.

Diante de uma massacrante cobrança social de que as mulheres devem independente de seu desejo, momento de vida e contexto, procriar, é importante lembrar que existem muitas mulheres que lutaram e lutam até hoje para que as outras possiblidades possam ser consideradas, isto inclui adiar uma gestação, adotar, não ser mãe, entre outras possibilidades.

Escrito por Michele Gouveia é Psicanalista, Psicóloga Clínica e Consultora de Carreira, mestre em Psicologia Social e Especialista Clínica em Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP.

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