A bolsa ou a vida A bolsa ou a vida - O Vale do Ribeira

Técnico Informatica

Técnico Informática Registro

A bolsa ou a vida

 

Tem algo que talvez as mulheres consigam levar com mais seriedade, algo da dureza de encarar a vida, em que elas aparentemente tenham mais tato de como lidar com essas situações. Esse algo tem que ver com os limites que a existência impõe, que a psicanálise nomeia de castração.

A bolsa ou a vida

Castração para essa teoria não tem que ver com perder uma parte do corpo, como sempre foi posto. Isso Freud (Sigmund Freud, 1856 – 1939) aproveitou do medo das crianças (na sua época) para dizer da dificuldade que todos temos em lidar com as perdas da nossa infância. O colo da mamãe, o chupar o dedo, o sumiço do ursinho cheiroso – todas essas e outras diz respeito a uma infância mágica que um dia acreditamos ser para sempre. Freud se referiu a esse lugar deslumbrante que todos penamos em deixar para trás (alguns não abandonam o mundo de fantasias nunca).

A questão é que me parece que as mulheres se saem melhor no abandono desse mundo de ilusão. Seja porque condicionadas historicamente, elas tem que lidar com o sangramento da menstruação ou pela condição do desconforto e da mutilação que sentem no momento da gestação. Já os homens penam para largar pra trás o mundo de fantasias (lembrando que recorto homens e mulheres por limitações da linguagem; isso não quer dizer que não tenhamos homens que se saem melhor ou vice-versa).

No fundo nos proteger da castração é tentar fugir de tudo que pode nos afastar do mundo da ilusão e se refugiar num certo egoísmo próprio do humano.

Já os homens, o trajeto histórico é bem diferente. O menino tem facilidades proporcionadas pelo lugar do masculino em sociedade. Ficar sem camiseta num dia de calor, fazer ‘xixi’ na calçada, “primeiro os meninos e depois as meninas” ouve a irmã diante de seus irmão, de um de seus pais; são alguns exemplos do que é bem reservado para eles. Os pais vivem numa estrutura que acabam proporcionando mais liberdade aos meninos do que às meninas. Eles percebem e tiram vantagem disso. Elas sentem a vantagem para eles e tentam diminuir a diferença que existe. Algumas meninas se revoltam e partem para o enfrentamento (ainda bem) contra as regras que parecem feitas para beneficiar os homens. Graças a elas (elas que não aceitam ficar no quadrado estabelecido pelo outro, mas desejam ter a liberdade de criar seus próprios quadrados, círculos, triângulos, ou o que for) foi possível que movimentos como o “me too” criado pela ativista negra Tarana Burke (1973, ativista americana) em 2006, que reunisse, em todo o mundo, mulheres que sofreram violência sexual e que se propuseram a amplificar suas vozes e dar um “basta” no mundo desenhado por homens, reescrevendo algumas regras que são impostas por este lugar de poder.

Mas voltando ao início da coluna, penso que fiz todo esse trajeto para chegar ao tema do “Novembro azul” que é o mês de conscientização para a problemática do câncer de próstata entre os homens. Na verdade o que me chama a atenção é o lado mais difícil nessa conscientização que é os homens aceitarem fazer o exame preventivo. Quanto mais resistência, menor as chances de cura.

Como escrevi acima, se as mulheres parecem ter mais facilidade ao encarar os limites da vida, alguns homens melindram diante deles. O preconceito não é só com a forma de um dos exames (há 06 tipos de exames, entre eles o toque retal), mas parece também decorrer do medo, na fantasia masculina, de que no “toque” o homem venha a perder mais do que sua masculinidade. O que está em jogo também na fala machista de que “homem não enfiará o dedo em mim” é o abalamento, o choque, uma espécie de sacudida no lugar de privilégios em que nossa sociedade lhe concedeu.

Nessa organização em que a maior parte dos homens são colocados na situação de poder, escolher entre a ‘bolsa ou a vida’ pode ser um grande martírio.

Daniel Vicente da Silva - Psicanalista, Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região - NEPS-R. Psicólogo Especialista em Psicologia Clínica e Saúde Mental –atuação no SUS e Professor universitário.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com

Postar um comentário

0 Comentários