Reflexões sobre a terceira idade Reflexões sobre a terceira idade - O Vale do Ribeira

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Reflexões sobre a terceira idade

Em 1991, a ONU (Organização das Nações Unidas) instituiu o dia da Terceira Idade. Entretanto, foi apenas, em 2003, que o Brasil estabeleceu o Estatuto do Idoso, agora com 18 anos de idade. 

Reflexões sobre a terceira idade


Este Estatuto estabelece os direitos dos idosos com idade a partir de 60 anos e inclui também punições para os casos em que o idoso sofra Violência Física; Violência Psicológica; Negligência; Violência Institucional; Abuso financeiro; Violência patrimonial e Violência sexual.

Em uma matéria do site Agência Brasil, em junho de 2021,  foi constatado um aumento de 57% no número de denúncias de violação de direito dos idosos. Assim como as crianças, a população LGBT e outras minorias, os idosos foram muito impactados pelo aumento dos diversos tipos de violência durante a pandemia. Apesar de existir este canal de denúncias, muitas pessoas deixam de pedir ajuda, de modo que é importante ficarmos atentos aos sinais de violência e ajudar denunciando pelo n° de telefone: 100, a denúncia pode ser anônima.

Garantir os direitos dos idosos é ter um compromisso com a nossa humanidade e com a nossa história. Conforme disse a psicóloga social Ecléia Bosi (2003/2018): “a memória dos velhos pode ser trabalhada como um mediador entre a nossa geração e as testemunhas do passado”, sendo uma forma de transmissão de valores, de conteúdo, de atitudes que constituem a nossa cultura.

Pensando sobre este trecho de Ecléia, lembrei que, no Vale do Ribeira, conheci por meio de uma ótima aluna da psicologia, um livro que é resultado de um  projeto de narrativas da história da cidade contada por moradores idosos de Cananeia. A proposta do livro, desenvolvido no centro do idoso de Cananeia, é favorecer a transmissão da Memória Social do lugar, além de escutar e de permitir que o saber dos idosos seja transformado em uma informação pública sobre a cidade e a história dos idosos que fazem parte dessa história, este é um ótimo exemplo de inciativa que deve ser divulgado e expandido.

A partir desse desejo de refletir sobre a terceira idade, assisti pela primeira vez o filme “Conduzindo Miss Daisy”, de  1989. O filme conta a história de uma professora aposentada, que após cometer um acidente de carro fica sem condições de dirigir. O seu filho nota essa dificuldade ao volante devido aos  seus reflexos estão lentos dada a idade,  e propõe a contratação do motorista Hoke Colburn, 12 anos mais novo que ela, um idoso recém chegado a terceira idade.

Apesar do tempo em que foi gravado este filme e a partir de uma realidade americana, percebi ser possível realizar algumas  aproximações com a realidade do idoso hoje no Brasil. A começar com o fato de que visto que no Brasil temos um crescimento do número de idosos com 60 anos que estão trabalhando nos cuidados de outros idosos. Inclusive, neste ano, segundo uma matéria publicada na revista Valor Econômico, a profissão remunerada de cuidador cresceu 547%. Voltando ao filme, Hoke começa como motorista e passa a assumir, aos poucos, um papel próximo ao de cuidador.

Hoke, com sua paciência, persistência e bom humor, vai quebrando as resistências de Miss Daisy sobre se permitir viver de outra forma, antes dirigindo para ir aos lugares, e agora sendo conduzida e acompanhada até eles. Ela vai nessa nova jornada guiando-o rumo as coisas que deseja e acredita. Vai aprendendo com ele sobre como lidar com o fato de sofrer preconceito e os efeitos de sua reprodução. Ele vai se posicionando, denunciando o preconceito racial e social em que vive, e que apesar das injustiças, busca mostrar que a vida pode ter seus momentos de graça, e, assim, eles constroem uma bela amizade.

Depois do filme, aproveitei para reler o belo livro “A velhice saudável” do filósofo grego Cícero, de 106 a.C., o que me permitiu lembrar de meus amigos idosos, a começar por Agop, que tive o privilégio de trabalhar e convidá-lo para rodas de samba em São Paulo, pois compartilhamos a paixão pela cultura e pelo amor ao povo brasileiro. Dele escutei diversas histórias, desde a luta contra a fome ao lado de Betinho no Rio de Janeiro e a redução da mortalidade infantil em regiões do nordeste na época que trabalhava na Unicef. Ele também fomentou campanha do soro caseiro e negociou a aprovação do Estatuto da Criança, na década de 1980, trabalho que contribuiu para reduzir a mortalidade infantil no Brasil.

Em nossos encontros, Agop sempre reiterou que eu precisava falar para os jovens nas palestras de carreira que eles  “não tenham medo de errar, para aprender é preciso entender que errar faz parte do processo, só tentando, superando os erros é que aprendemos”. Também lembro nos intervalos de almoço, ele me falando sobre a sua aprendizagem do Face, do computador e de outras coisas desse universo tecnológico. Essas experiências me remetem à frase de Cícero: “a busca por algo novo encanta a vida, seja do jovem, seja do idoso. Essa abertura receptiva faz da velhice um magistério simpático para a juventude, ainda mais quando ela percebe que também o velho está aprendendo”. As nossas conversas mobilizavam dentro de mim uma esperança sobre a possibilidade de ressignificar e transformar o mundo.

Lembrei do grupo de idosas que frequentam o Sesc Socorro, em Sergipe. A cena delas dançando quadrilha na orla da linda praia de Atalaia é a que coisa mais linda! E o trabalho do grupo de Capoeira Mangaliza que desenvolve um projeto com pessoas da terceira idade. Nos encontros em que pude acompanhá-las, percebi que a energia dessas mulheres me inspira a pensar que apesar das mudanças que fazem parte do envelhecimento que implicam em mudanças significativas no corpo, elas percebem as necessárias adaptações, e como Cícero propõe: “o que importa é usar as próprias forças com parcimônia e desenvolver o esforço dentro dos próprios limites. Quem por isso opta, nunca exagera”. Neste grupo, cada uma tinha um ritmo, todas se respeitavam e criavam conforme as suas possibilidades. Elas me ensinaram que é possível lidar com esta etapa de uma forma diferente.

Por fim, reitero que encontrar formas possíveis de viver esta nova etapa é um desafio singular de cada um que se encontra nela, e que me preocupa o discurso que esta é a melhor idade, pois, ela pode ser para alguns e não para outros, o que não quer dizer que não seja possível encontrar formas de viver as diversas etapas da vida com momentos de prazer e de sofrimento.

Escrito por Michele Gouveia é Psicanalista, Psicóloga Clínica e Consultora de Carreira, mestre em Psicologia Social e Especialista Clínica em Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP.

Referências:

BOSI, E. (2003/2018) O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. In: O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. Ateliê Editorial.

CÍCERO, M.T. (2013). Saber envelhecer: Seguido de A amizade; tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM.

GANDRA, A (2021). Aumentam os casos de violência contra pessoas idosas. Disponível em : https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2021-06/aumentam-casos-de-violencia-contra-pessoas-idosas-no-brasil. Acesso em: 03 out.2021.

GREGORIO, R. (2019). Com alta de 547%, a profissão de cuidador é a que mais cresce no país. Disponível em: https://valorinveste.globo.com/produtos/previdencia-privada/noticia/2019/06/25/com-alta-de-547percent-cuidador-de-idoso-e-a-profissao-que-mais-cresce-no-pais.ghtml. Acessado em 03 de out.2021










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