O que não tem remédio remediado está O que não tem remédio remediado está - O Vale do Ribeira

Técnico Informatica

Técnico Informática Registro

O que não tem remédio remediado está

Remédio pra dormir, remédio pra acordar, remédio pra sorrir. Seria a existência uma doença, com tantos sintomas a serem combatidos?

O que não tem remédio remediado está


A área de Psicofarmacologia sempre chamou a minha atenção. Quando criança, eu acompanhava as consultas da minha avó no antigo Ambulatório de Saúde Mental, consultas essas com periodicidade bimestral ou trimestral. A consulta era sempre igual: "boa tarde, sra Tieko, como a senhora está?". A essa pergunta seguia-se o relato da minha avó: dores de cabeça, tremores. "Uhum, uhum". E saíamos dali com uma receita em direção à farmácia: haldol, akineton, fenergan. E assim seguimos durante anos.


No primeiro ano de graduação em Psicologia tivemos a disciplina de Psicofarmacologia. Recordo-me apenas do trabalho apresentado pelo meu grupo: ayahuasca e seus efeitos. O conhecimento ofertado por apenas essa disciplina não me era suficiente. Busquei então outras fontes, e na psiquiatria conheci a doença, a medicação e a indústria farmacêutica. Participei de cursos ofertados pelas ligas de Saúde Mental da USP e da UNIFESP, e aprendi os nomes dos sintomas e as medicações mais utilizadas.


Muitas vezes, as escolhas acadêmicas e profissionais que fazemos estão relacionadas a conflitos individuais e familiares com os quais lidamos. Acompanhar, ano após ano, a consulta da minha avó, angustiava-me: será que realmente não haveria outra terapêutica? Uma vez adquirido o conhecimento sobre a medicação, senti-me em condições de dialogar com o profissional que medicava a minha avó, e sugeri o uso de um antipsicótico de segunda geração cujas pesquisas indicavam menor manifestação de efeitos colaterais extrapiramidais. Fiquei muito feliz quando tive, por escrito, a resposta da concordância. Infelizmente minha avó faleceu antes que pudéssemos realizar a troca da medicação, por falência renal causada pela diabetes melittus.


Hoje, mesmo enquanto psicóloga escolar, o conhecimento sobre a medicação continua sendo convocado: discussão já em voga mesmo antes da pandemia, nos últimos dois anos tem sido crescente o índice de estudantes medicalizados por conta de sintomas depressivos e ansiosos desenvolvidos neste período. A ausência do contato, o ensino remoto, a morte que ronda à espreita, e a falta do ambiente que desempenha o papel fundamental de acolhimento, interação e desenvolvimento: a escola. Antidepressivos, anfetaminas, ansiolíticos e antipsicóticos têm sido receitados para estudantes como forma de mantê-los motivados e em equilíbrio nesse momento caótico. Os impactos desse período ainda nos são desconhecidos, e cabe à ciência acompanha-los. 


Enquanto psicóloga, o conhecimento acerca das principais medicações auxilia não só na compreensão de seus efeitos sobre o comportamento, mas também possibilita o diálogo com o profissional que prescreve a medicação, diálogo esse que pode contribuir para a saúde e para uma visão holística daquele que está sendo medicado.


Tenho escutado muitas pessoas dizerem que elas têm tomado "remédios para dormir" ou que precisam ir no médico para tomar "remédio pra diminuir a ansiedade". Quando a patente do Prozac expirou, em 2001, o remédio já havia sido prescrito para 40 milhões de pessoas no mundo. Em 2018, os brasileiros compraram mais de 56,6 milhões de caixas de medicamentos para ansiedade e para dormir — cerca de 6.471 caixas vendidas por hora ou, aproximadamente, 1,4 bilhão de comprimidos em um ano. Em 2020, Rivotril e Zolpidem encabeçaram as vendas, pois tem sido uma tarefa impossível manter a calma, trabalhar e dormir na pandemia. A vida urge, os problemas acumulam-se e o corpo (não) responde ao que lhe é exigido.


Nesta coluna de hoje, não há a pretensão de um julgamento moral ou de valores quanto ao uso de medicações. Os antipsicóticos, por exemplo, possibilitaram o tratamento de sintomas que, antes, excluíram pessoas como a minha avó da sociedade, em internações perpétuas em hospitais isolados. A medicação possibilitou sua permanência no convívio familiar. Mas não sejamos ingênuos: a indústria farmacêutica seduz com sua promessa de ausência de sintomas. Por isso, o conhecimento se faz necessário, pois apenas ele permite a crítica, o diálogo e a autonomia.


Carla Cristina Kawanami, CRP 06/96109, é psicóloga escolar do Instituto Federal São Paulo (IFSP) campus Registro, graduada pela USP e Mestre em Educação: Psicologia da Educação pela PUC SP.

Contato:

Email: carla.kawanami@gmail.com
Facebook: Carla Kawanami
Instagram: @carlakawanami

(Direitos Reservados. A Autora autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

Postar um comentário

0 Comentários