As pequenas coisas ou grandes sentidos As pequenas coisas ou grandes sentidos - O Vale do Ribeira

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As pequenas coisas ou grandes sentidos

Sabe aquele café com leite e pão quentinho com manteiga? Pois é, somente esses itens não são mais dignos de serem suficientes. Passou a ser muito mais exigente e com extravagâncias o nosso momento do cafezinho.

As pequenas coisas ou grandes sentidos

O canto dos pássaros, uma roseira colorida, o pôr do sol. A margem de um rio, o voo de uma borboleta, a colmeia das abelhas. O som da chuva ou um dia ensolarado no inverno. Outras possibilidades de viver o cotidiano que talvez deixamos passar – sentar na área de casa, nas famosas cadeiras de área e olhar as pessoas passarem pela rua, receber a visita de amigos, de pessoas queridas e vivenciar o prazer da conversa – por simplesmente não conseguirmos se atentar como ‘desejaríamos’.

Àquele que tem na solitude o seu maior tesouro, comer um pedaço de bolo sozinho na companhia de um bom livro ou da televisão também pode ser um prazer incomensurável.

Dia desses uma pessoa me contou como foi ficar internada por mais de uma semana em um hospital por conta de uma cirurgia para retirada de pedras no rim. A preocupação foi bem maior porque houve inflamações que tiveram que ser contidas com medicamentos fortes.

Entre outras dificuldades, uma me chamou muito a atenção: minha narradora disse que durante sua hospitalização pensou como sua vida com todas as rotinas e repetições ainda assim poderia ser contada como uma bela história. Ela havia se dado conta de que seu café da manhã era bastante prazeroso, principalmente por poder comer sem restrições. Seu dia com atividades como regar suas plantas, fazer o almoço, assistir a um programa na televisão, conversar com os familiares, buscar pão na padaria, mercado, banco, igreja passaram a ser desejados como nunca.

Esse efeito causado pela hospitalização – restrições alimentares, de locomoção, do seu ambiente caseiro, da convivência com familiares e pessoas próximas – foram capazes de produzir algo como a valoração das suas atividades diárias que até então não lhe traziam nenhuma alegria consciente.

Por esse pequeno exemplo podemos refletir que deixamos passar momentos interessantes seguidamente por pensarmos que poderíamos estar vivenciando outros. A nossa vida, o nosso cotidiano, as nossas experiências são aquilo que nos ocorrem. Talvez por esperarmos outra vida, outras experiências, fracassamos em viver o dia a dia com a intensidade que merecia.

Muitas vezes vemos essa valorização da intensidade na vida de pessoas que tem mais idade. Por estarem mais próximos da finitude essas pessoas têm a condição de, aparentemente, viver cada momento como se de fato fosse único. Mas não só nessa idade. As crianças também nos demonstram que vivem de forma bastante intensa. A hora do jogo, do desenho, da brincadeira pode ser o único momento que realmente interessa. Enquanto estão compenetradas a atenção e a seriedade estão profundamente voltadas para a atividade que estão desempenhando.

Talvez seja no início da vida ou na aproximação do seu fim que o ser humano não se iluda tanto com os diversos sentidos da vida e se fixe em apenas o único possível, aquele do momento presente.

Ou seja, na maior parte dela nos perdemos em sentidos variados e não conseguimos ficar naquele do momento atual. Muitos sentidos seria então algo a nos fazer se perder diante de inúmeras possibilidades. Viver uma vida intensa seria então conseguir se fixar em um único sentido?

Deixo como possibilidade de resposta a sugestão do filme “Peixe grande e suas histórias maravilhosas”, de Tim Burton (2003).

Daniel Vicente da Silva - Psicanalista, Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região - NEPS-R. Psicólogo Especialista em Psicologia Clínica e Saúde Mental –atuação no SUS e Professor universitário.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com


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