Inquietações e dúvidas sobre o suicídio Inquietações e dúvidas sobre o suicídio - O Vale do Ribeira

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Inquietações e dúvidas sobre o suicídio

 Viver é bem possível que seja sem sentido algum, ‘a priori’. É preciso criar sentidos, dar um ordenamento ao caos que nos apresenta diante da vida.

Inquietações e dúvidas sobre o suicídio


Ainda sobre o tema do “Setembro Amarelo” – o dia 10 desse mês é, oficialmente, o Dia Mundial de prevenção ao suicídio – que foi escrito pela psicanalista Michele Gouveia na última coluna; quando pensamos em escrever ou falar sobre esse assunto, percebemos que surgem mais dúvidas e inquietações do que respostas. A possibilidade de formalizar talvez traga novas reflexões diante desse tema tão complexo. 

Um exemplo que trago como ‘pontapé’ inicial é sobre um fenômeno bastante interessante que diz que os maiores índices de suicídio estão entre os países que apresentam, na população,  graus mais elevados de desenvolvimento intelectual, alta taxa de escolaridade, boa capacidade de garantir segurança pública a seu povo e maior justeza na distribuição da renda. Uma resposta plausível que os estudos reconhecem diante dessa constatação estatística é que talvez a solidão e o isolamento proporcionado pelo ritmo de vida nesses países altamente competitivos seria uma resposta possível, segundo sugerem essas pesquisas, fazendo com que a marca no desenvolvimento do individualismo seja o preço a pagar por alguns sujeitos associados à causa do suicídio. 

Para o sociólogo francês Durkheim (1858 – 1917), a noção de integração social seria a possibilidade de viver de maneira coletiva podendo se defender dos conflitos subjetivos, partilhando de forma comunitária e resolvendo questões que não se daria conta ao individualizá-las. Ao contrário dos países descritos acima, dividir com o grupo nossas angústias e medos possa ser uma saída para o tipo de fantasia fóbica que gerariam os pensamentos suicidas. 

Outro exemplo ao problema da marca do individualismo que levaria à propensão ao suicídio: os números de tentativa ou consumação de atos suicidas são maiores em determinada época do ano. Na primavera – e não no inverno como poderíamos imaginar – o número tende a aumentar consideravelmente. A justificativa segundo estudos é de que nessa época, por conta das pessoas saírem mais, com a possibilidade de um retorno social após os dias de frio e o aumento da vida em coletividade, àqueles que estão à margem de pertencerem a grupos sociais ficariam mais propensos à vida individual. Mais uma vez a solidão e o isolamento surgindo como marcadores importantes na reflexão sobre o fenômeno do suicídio. 

Falar sobre um ato suicida é de grande tabu em nossa sociedade. A cada funeral de uma pessoa morta por suicídio percebemos que as pessoas que frequentam parecem receber um roteiro de como falar sobre aquela morte. É como se nesse roteiro nos pedissem para reproduzir as seguintes frases: “Ele deixou pistas”; “Eu sempre percebi algo de estranho”; “Como pode ter tido coragem?”. Ou numa falácia contaminada de preconceitos dizemos que “era questão de tempo para que isso ocorresse”. Quando não, tentam encontrar justificativas e culpabilizações que dessem conta de resumir a complexidade do fenômeno em uma única conclusão. Talvez esses comentários revelem mais sobre quem fala do que sobre o suicida.

Num ato suicida, várias perspectivas são solicitadas: subjetiva, sociológica, filosófica, cultural, política, religiosa, antropológica, todas somadas para dar conta de explicar algo que passa de tão estranho e ao mesmo tempo bastante familiar. 

O estranho, segundo Sigmund Freud (1856 – 1939) é a categoria do assustador que me faz lembrar o conhecido em mim. Em outras palavras, adaptando ao nosso tema, o suicídio é tão familiarmente estranho que qualquer ser humano já deve ter pensado nele. Seja de relance, num momento em que aparece aquela vontade de “jogar a toalha”, de que não vai dar mais para continuar sem aquela pessoa querida. Num flash aquilo se passou em mim e logo se desfez. Talvez diante desse estranho/familiar eu possa me dar conta de que em mim inclua uma centelha assustadora que se aloja e desaloja, que surja como dois corpos contrários num segundo de milésimo. 

De qualquer forma, temos um desafio importante enquanto sociedade. Diria que se trata de um dever ético: a escuta diante de um sofrimento que me é estranho e ao mesmo tempo familiar e que eu possa ter dificuldade quando sou escolhido para essa função. Diante da ausência de sentido as ideias de morte podem ocorrer, levando a casos mais graves como as ideações suicidas. 

Muitas vezes podemos evitar uma passagem ao ato nos dispondo a escutar àquele que sofre, evitando dizer algumas frases que impedem ou atrapalham que ele fale mais sobre aquela ideia. Mesmo sabendo que quando se trata de comportamento humano somos incapazes de prever algo, falar para a pessoa que nos pede ajuda de que ela “não deveria falar mais sobre isso”, ou buscar lógicas prontas de autoajuda (como se a pessoa já não tivesse vasculhado por conta própria a procura de receitas de felicidade) só facilita a repressão desses conteúdos e a consumação de um ato suicida. 

O sofrimento pode se tornar suportável se a pessoa puder contar com a ajuda de um outro ser humano. 

Obs: 188 é o número do CVV – Centro de Valorização da Vida que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio. Atendimento é realizado 24h todos os dias. 

Bibliografia

DURKHEIM, E. O Suicídio Um Estudo Sociológico. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1982.

FREUD, S. (1919/2006). "O Estranho". In: Uma neurose infantil e outros trabalhos (1917-1918/2006). Rio de Janeiro: Imago, v. XVII.

PINHEIRO, C. Suicídio: Perspectivas Psicanalíticas e Antropológicas.

Daniel Vicente da Silva

Psicólogo e Psicanalista, Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região - NEPS-R.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com


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