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O despertar da adolescência na pandemia

Os adolescentes, assim como todos, tiveram que se adaptar a este momento em que estamos isolados fisicamente, lidando com o medo de contrair a Covid-19, com as mudanças e perdas decorrente da pandemia e com as questões que atravessam a própria vida e as incertezas de como ficará a dinâmica social quando a pandemia for controlada, em especial, a respeito das mudanças realizadas que poderão ser incorporadas, ou mesmo readaptadas.

O despertar da adolescência na pandemia


Em um único encontro virtual com alunos do ensino médio de uma turma pertencente à região do Vale do Ribeira, refletimos sobre os encontros e desencontros com novos prazeres durante a pandemia. No que tange ao desencontro, penso na dificuldade de criar algo que substituísse atividades prazerosas como o jogo de futebol, ou seja, a dificuldade de substituir as atividades esportivas que davam prazer, por outras mais possíveis para o atual momento. Em situações como esta é preciso entender que o que está por trás desta atividade não é só um esporte, mas é um esporte de diversão com os amigos. No que tange ao adolescente, é importante o esforço de manter a mente aberta para buscar compreender com ele (esta questão tem aparecido com adultos, crianças) como pode se dar a consideração por outras opções; também é importante avaliar se tem algo que pode estar dificultando o movimento de buscar novas opções.
Sobre o encontro com o prazer, foi possível, após várias tentativas, encontrar algo que possa ser prazeroso. Nas respostas, surgiram cursos: aprender a cozinhar, cantar etc. Quando o que vinha dando prazer deixa de satisfazer, o que resta é mudar rumo para novas experiências, sejam novos canais, séries, encontros virtuais ou mesmo certos esportes possíveis. O campo é vasto, mas também é novo, logo demanda muitas adaptações.

Esse grupo de alunos elaborou um vídeo da disciplina, no qual alguns alunos revelaram sua arte musical para nos alertar da importância de cuidar do outro ou da empática atuação sobre como ficou diferente o comportamento das pessoas no início da pandemia. Lembrei de muita coisa que vivi, e pude fazer isso de forma mais leve pelo vídeo bem-humorado da aluna, que nos convidava a rir de nós mesmos, permitindo olharmos para momentos iniciais da pandemia sob um novo ângulo.

Esse encontro me fez pensar sobre como tem sido vivenciar esta etapa da adolescência na pandemia, e tenho percebido que as formas de explorar novas experiências permaneceram, sejam com os livros, com as pesquisas na internet ou no encontro virtual, de forma mais restrita do que antes, mas sendo de alguma forma possível, escuto novas descobertas de jogos, canais e coisas que lhes despertam interesse.

E como se sabe, na vida nem tudo são flores, e a adolescência florida em nossa sociedade como sendo uma das melhores fases, tal como as narrativas feitas por adultos que vivem a nostalgia do que viveram ou que não viveram, parece falar sem refletir sobre como foi a sua adolescência nos pormenores, nas suas dificuldades e conquistas, ou seja, ao olhar para a nossa adolescência com uma lupa histórica, é inevitável observar que de alguma forma, talvez por pouco tempo, ou de forma menos intensa, todos acabam passando por terras repletas de pedras e sem flores.

Passar pela adolescência neste momento de pandemia da Covid-19 implica em mais coragem e esforço para crescer e aprender a andar em um caminho novo, sob muitos aspectos, como o fato de ser algo novo para todos nós, ou seja, o adulto já não pode se iludir com certezas de que sabe onde o caminho vai dar. Diante disso surge a possibilidades de transformação, na qual a abertura para novas experiências e questionamentos é fundamental.

É claro que saber como as pessoas sobreviveram às guerras e às pestes nos ajuda a pensar como pisar neste solo, e isto é muito importante, pois nos dá uma base para direcionar os passos, afinal, algo sempre permanece. É importante refletir também sobre outro ângulo, pois não podemos ser ingênuos em pensar que tudo voltará a ser como antes, assim, o que nos resta é incorporar os aprendizados de nossas experiências.

Lembrei de uma frase do psicanalista e pediatra Winnicott (1993), de que “a adolescência é uma fase de descoberta pessoal. Cada indivíduo vê-se engajado numa experiência viva, num problema do existir”. Esse problema se refere à construção de sua própria narrativa, à construção de sua identidade, à singularidade de seus traços que nunca vão corresponder ao que é estabelecido pela família ou sociedade, mas pelo próprio sujeito que vai crescendo e se descobrindo, no que gosta, no que não gosta e no que desejar descobrir e experimentar, consigo mesmo e com os outros.

O despertar da adolescência é marcado por um dar-se conta da construção da imagem de si, que implica em perguntas como: quem eu sou? O que quero fazer na minha vida?

Para que o adolescente forme a sua imagem de si é preciso tempo para passar por esse processo de crescimento que o levará à vida adulta, por isso, é um trabalho psiquíco marcado por muitas emoções e sentimentos que o adolescente precisará aprender a nomear e a expressar de sua forma para conseguir compreender a si.

Para isso, os adolescentes terão que passar pelo luto do corpo infantil, e lidar com as mudanças referente ao seu crescimento; perceberão que os pais da infância não são os mesmos, pois passam a compreender e questionar coisas que antes não percebiam, interesses, ideologias e perspectivas diferentes. Passam a desenvolver sua autonomia, e percebem que não podem ser tudo que achavam que podiam na infância.

O vídeo com mensagens voltadas para a conscientização das pessoas sobre os cuidados que precisamos manter durante a pandemia, produzido pela turma do ensino médio que conheci, me fez pensar em um trecho que aborda os diversos destinos que o despertar da adolescência possibilita, e que “estes destinos podem ser capazes de reinventar o mundo”, conforme Rosa & Carmo-Huerta (2020).

Michele Gouveia é Psicanalista, Psicóloga Clínica e Consultora de Carreira, com mestrado em Psicologia Social e Especialização Clínica em Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP.

E-mail: michelegouveia.psi@gmail.com

(Direitos Reservados. A Autora autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

Referências:

Rosa & Carmo-Huerta (2020). O que resta da adolescência: o despertar nas fronteiras e nos fronts”.

Winnicot,D.W (1993). A familia e o desenvolvimento individual.

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