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Brincando com as palavras

 Uma palavra que se impôs: quinhão.

BRINCANDO COM AS PALAVRAS


Fez-me lembrar da letra da música “Cara Estranho”, da banda “Los Hermanos” que diz mais ou menos assim – “Faz parte desse jogo, dizer ao mundo todo, que só conhece o seu quinhão ruim.” (Los Hermanos, 2003). Deixando o pensamento livre, sobre o que essa palavra “quinhão” nos faz pensar?

A princípio associo com guerra, algo bélico como a relação de sonoridade entre ‘quinhão – canhão’. No seu significado a palavra traz algo de “destino, fardo”. Não deixa de ser uma verdade vincular essa palavra com algo bastante conflituoso já que passamos a vida inteira tentando nos desvirtuar de nosso ‘destino’. Não há destino tão funesto para um sujeito quando é apenas aquele caminho que insiste em sua vida, sem estar presente seu desejo; um destino que nos abraça como um carrapato e nos paralisa diante da vida. Não deixa de ser uma guerra interna que a pessoa trava contra seu ‘fardo’ particular.

As letras, assim como as palavras e frases são significantes que nos fazem circular no mundo. Com eles realizamos nossos desejos, mas também nos boicotamos e atrapalhamos os desejos dos outros. Jacques Lacan (1901 – 1981) um grande psicanalista francês dizia que a mãe (ou função materna) seria o lugar do “tesouro dos significantes” que representaria e apresentaria para o bebê algo como um ‘labirinto de possibilidades enigmáticas’. Esse gesto de apresentar o mundo para a criança (não só pela mãe) é de grande importância para constituição subjetiva dela. É daí que surge o nosso ‘fardo ou destino’, uma espécie de carta endereçada por outros que assumimos como nossa.

“Quinhão” também me faz pensar na seriedade. Se há uma coisa que contemplamos como um exemplo de atividade séria é a brincadeira das crianças. Para elas brincar é uma atividade eminentemente séria. Melanie Klein (1882 – 1960) que foi uma das primeiras terapeutas infantil dizia que a brincadeira vinha para tentar aplacar a angústia. Logo, era uma forma de defesa em transformar a angústia em prazer.

Bem, até aqui podemos dizer que a palavra “quinhão” nos levou à seguinte formulação: “uma luta contra um destino (a carta endereçada que não foi enviada por mim, mas que não tem outro jeito, só me resta assumir como minha) que deve ser encarado com muita seriedade.” A angústia é um afeto que nos atravessa em todos os momentos de nossas vidas. Esse afeto talvez nos sinalize que estamos pegando a ‘estrada’ alternativa do nosso desejo, o caminho que nos afasta dele. A sensação de sempre estar errado na vida talvez possa ser o sinal de que algo ‘vai bem’, a aproximação do desejo e o distanciamento do ‘fardo’.

A questão é que cada sujeito acha uma solução de acordo com suas possibilidades. O “Cara estranho” da letra da música se resolveu assim: “É simples desse jeito, quando se encolhe o peito, e finge não haver competição. É a solução de quem não quer perder aquilo que já tem, e fecha a mão pro que há de vir” (Los Hermanos, 2003). Ele não teve ‘coragem’ para driblar o seu destino. Encolheu o peito e se fechou para outras/novas possibilidades.

Talvez possamos pensar que cada um se resolve como pode com o seu destino; que dará para essa carta um endereçamento que conseguir alcançar e suportar. De qualquer forma, o “quinhão” de cada um, ou como podemos dizer ‘os acontecimentos que influem de um modo particular’ a cada indivíduo traz uma luta interna que é travada por todos com muita seriedade e independe do destinatário.

Daniel Vicente da Silva

Psicólogo e Psicanalista, Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região - NEPS-R.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com

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