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Adoção Os efeitos do desmentido na criança e o direito de saber sua história

No texto da coluna Cotidiano Psi de hoje a colunista e psicóloga Michele Gouveia explana sobre como o "não falar sobre a adoção" pode refletir na vida da criança. 

 Adoção Os efeitos do desmentido na criança e o direito de saber sua história


Na clínica psicanalítica, os sintomas traumáticos das crianças e dos adolescentes, quando não relacionados a quadros orgânicos genéticos, mas ligados, por exemplo, à perda de uma pessoa querida, ou a outros fatores externos como o bullying, podem ser uma resposta inconsciente às tensões vivenciadas no núcleo familiar. Esses conflitos familiares são muitas vezes negados ou até silenciados na ilusória tentativa de proteger a criança, porém, acabam sendo transmitidos no tom de voz, nas irritações, na ausência de conversa, nos temas que não podem ser falados porque a criança sabe que ouvirá do adulto algo que evidenciará o seu desconforto e a sua indisponibilidade para falar.

A história da criança que lhe é negada, mas, ao mesmo tempo, que se deixa escapar nos segredos de família, busca o seu espaço na clínica, porém, não encontra refúgio, mas sim a oportunidade de um desfecho. Não é raro ouvir estes “segredos” sendo narrados na presença da criança, de forma indireta, nas entrelinhas do cotidiano. Penso que alguns dos leitores já observaram algo assim, por exemplo, quando um dos pais fala na mesma sala em que está a criança: “ela ainda não sabe quem é o pai, mas todos da família já sabem, temos medo que ela descubra, porque não é uma pessoa legal, sabe como é... ela ainda não entende essas coisas”. Neste momento, é imprescindível construir junto aos responsáveis o entendimento de que é importante que essa verdade precisa ser transmitida de forma organizada. Não podemos menosprezar a capacidade de entendimento da criança, afinal, tudo o que ela escuta de alguma forma será processado. A criança tem o direito que conhecer a sua própria história. Nestes casos, os pais são orientados e apoiados a encontrar uma forma de transmitir essa parte da história, adequada à idade da criança.

Uma vez atendi uma mãe** de três crianças, que sofria, pois, não encontrava uma saída para o fato dela e do companheiro, praticamente, não terem momentos de intimidade. Até que um dia ela escutou a sua filha falando para o irmão: “você não vê que os nossos pais não se beijam!”. Naquele instante, a paciente começou a pensar sobre o modelo de “relacionamento conjugal” que estava transmitindo nas entrelinhas para os filhos, uma relação sem toque, sem intimidade. Sobre isso, trabalhamos os efeitos da transmissão de uma relação amorosa insatisfeita, já que para ela a relação íntima era importante.

Aos poucos, a paciente contou que a sua filha, em seu próprio processo de psicoterapia, demonstrou uma ansiedade relacionada ao medo da separação dos pais, e assim, o conflito ganhou expressão nas fantasias ainda incompreendidas da menina. Neste caso, não significa dizer algo que ainda não está formulado para a mãe, mas em reconhecer a preocupação da criança.  Não se trata de falar que há o desejo de se separar, se esse desejo ainda não foi formulado pela paciente, mas de reconhecer que, às vezes, como casal, os pais divergem, porém, independentemente disso, sempre vão encontrar um jeito comum de cuidar dos filhos. Está aí uma grande verdade na história desse casal de pais. Trata-se de buscar novos elementos que ajudem a criança a reconhecer o conflito: “nós temos divergências, que se refere a coisas de casais que estamos resolvendo, que faz parte das relações”. Esse processo ajuda a criança a dar contorno para o que sente, entretanto, dificilmente conseguirá nomear o que sente se os pais permanecerem a negar o fato percebido pela criança.

O direito de conhecer a nossa origem é algo que nos constitui, ou seja, é fundamental para a elaboração de nossa história. Quando os pais sabem algo que é importante sobre a criança e não lhe transmite, por exemplo, como foi seu nascimento? como foi o seu processo de adoção? Este tipo de silêncio pode provocar na criança uma experiência de um “viver como se não soubesse da adoção”, pois ela nega falar sobre isso, evita contar e saber de seu nascimento, um tema que geralmente as crianças apresentam grande interesse em vários momentos da vida.

Um dos efeitos de não falar sobre a adoção, segundo Rosa (2000), “pode ser o seguinte: a criança passa a viver em um mundo do ‘faz de conta’, proposto pelos pais. Neste mundo ela é levada a negar a consciência de si e a sua história, o que propicia a desagregação do Eu, ou seja, a abolição da subjetividade. A criança fica à mercê dos pais, de terem tido um filho, de serem bons pais. O que não pode ser dito pode acabar impossibilitando as condições de se criar uma verdade, de construir uma história, pois o silêncio promove a desconsideração de um vivido, dos traços, das marcas, do real de sua existência, substituindo-os por uma fantasia” (p.111).

A criança fica inibida no processo de elaboração de sua história real, e fica produzindo fantasias infinitas para tentar explicar como veio parar neste mundo, como foi seu nascimento. Entende-se que é importante contar de uma forma que a criança possa aos poucos aceitar, se permitindo perguntar, criando uma situação na qual a criança tem, realmente, um espaço de diálogo no qual não sente receio e sabe que isto é importante e que os pais estão dispostos a falar sempre que houver a necessidade: “aí, quando você chegou na minha vida eu mudei tudo porque queria te curtir ao máximo, depois tive que ir, como todo pai, adequando a rotina da vida”.

No dia 25 de maio é comemorado o dia da adoção. Atualmente, no país, este processo envolve um tempo para que os pais possam se preparar para receber seus filhos, é gestar não na barriga, mas no desejo, primeiro entender o que realmente é para então assumir, como bem coloca o psicanalista Lacan, a função paterna e materna.

Lacan, em seus ensinamentos, deixou muito claro que nem sempre o pai e mãe biológicos são os que vão assumir a função paterna, de lhe transmitir a lei, de fazer a criança ter a capacidade de simbolizar. Em muitos casos os pais biológicos exercem a função paterna e materna, mas isso não é a regra. Um exemplo disso aparece nos casos em que o pai desaparece, e o responsável pela função materna (que faz toda maternagem, que busca entender todas as necessidades da criança, fome, frio etc.) acaba tendo o apoio dos familiares, às vezes, um tio ou uma tia, em todo o caso, são aqueles que ajudam a mãe a colocar limites na relação com a criança. Vale destacar que para que isso ocorra, também é importante que a mãe (biológica ou não) assuma a função materna, e que aos poucos, ela permita a criança perceber que ela não é o único desejo de sua vida, ela ama a criança, a criança está sem seu desejo, mas, também existem outros que a fazem sair de perto em alguns momentos, seja o trabalho, o namorado ou namorada, sejam coisas que fazem com que ela não fique presa na única satisfação que a criança lhe oferece. Isso é fundamental para que a criança possa aos poucos lidar com as idas e vindas da mãe, e neste processo aprender a simbolizar, fantasiar e experimentar outras formas de relação com os objetos e com as pessoas ao seu redor.

Escrito por Michele Gouveia é Psicanalista, Psicóloga Clínica e Consultora de Carreira, mestre em Psicologia Social e Especialista Clínica em Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP. E-mail: michelegouveia.psi@gmail.com

ROSA, Miriam Debieux. Histórias que não se contam: o não-dito e a psicanálise com crianças e adolescentes. Cabral Editora Universitária, 2000.

*A vinheta do caso sofreu adaptações a fim de preservar a identidade da paciente.

(Direitos Reservados. A Autora autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

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