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Henry Ketelen e Anna Bela deveriam estar brincando

Uma importante reflexão sobre a necessidade de respeitar e proteger a infância. 

Henry Ketelen e Anna Bela deveriam estar brincando


Assim como uma dissonância produz efeitos traumáticos na harmonia da música a violência contra crianças e adolescentes produz um desequilíbrio na nossa ‘canção’ enquanto comunidade.

Essa semana uma amiga me sugeriu para que eu escrevesse uma coluna sobre o dia 18 de maio – Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A princípio pensei em escrever sobre o quanto necessitamos da palavra para tentar remontar nossas cenas cotidianas (essa coluna fica para uma próxima vez). Aceitei a sugestão. Mesmo assim meu texto não deixa de ser uma procura por palavras pra afirmar o quanto estamos falhando na proteção da infância.

Fui reler o livro do historiador Philippe Ariès (1978) – História social da criança e da família (1981) - e me dei conta de duas questões: como nossa sociedade produziu e produz violência contra a infância e como continuamos negligentes diante dos pedidos de ajuda que as crianças nos demandam.

“Casos de polícia, espancamentos, muita força, jogado ao chão, agressão, abuso sexual, ficou acorrentado, estava chorando demais, fez xixi na cama, queria colo e me irritou, dizia estar com fome, queria lavar louça como a mãe, não suportou e veio a óbito”. Todas essas frases foram retiradas de artigos de jornais publicados esse ano no Brasil, a respeito de crianças mortas por seus pais ou responsáveis. A propósito, o respeito pela infância passa longe em nossa comunidade vide a falta de recursos direcionados para educação em nosso país.

Seguimos no desatino de proteger nossas crianças. Como sugeriu Ariès, nas sociedades medievais (sec. X a XV) o “primeiro sentimento da infância” fez com que o medo de perdê-las forjasse mudança na maneira de trata-las. Desde então tentamos, com muitas falhas, - no século XV era comum entregar as crianças às famílias estranhas para fazê-las servidoras domésticas e no fim do século XVII o tutor foi substituído pela escola – encontrar uma melhor forma de protegê-las.

No mundo das narrativas dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm (1812, esses contos nunca foram feitos para crianças, na verdade eram coleções de historias para adultos) a violência contra criança é descrita como algo inevitável. Tenho a sensação de que precisamos reler essas historias para que de alguma forma o susto e o terror nelas contidas nos passem a sensação de que são maiores do que a realidade existente (o que me parece pouco provável).

Por quase 15 anos atendi crianças em situação de violência. Sempre acreditei que uma família tem particularidades ao se comunicar, e que muitas vezes essa comunicação se torna muito agressiva e que por isso seríamos capazes de construir, junto com ela outras formas de comunicação que não mais àquela violenta. Alguns casos foram possíveis. Esses dias, por acaso me reencontrei com uma dessas pessoas atendidas por mim (na época, uma criança que havia sofrido intensamente violência física e sexual cometida por um de seus pais). Ela me contava todo o seu trajeto até chegar os dias de hoje. Entre o relato uma parte me interessou sobremaneira – ela estava numa unidade de saúde preocupada em saber por que sua filha de colo não havia passado bem a noite anterior, tinha se recusado a mamar e estava muito chorosa. A preocupação demonstrava algo de uma sensibilidade verdadeira. Interrompia nosso dialogo constantemente para olhar para a filha que estava no colo da mãe e confessar com esse gesto sua aflição. Algo nesse momento me fez avaliar que valeu a pena um “investimento” no cuidado desse garoto, que hoje pôde compartilhar o que vivenciou lá atrás, nos seus atendimentos, cuidando de sua filha. Logo mais fiquei sabendo que a filha sofria de uma otite (possível inflamação no ouvido).

Mais uma vez, dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Pediatria mostra que entre 2010 e 2020, pelo menos 103.149 crianças e adolescentes com idade até 19 anos morreram no Brasil, vitimas de ato violento. Dessas, 2 mil tinham menos de 4 anos. Esses números também sinalizam que não estamos conseguindo (enquanto sociedade) escutar quando elas nos suplicam socorro.

Enfim, como sugestão de uma possível saída penso em uma cena do livro “Torto arado” (Todavia, 2019). Bibiana e Belonísia são gêmeas e diante das contingências aprenderam a cuidar uma da outra. Em uma das cenas as irmãs quando crianças encontraram uma faca enrolada num pedaço de pano com sangue seco. Ambas colocam na boca a lâmina afiada. Uma delas (Bibiana) corta um pedaço de sua língua e perde a fala para sempre. Agora uma teria que falar pela outra. Belonísia percebendo que a irmã nunca mais poderá se expressar verbalmente passa a ser sua “tradutora” para as outras pessoas. A metáfora é boa para nossa reflexão. Muitas vezes precisamos falar (pedir socorro) por aqueles que não conseguem ser acolhidos em seus pedidos de ajuda.

Obs: Escrevi todo esse artigo numa sentada só tamanha a comoção que senti ao ver as fotografias das crianças que foram mortas na creche em Saudades, SC.

Obs II: O título dessa coluna são nomes de crianças que foram mortas, vitimas de agressões cometidas por adultos nos últimos meses no Brasil.

Daniel Vicente da Silva - Psicanalista, Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região - NEPS-R.

E-mail: danielvicente_@hotmail.com

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