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NEM SEMPRE CONSEGUIMOS VIVER CADA MOMENTO COMO SE FOSSE ÚNICO

Duas coisas realmente me marcaram na minha infância: minha avó muito velhinha tentando me ensinar que a pressa de pouco ajuda em nossas vidas e meu primeiro relógio de pulso que ganhei dos meus pais quando completei meus 10 anos.

NEM SEMPRE CONSEGUIMOS VIVER CADA MOMENTO COMO SE FOSSE ÚNICO


Nos momentos em que pude conviver com meus avós, havia uma situação que se repetia todos os dias. Meu avô era dono de uma tabacaria. Como ele não podia fechar sua loja e ir almoçar em sua casa, eu e minha avó íamos até ele levar sua marmita. O trajeto era curto, de um quilometro mais ou menos. Passávamos debaixo de árvores, calçadas esburacadas, esperávamos carro para atravessar a rua. A todo instante ela tentava segurar minha mão. Eu, menino astuto me entretinha com um olhar curioso sobre as pessoas dentro das casas, com os gatos e cachorros que cruzavam conosco pelo caminho, com a água escorrendo pela sarjeta, com as cores das plantas. Se passasse duas pessoas conversando eu adorava parar e ouvi-las. (talvez daí surgisse o desejo pela escuta no consultório). Em nenhum momento ela me apressava. Às vezes, depois de parar e brincar com algum objeto que encontrava pelo chão, olhava para o rosto dela querendo ver sua reação. Ela parecia me acompanhar no olhar. Com muito calma estava me esperando para continuarmos nossos passos.

Já o meu primeiro relógio de pulso foi algo místico. Nunca tinha colocado um relógio de verdade no meu braço. No máximo eram aqueles brinquedos de relógio que vinham nos doces comprados no boteco da esquina. Esse agora era de verdade. Tão verdadeiro que seu mostrador era de uma cor azul marinho. Imaginem vocês como pode ser algo marcante para uma criança ter em seu braço um objeto que pode marcar o tempo de seus afazeres. Horário para comer, para brincar, para assistir ao desenho na tv. Era uma sensação nova de poder, de controle da minha rotina, de separar tudo através do ponteiro do relógio.

O que essas duas memórias tem em comum? A lógica do tempo. Tanto o percurso com minha avó até a tabacaria quanto o meu primeiro relógio me faz pensar sobre ele. Seja na pontualidade do aparelho no braço ou na tranquilidade e na liberdade do passeio; ambos os eventos me chamam à atenção. Por quê? Explico.

Quando crianças somos invadidos pelas vivências do presente. Quem convive com criança sabe que para elas é como se só existisse o hoje. Querem brincar de tomar banho de chuva de noite, no frio. A sobremesa pode vir antes do almoço ou jantar, “não tem problema, mamãe” dizem com toda certeza existencial. Algumas que vivem a maior parte do dia longe dos pais por conta de que esse trabalham fora (ou dentro de casa, como hoje na pandemia) trocam a noite pelo dia só para ficarem mais perto daqueles que sentem falta. Essa certeza de que a vida acontece no aqui-e-agora vai sendo desconstruída pelo passar dos anos.

A sensação de ter todo o tempo do mundo no passeio com a minha avó e a “queda” desse lugar quando ganhei meu primeiro relógio me trouxe o pensamento logo cedo de que não era dono de parte da minha vida, mas que ela deslizaria pelos anos se não tomasse consciência dos pequenos detalhes.

Acabei de ler “Os últimos melhores dias da minha vida” (Record, 2020) em que o jornalista Gilberto Dimenstein conta, de forma muito sensível, os mais de 300 ‘últimos’ dias de sua vida após receber o diagnóstico de câncer. O “despertar” após lidar com o limite da vida lhe possibilitou viver, na sua avaliação, os que foram os melhores dias da sua trajetória.

Em suma, assim como uma criança que se apropria de seu presente de forma tão intensa ganharíamos muito se tentássemos esquecer nosso passado e deixássemos de olhar tanto para nosso futuro. A pandemia nos convoca a darmos mais atenção ao nosso presente. Até por que nunca saberemos de verdade até onde iremos com nosso futuro.

Daniel Vicente da Silva - Psicanalista, Membro Associado do Núcleo de Estudos em Psicanálise de Sorocaba e Região - NEPS-R. E-mail: danielvicente_@hotmail.com

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