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A importância de fazer o possível

O possível é algo que preenche as condições necessárias para ser, existir e realizar-se, o que está ao alcance de ser feito.

Vivemos em uma sociedade que tem cada vez mais desprezado o possível e supervalorizado o impossível, um exemplo disso é o sedutor culto “a felicidade, aventuras e conquistas ininterruptas” que acompanhamos nas redes sociais; elas são uma das provas dessa supervalorização do impossível de ser vivido, mas possível de ser idealizado.


A importância de fazer o possível


É importante destacar que em tempos de pandemia da Covid-19, as redes sociais ocuparam um dos principais lugares de encontro, em que a suprema alegria, felicidade e sucesso, foram cada vez mais intercalados por temas de interesses (políticos, religiosos, artísticos etc.) e com o sofrimento das perdas crescentes de pessoas amadas, pela Covid-19 ou por outros fatores. Neste momento de isolamento físico, o espaço de compartilhamento dessas perdas e a solidariedade encontrada nas redes tem permitido pensar que a vida tem seus momentos, tristes e alegres, e nisso, já permite operar uma outra forma de pensar esse lugar que se compartilha situações idealizadas.

Ao lado do crescente compartilhamento das perdas das pessoas amadas, o espaço para o compartilhamento das diversas emoções (tristeza, medo, insegurança, desamparo) que se opõe a lógica de “momentos de felicidade e sucesso” está permitindo que o isolamento físico seja substituído pelas relações sociais virtuais. As pessoas que tiveram a possibilidade experimentar uma videoconferência com os pais, amigos e familiares, foram percebendo que a diferença desse encontro pode não ser tão ruim quanto imaginavam.

O difícil cenário em que vivemos tem provocado o crescimento de episódios de tristeza e angústia que, muitas vezes, começam contidos nos quartos, nos choros aleatórios e incontroláveis, no sentimento que se tenta esconder porque teme que os outros não escutem, acolham e até julguem esse momento. Assim se sucede até o momento em que a lágrima escapa fora do quarto e abre o espaço para os outros acolherem essa tristeza, muitas vezes sem saber o que fazer, mas um simples reconhecimento como “você está chorando, o que está acontecendo?”, pode favorecer que pessoa fale. 

É comum observar, na clínica, apontamentos de pacientes de que “todos estão dando um jeito, estão bem apesar do que está acontecendo, menos eu”. A lógica da supervalorização da “alegria e sucesso” atravessa o universo dos adultos, que sabem que a vida virtual é apenas um pequeno fragmento da vida real, e mesmo assim, sofrem com narrativas tais como: “eu sempre estava criando algo diferente, agora estou produzindo a metade, me sinto um vagabundo”; “não entendo como estou em casa e não tenho tempo, sou desorganizado com meus estudos”; “eu devia estar feliz de estar podendo estudar, já que não estou trabalhando”.

Quando questões como estas aparecem na análise, a primeira coisa que me ocorre é “mas como estão as coisas agora?’’; “o que será que está acontecendo que você está se desorganizando”; “como está sendo estudar e não trabalhar?”, nessas indagações as pessoas vão pensando sobre o que está acontecendo, apropriando-se de suas vivências e se deparando com o tempo “anormal” que estamos vivendo, com as suas adaptações para enfrentar este momento difícil da pandemia da Covid-19.

A regra do “sucesso e felicidade constante”, às vezes, são transmitidas para as crianças nas frases em meio a tristeza da criança, a sua indignação com algo errado que todos percebem, mas dizem para ela “deixar para lá que as coisas são assim mesmo”, o desmentido que o psicanalista Ferenczi denuncia e que causa imensa confusão no reconhecimento das emoções das crianças e por conseguinte nos sujeitos adultos. Outro modo está no tratamento da criança como um ser indiferente ao que está lhe acontecendo, evitando falar sobre a perda de alguém porque tem chorado, ou achar que a aquilo que abala o adulto como, por exemplo, saber que na pandemia tem morrido mais de 3 mil pessoas por dia no Brasil durante a última semana, não é percebido nem sentido pela criança, e isto por achar que ela nada entende daquilo que está vendo na TV ou ouvindo na conversa dos parentes. Cada um vai entender as coisas à sua maneira, na sua linguagem. É assim que a criança vai compreendendo o que está em seu entorno, de forma singular, e, a única coisa que podemos fazer, é perguntar para ela o que está entendo daquilo, “como está a vida dela nesta pandemia?”, “O que ela está conseguindo fazer e o que não está conseguindo”; “o que ela gostaria de fazer?”.  

Ou seja, não se trata de resolver a tristeza ou as dúvidas que este momento traz, isso é impossível para todos, inclusive para psicólogos e psicanalistas. O que é possível neste momento é acolher, oferecer apoio para que o sujeito enfrente esse momento, seja buscando ajuda profissional ou mesmo encontrando outras formas de expressar suas emoções.

Assim como tem sido um desafio para os adultos se darem conta de que muita coisa anda diferente nesta pandemia, e que por isso, passam a reagir de modo diferente, encontrando jeitos possíveis de trabalhar, descansar e passar o tempo, as crianças também estão vivendo isso. Recentemente uma criança me disse: “só agora percebo que minha vida mudou muito desde a pandemia”. Ela estava sem ânimo para as aulas, com muito sono. Foi a partir do momento que pode falar da falta que sentia de pedalar, de jogar e de encontrar os amigos, que passou a se apropriar das mudanças que tem vivido e passou a dar mais importância para fazer outras coisas diferentes. Aos poucos foi possível perceber que apesar da tristeza de não poder encontrar os amigos presencialmente, pode encontrar outras satisfações realizando jogos de imaginação, marcando jogos virtuais e até mesmo propondo brincadeiras diferentes com a família e durante a sua análise.

Conforme a psicanalista Maria Rita Kehl¹, a experiência compartilhada com os outros, ou seja, não solitária, pode contribuir para a diminuição da ameaça e da culpa que pode pairar sobre cada um, isoladamente, e possibilitar que seja questionada verdades tidas como absolutas pela cultura.

Percebo que desconsiderar a realidade vivida pela própria pessoa tem provocado sofrimento e a paralisia de sonhos e desejos fundamentais para ampliação do sentido da vida. Pois como bem falou o querido psicanalista, recém falecido, Contardo Calligaris², “o sentido da vida é a própria vida”, quando algo no nosso cotidiano muda, deixa de fazer sentido, precisamos entender o que está por trás disso.

Para concluir, cito um trecho do livro “O tempo e o cão”³, no qual a psicanalista Maria Rita Kehl fala sobre como uma sociedade, que só estimula a felicidade e o gozo irrestrito, tem contribuído para produzir indivíduos depressivos. Em consonância com a autora, finalizo o texto esclarecendo que a escuta psicanalítica acontece, não para substituir uma ausência de sentido, mas para permitir que a pessoa conheça essa ausência, fundamental para ela ressignificar sua vida.

 ¹KEHL, Maria Rita (Org). Função fraterna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p.41.

 ²Sem autor. O sentido da vida é a própria vida diz Contardo Calligaris.  Programa Impressões, TV Brasil no ar 6 de janeiro de 2020, disponível em https://tvbrasil.ebc.com.br/impressoes/2019/12/o-sentido-da-vida-e-propria-vida-diz-contardo-calligaris

 ³KEHL, M. R. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009, p.223.

 

* Escrito por Michele Gouveia é Psicanalista, Psicóloga Clínica e Consultora de Carreira, mestre em Psicologia Social e Especialista Clínica em Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP. E-mail: michelegouveia.psi@gmail.com

 

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