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O tabu das conquistas das mulheres

 A história das lutas e conquistas das mulheres é marcada por muitas lacunas, efeito de não ditos de representantes da sociedade que viam como ameaça a divisão de espaços sociais e do poder com as mulheres, nos faz perceber o tabu (algo que não se fala em uma cultura que foi predominante no campo da história, e que ainda não deixou de ser em alguns países, no qual as mulheres buscam ter o direito ao voto, aos estudos, ao trabalho e a decisão sobre sua vida sexual).

O tabu das conquistas das mulheres

Essa situação sofreu mudanças através das lutas diárias de muitas mulheres que chegaram até a morrer por termos o direito ao voto, ao mercado de trabalho, aos estudos, a cuidar de seus bens e a ter direito a licença maternidade. Um exemplo desse não dito está na ocultação das contribuições acadêmicas de inúmeras mulheres, como foi o caso da geneticista norte-americana Nettie Maria Stevens. Em 1905, ela descobriu o sistema XY que determina o sexo: mulheres têm um par de cromossomos sexuais iguais. No século passado, a sua descoberta “foi muitas vezes colocada em segundo plano e atribuída ao professor Edmund Beecher Wilson, que antecedeu Morgan no cargo de chefe do Departamento”¹.
 

Outra história que vale conhecer e virou filme, é a da escritora de “Frankenstein” (1818), Mary Shelley. A autora publicou seu livro sem o seu nome, na época por receio de sua autoria ser questionada, sob o argumento de que uma mulher tão jovem não poderia imaginar uma obra com a aquela originalidade, pois na época o cenário literário era predominantemente dominado por homens.

Apesar dessas histórias serem do século passado, infelizmente não é difícil aproximá-las de histórias atuais na tentativa de descreditar a mulher seja no reconhecimento de seu trabalho, seja tentando reduzir a mulher a um objeto sexual. Um triste exemplo desse último aspecto foi o recente assédio sofrido pela deputada Isa Penna, em dezembro de 2020, durante uma sessão da Assembleia de São Paulo. Neste assédio, ela teve o seu seio apalpado pelo deputado Fernando Cury, cuja punição ainda está em processo.

Infelizmente, não é difícil de lembrarmos histórias de abuso ou assédio contra mulheres, e caso você não se lembre, vale começar a prestar mais atenção pois está fechando os olhos para algo que faz sofrer grande parte da nossa população, isso inclui sua mãe, suas amigas, qualquer mulher que faça parte da sua vida.

Eu vi e sofri como muitas alguns tipos de assédio, seja de falas inadequadas de colegas que não podiam ver uma mulher solteira que parecia aos seus olhos como “carne nova no pedaço”, ao ponto de “eu querer colocar uma aliança só para inibir as cansativas cantadas e toques inadequados, que na época ainda tinha dificuldade de falar, ei você está sendo desrespeitoso, pare de me tocar”. Também não me esqueço que ouvi de familiares próximos histórias de avós e mães que não puderam estudar para não poderem escrever cartas para um possível namorado. Ou mesmo, mulheres que não podiam cuidar de suas fazendas porque não seriam respeitadas por outros fazendeiros machistas que invadiam seus pastos e cometiam atrocidades contra essas mulheres de uma região extrema do Brasil.

A história recalcada das conquistas e opressões sofridas há anos pelas mulheres, permanece no inconsciente e se transmitindo, produzindo seus efeitos que só depois serão nomeados e inscritos na cultura que os produziu, e, assim, muitas vezes os sujeitos participam disso sem saber o que fazem. A narrativa da psicanalista Maria Rita Kehl (2016)², nos permite pensar os efeitos dos não ditos em uma sociedade. Podemos pensar sobre uma percepção muito comum entre as mulheres, “elas se cobram mais do que os homens”, e mesmo tendo consciência deste fato, isso não faz cessar rápido o sintoma da autocobrança exagerada, pois não é só nos ditos da cultura que são cobradas, mas também em muitas entrelinhas que foram transmitidas sem perceber.  Perceber é o primeiro passo para se questionar sobre essa atitude que se repete, sem sentido e que gera sofrimento.

Pensar no ser mulher provoca muitas emoções, orgulho, revoltas, medos e coragem. A coragem de lutar para construir um caminho singular, livre do peso do machismo que ainda está impregnado em nós e na cultura, por meio de pequenos gestos cruéis que hora ou outra observamos se reproduzindo, tais como: encher o saco de uma menina por ela gostar mais de brincadeiras de aventuras em vez das bonecas, e para piorar, falam para ela que isso é coisa de menino; ou da nossa autocobrança da desorganização de uma casa em pró de uma organização na carreira, que superada pode ser  libertador permitindo ganhar tempo eliminando os pequenos gestos obsessivos de organização que só nos impedem de ler, conversar e poder ter mais tempo para nós.

Encerro com a lembrança de um belo encontro  com um grupo de mulheres na região do Vale do Ribeira, em que pude escutar sobre os desejos e desafios de ser mulher, notamos que a sobrecarga do cuidados dos filhos após a separação,  evidenciavam a  falta da responsabilidade de pais, sentiam que esse sofrimento não tinha acolhida em seus meios, pois eram descreditadas socialmente por suas famílias, com frases “o filho é só da mãe, homem não liga para isso”, sabemos que hoje muitos homens já pensam diferente, as novas gerações estão evoluindo para o entendimento de suas responsabilidades domésticas, mas mesmo assim, no caso dessas mulheres, seus filhos tinham dificuldade de entender, que as mães também são mulheres, trabalhadoras, sonhadoras, e, como eles, tem muitos outros desejos que devem ser respeitados, vivenciados e alimentados. Sobre isso, recomendo assistir ao documentário disponível no YouTube, “Todos nós cinco milhões”, aborda que aborda o abandono paterno. A lembrança dessa escuta também me fez lembrar da bela série do Netflix “Coisa mais linda”, em que mulheres de diferentes realidades sociais enfrentam juntas os desafios de bancar seus desejos, de realizar-se sexualmente, profissionalmente e de ter ou não filhos.

Recado às Mulheres e todos os demais que as amam ou desejam saber mais sobre as mulheres, compartilhem temas que desejam que sejam ocupados neste espaço virtual.

¹ PAIVA,L; NASCIMENTO, G; (2017). 4 cientistas da história ofuscadas pelo machismo. Disponível em: https://claudia.abril.com.br/noticias/4-cientistas-da-historia-ofuscadas-pelo-machismo/. Acesso em 06 mar.2021.

 

²KEHL, M.R. Prefácio. In: ROSA, D, M.(2016).A clínica psicanalítica em face da dimensão sociopolítica do sofrimento.  Escuta. São Paulo.

 

Autora: Michele Gouveia é Psicanalista, Psicóloga Clínica e Consultora de Carreira, mestre em Psicologia Social e Especialista Clínica em Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP. michelegouveia.psi@gmail.com

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