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Os desafios estruturais da Bananicultura Brasileira










A banana é a fruta da vez!

Nos últimos meses a banana tem sido parte da pauta política e econômica brasileira. Como explicar a presença de uma fruta em questões relevantes de comércio exterior e até como motivo para detalhada busca inquisitiva a respeito das atividades econômicas de um Presidente da República.


Os desafios estruturais da Bananicultura Brasileira
Os desafios estruturais da Bananicultura Brasileira
Aos mais jovens cabe explicar que a produção de bananas sempre esteve diretamente ligada ao “desenvolvimento” da América Latina e para entender um pouco da história e a complexidade da bananicultura é indispensável a leitura de obras de Gabriel García Marquez, Miguel Ángel Asturias, Neruda e principalmente os livros “Mamita yunai” de Carlos Luiz Fallas e a obra de Peter Chapman, autor do livro: Banana. Como a United Fruit Company mudou o mundo (tradução livre).

Os desafios estruturais da Bananicultura Brasileira
Os desafios estruturais da Bananicultura Brasileira

O leitor mais atento deve estar perguntando: O que esse breve relato histórico tem a ver com a bananicultura brasileira? A resposta parece complexa, mas é até simples. Trata-se de estabelecer qual é o  modelo de cultivo de bananas deverá ser adotado no país e a quais mercados este modelo poderá atender.

A bananicultura altamente tecnificada, como vemos hoje nos países da América Central, na Colômbia e Equador carrega em seu DNA uma série de tragédias socioambientais, que iniciaram desde o plantio despretensioso realizado pelo construtor Minor C. Keith, cujo objetivo era apenas produzir a fruta para a alimentação dos operários que trabalhavam na ferrovia, até transformar-se na principal fruta produzida e consumida no mundo. 

A bananicultura tecnificada implantada nestes países é basicamente de apenas cultivares do subgrupo cavendish (nanica ou caturra),  destinadas a exportação aos mercados dos Estados Unidos, Europa e China e a produção geralmente está localizada em áreas do trópico úmido, altamente favorável a incidência de fungos, como a Sigatoka Negra, que demandam até 55 pulverizações aéreas por ano para o controle de patógenos.

Com o advento das certificações socioambientais, nas três ultimas décadas e a pressão do consumidor a respeito da internalização das externalidades negativas ou a aplicação de medidas mitigadoras de impacto ambiental, as empresas transnacionais exibem orgulhosas os certificados de adequação aos escopos aplicados. Ao consumidor geralmente fica a informação a respeito da rastreabilidade, da ausência de resíduos nas frutas e a certeza que um check list fora aplicado e determinado a “conformidade” da fruta enviada.
Neste contexto, é inegável imaginar que uma aplicação semanal de triaziós, estrobilurinas, benzimidazóis, entre tantos outros agrotóxicos, não deixem profundas sequelas no ecossistema.

Mas e a bananicultura brasileira?

Os desafios estruturais da Bananicultura Brasileira
Os desafios estruturais da Bananicultura Brasileira

O Brasil é um país com dimensões continentais. A bananicultura brasileira é altamente diversificada, a começar pelas variedades cultivadas, pois o mercado consumidor tem sempre pelo menos duas opções da fruta (Prata e Nanica) e ainda conta com as cultivares de preferência regional (terra, maçã, figo).

Segundo o IBGE (2017) são cerca de 500 mil hectares cultivados com banana em todos os Estados da Federação, tornando-se numa atividade altamente pulverizada em distintos ecossistemas e com desafios técnicos a serem superados diariamente. De acordo ao CEPEA (2017) existem aproximadamente 84 mil hectares considerados de média e alta tecnologia, e dados recentes da CONABAN (2018), apontam mais de 100 mil hectares com alta tecnologia e distribuídos de forma atomizada.

Embora exista um movimento crescente para tentar certificar a fruta nacional, principalmente àquelas entregue diretamente ao grande varejo, alguns escopos e certificações internacionais e mesmo a Produção Integrada de Bananas, encontram limitações em certificar a bananicultura nacional por causa dessas limitações do ecossistema, como por exemplo, a topografia da área cultivada. Como explicar a um bananicultor da Zona da Mata Pernambucana, do Vale do Ribeira (SP) ou de Corupá (SC), que se dedica a atividade a mais de meio século, que ele precisa simplesmente adequar-se aos novos padrões? Por outro lado, é real a ameaça da entrada de frutos provenientes de outros países, como foi recentemente com publicação da IN Nº46 de 2017, que permitia a entrada de bananas do Equador, e que só foi suspensa a partir da ação firme paraestatal representativa dos bananicultores, que conseguiu demonstrar o risco fitossanitário à bananicultura brasileira.

Quando se aventou a possibilidade de abertura do mercado brasileiro de bananas, muitos profissionais do setor elogiaram a medida como forma de estimular a competividade (entenda por isso adotar o modelo Equatoriano de produção). Neste mesmo veículo houve quem criticasse os bananicultores nacionais por tentar argumentar frente ao setor público os impactos socioeconômicos e ambientais que a medida traria ao bananicultor brasileiro.
Diante da complexidade em organizar o setor, é necessário levar alguns questionamentos a toda a cadeia, inclusive aos consumidores, que muitas vezes imaginam tratar apenas de barreiras comerciais, pois estão alijados da realidade no campo.

A Confederação Nacional dos Bananicultores (CONABAN) acredita que há muito a ser desenvolvido e melhorado na bananicultura brasileira, principalmente com relação a segurança alimentar, oferecendo ao consumidor frutas produzidas dentro de critérios de Boas Práticas Ágrícola e de Processamento, com rastreabilidade em todo o processo.

O que está claro para a Confederação, é que o modelo a ser adotado deve ser construído e adequado às características intrínsecas produção nacional, com uma discussão ampla com toda a cadeia produtiva, mas especialmente educativa. É prioridade levar ao consumidor, se, além do preço justo, ele prefere uma fruta produzida com alta dependência de insumos químicos não recicláveis e com permanência residual em toda a cadeia alimentar, como os plásticos e os defensivos, ou, ter a opção de escolha por uma fruta segura e adequada aos dias atuais.

Não se trata de prática protecionista ou meramente nacionalista, como àquelas realizadas pela Espanha, ao incentivar o consumo de bananas das Ilhas Canárias, mas não há como imaginar que uma fruta que recebeu uma pulverização semanal com agrotóxicos para que estivesse com a “aparência” adequada ao consumo, possa competir com a fruta nacional? Temos que de forma urgente pensar no ecossistema com um todo e valorizar o peso ponderado de práticas que objetivem aumentar a segurança alimentar como critério decisivo no “momento da verdade”, que é quando o consumidor está frente as gôndolas dos supermercados.

Diante desses desafios, a CONABAN está organizando a cadeia produtiva, considerando as suas especificidades estruturais e  propondo aos produtores, através de um programa de adesão voluntária, a adoção do sistema de Oferta Responsável da Fruta (já em implantação pela Abanorte/MG), alinhado com a realidade brasileira (poder de compra e preferência de cada praça, legislação, entre outras), oferecendo frutas produzidas de acordo a um moderno sistema de certificação e rastreabilidade.

Mas para isso tudo dar certo, é preciso a reflexão e pronta adesão de parte do setor atacadista ou climatizador e especialmente do varejo, pois além de oferecer frutas saudáveis e seguras, um dos pilares dessa nova proposta de produção e oferta responsável, é também melhorar a vida do varejo, diminuindo as perdas e promovendo uma logística inteligente com relação as embalagens e distribuição nas gôndolas.

Por Jeferson Magario 

Presidente da Conaban ( confederação dos bananicultores do Brasil)