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Costumes e crendices de um povo






           

O povo do Vale do Ribeira sempre guardou velhos costumes e crendices, que vem sendo transmitidos de pai a filho há várias gerações. Compulsando coleções de antigos jornais publicados na região, e também anotações feitas ao longo de décadas junto a pessoas idosas, conseguimos selecionar alguns dos hábitos e superstições do povo valerribeirense em época recuadas. Hoje citaremos algumas dessas superstições, que foram publicadas no semanário “Commercio de Iguape”, número 223, de 30 de maio de 1879, portanto há 140 anos:

Costumes e crendices de um povo


            Quando o galo canta de dia, é mau agouro, e se canta às dez horas é sinal de casamento.

            Quando sai a procissão do Senhor e muita gente o acompanha, o doente não escapa.

            Virando-se um banco de pernas para o ar o inferno treme.

            Quando canta a coruja nas proximidades de uma habitação, é sinal de morte. Para matar a ave agoureira, basta virar um tamanco.

            Quando um cão esgravata o solo é sinal de que alguma sepultura tem de ser aberta.

            Quando uma mulher tem dificuldade de dar à luz, coloca-se na sua cabeça um chapéu de homem, e a criança nasce logo.

            Para evitar a palestra de algum amolador, espeta-se uma tesoura na parede.

            Desejando-se que haja chuva, mata-se um sapo; e, para fazê-la cessar, é bastante fincar um espeto em um cinzeiro.

            É necessário guardar com muito cuidado o umbigo das crianças, porque, se algum rato o come, ficam ladras.

            Para que os recém-nascidos não sejam chupados pelas bruxas, faz-se um signo de Salomão na porta do aposento.

            Se chove e, ao mesmo tempo faz sol, é porque a raposa está se casando.

            Quando há um eclipse do sol, rufa-se em caixas para espantar o leão que está comendo a Lua.

            Na noite de São João, quem rezar o Padre-Nosso e o Credo pode passar descalço por cima de um braseiro sem se queimar.

            Se um rapaz deseja se casar com certa dama, na mesma noite planta um dente de alho; se este brota no dia seguinte, o casamento é infalível.

            O vestido do noivado nunca deve ser tinto de preto, porque, se o tingem, morre a noiva.

            É de mau agouro dormir com os pés voltados para a rua.

            Não se deve varrer a casa de noite e atirar o cisco fora, porque enxota-se a fortuna.

            Vestir roupa pelo avesso livra da mordedura de cão raivoso.

E, você, caro leitor, conhece algum costume ou crendice contada por seus pais e avós?

ROBERTO FORTES
ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.  E-mail: robertofortes@uol.com.br



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