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Estudo inédito com ‘peixe paulistinha’, aponta contaminação em água usada para abastecer a população de Campina Grande




Estudo inédito com ‘peixe paulistinha’, aponta contaminação em água usada para abastecer a população de Campina Grande



Embriões do zebrafish (conhecido popularmente como ‘peixe paulistinha’ ou ‘peixe-zebra’), morreram ou apresentaram sérias deformações quando colocados nas amostras de água recolhidas na cidade nordestina



Um estudo inédito realizado no Instituto Butantan, unidade da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, com o uso do Zebrafish (popularmente conhecido como “peixe paulistinha” ou “peixe-zebra”), demonstrou que águas utilizadas para o abastecimento da população no município de Campina Grande, na Paraíba, estavam impróprias para o consumo humano. O trabalho foi feito em conjunto com o Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto (Ipesq) de Campina Grande, o Instituto Alberto Luiz de Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe), vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Estadual do Norte Fluminense (a Uenf).








Foi a primeira vez que o Butantan utilizou o Zebrafish para promover um teste que medisse a presença de toxinas da água.  O zebrafish é considerado por cientistas do mundo todo como um excelente modelo para estudos de toxicidade, pois além de ser um animal vertebrado, ele tem 70% de similaridade genética com o Homem.



Os testes haviam sido solicitados pelo Ipesq, entidade que fica em Campina Grande, e que é comandada pela especialista em Medicina Fetal Adriana Suely de Oliveira Melo. Adriana ficou conhecida internacionalmente por ter sido pioneira no diagnóstico de casos de microcefalia em função do Zika Vírus na região.  “Antes de observarmos os casos de microcefalia, começamos a observar, principalmente no serviço público, um aumento no número de malformações vistas através de ultrassonografia. Elas estavam ligadas a vários sistemas como o gastrointestinal e o nervoso”, disse Adriana. 

Ao todo, 25 amostras de água enviadas ao Butantan foram recolhidas dos cinco principais reservatórios de água de Campina Grande (Araçagi, Boqueirão, Saulo Maia, Galante e Mazagão). Os pontos de coleta eram os açudes selecionados justamente por abastecerem os locais onde a médica observou o maior número de malformações detectadas pelas ultrassonografias.

Embriões do zebrafish foram colocados nas amostras de água a serem analisadas (120 embriões/amostra). Todos foram monitorados por sete dias, até alcançarem a fase de larva.  Em 70% dos casos, as águas não apresentaram boa qualidade e geraram anomalias e até a morte dos peixes utilizados na pesquisa. 

“Infelizmente, me assustei com os resultados. Ficou muito claro desde o início que a maior parte das águas tinha contaminantes. Algumas amostras causavam letalidade e muitas vezes constatávamos a morte dos peixes após 24h de teste. Outras amostras causaram sérias anomalias como edema cardíaco e malformação da boca, dos olhos e da coluna vertebral.  Se a água não é boa para o peixe, ela também não está boa para o consumo humano”, disse Mônica Lopes Ferreira, responsável pela pesquisa no Butantan.





ANÁLISE METAGENÔMICA



Paralelamente, no Rio de Janeiro, o Coppe realizou a análise do material genético (metagenômica) e das toxinas, enquanto a UENF analisou poluentes e metais pesados. As análises corroboraram o resultado dos estudos que vinham sendo obtidos com o Zebrafish no Butantan, em São Paulo.

Por exemplo, em 10% das comunidades de micróbios (microrganismos) das amostras de água analisadas havia a presença de cianobactérias (bactérias conhecidas popularmente como algas azuis), incluindo grupos potencialmente tóxicos como o da Microcystis e o da Cylindrospermopsis. 

Para o responsável pelo trabalho no Rio, o pesquisador Fabiano Thompson, do Coppe, a seca prolongada na região de Campina Grande associada à alta concentração de nutrientes na água são fatores que podem propiciar a floração de microrganismos tóxicos presentes nos reservatórios. “O estudo demonstrou inequivocamente que açudes submetidos a longos períodos de seca estão sujeitos à proliferação de microrganismos tóxicos. A água poluída destes açudes representa seríssima ameaça à saúde humana”, afirma Thompson. O resultado do estudo foi publicado no jornal científico “Frontiers in Microbiology” e foi apresentado ao Ministério da Saúde e à Assembleia Legislativa da Parabía.



Fontes para entrevista:

Mônica Lopes Ferreira – pesquisadora do Instituto Butantan (São Paulo - SP)

Adriana Suely de Oliveira Melo – Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto (Campina Grande- PB)

Fabiano Thompson – pesquisador da UFRJ (Rio de Janeiro – RJ)