14 de setembro de 2017

O Cinquentenário 1967 e o Centenário 2017

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O Cinquentenário 1967 e o Centenário 2017

No seu Cinquentenário, em 1967, a cidade de Presidente Prudente contava com cerca de 80 mil habitantes. Era chamada de Capital da Alta Sorocabana. 

Usufruía da estrutura de comércio e serviços que a caracterizou desde a fundação, mantendo expressiva a agropecuária. Conservava a rusticidade da frente pioneira.

No seu Centenário, em 2017, a população ultrapassa os 200 mil habitantes. A cidade se “internacionalizou”. 

Ficou para trás a Capital da Alta Sorocabana, nome pomposo, mas, provinciano. Nem a Sorocabana nem a Alta Sorocabana existem mais. 

A cidade se articula com outras expressivas cidades do estado, mantendo o forte poder de aglutinação regional, sufocando os núcleos urbanos da vizinhança. 





A influência para além do estado continua mas num grau menor por causa do desenvolvimento do Mato Grosso do Sul (Campo Grande e Dourados) e do Paraná (Londrina e Maringá). A zona rural quase desapareceu. 

Ficou para trás o café, o algodão e o boi. Entrou a cana, mas de expressão estatística porque o PIB se assenta no comércio e nos serviços. A indústria se esforça em mais de um distrito industrial. 

O que resta de zona rural está sendo ocupado por hotéis-fazenda, haras, pesqueiros pesque/pague, chácaras/sítios de passatempo que são equipamentos para servir a população citadina. 

A malha urbana se agigantou para abrigar ruas de comércio especializado ou sofisticado, balneários e áreas de lazer, edifícios, condomínios e conjuntos habitacionais,  shoppings e supermercados,   escolas e  universidades,  complexos hospitalares,  clínicas e laboratórios para exames sofisticados.

Aquela infraestrutura abrigou, em 1967, uma sociedade estratificada, um tanto homogênea. Os laços de vizinhança e familiares eram mais fortes. 

As famílias mais antigas dos primórdios da ocupação se destacavam como uma “elite”, independentemente de fortuna, sendo o “pioneiro” visto com respeito e admiração. 

Ainda não se aprofundara o êxodo rural, avassalador na década seguinte. 

Os clubes sociais agrupavam a classe média e os dois times de futebol, apesar da feroz rivalidade, irmanavam todos na solidariedade de cidade de interior. 

Os “doutores” congregavam pequeno número de médicos, advogados, engenheiros, dentistas, farmacêuticos. Os professores tinham particular apreço. 

Os comerciantes tocavam casas comerciais tradicionais nos seus ramos. Funcionários públicos graduados gozavam de consideração. Essa “elite” se reunia no Tênis Club, na APEA, no Lions, no Rotary, na Loja Maçônica e ocupava a maioria da câmara municipal e a prefeitura.

No Centenário, Prudente perdeu a sociedade interiorana do passado. A argamassa do convívio social quase familiar se desfez, sumiu o sentido de comunidade. A população cresceu pelo êxodo rural avassalador e a “elite” se dissolveu pela invasão da periferia para o centro. Práticas de convívio social solidárias se apagaram. Cada vez menos família. Predomina a impessoalidade. 

Não há mais festas juninas de bairros, procissões  religiosas,  desfiles escolares com fanfarras rivais, quermesses, révellions, bailes de carnaval.  

Convive-se nos shoppings, nos condomínios, no Parque do Povo, nos restaurantes e barzinhos. 

Convivência por estar junto mas não fraterna. Ninguém se conhece. Ninguém se cumprimenta. Ninguém está interessado no outro. 

As práticas comerciais e de serviços perderam o aspecto pessoal. Acabou o fiado, a caderneta, a atenção personalizada. 

Os grandes magazines, os supermercados, as clínicas, os consultórios, os hospitais, os escritórios, os bancos atendem de forma “industrial”, impessoal, dentro de horários rígidos.

“Duas cidades”, “duas sociedades” tinham que realizar comemorações diversas.

O Cinquentenário foi um arraso. O ano inteiro de festas: bailes, festival de cinema, festival de teatro, concurso de miss, cerimônias oficiais, inaugurações de obras públicas, edições especiais de jornais e revistas, desfiles com participações de fanfarras, de bandas de música e dos pioneiros da fundação. 

Delegações das cidades vizinhas. Presença do Coronel Goulart e de dona Isabel, dos seus filhos e netos. Forte participação popular. 

As pessoas sentiam orgulho do desenvolvimento da cidade, do cinquentenário, queriam participar. César Cava compôs o Hino do Cinquentenário que viralizou nas rádios e nas escolas. Ajudou o brilhantismo das festividades, as condições econômicas e políticas. Ainda estavam longe as crises do petróleo de 1972 e 1979. 

Não faltou dinheiro da Prefeitura e do Estado para financiar as atividades comemorativas.  

Embora já tivesse havido o rompimento constitucional (1964), o regime ainda não endurecera como a partir do AI 5 (1968).  

Dois apoios importantes: o prefeito Watal Ishibashi e a cúpula política local em grande sintonia com o presidente da comissão das festividades, professor José Machado de Almeida. Ambas as figuras muito dinâmicas que se entrosavam, efetivando as múltiplas realizações. 

Havia uma euforia muito grande. O comércio vendia muitos souvenirs que eram absorvidos avidamente. 

Uma satisfação em ser prudentino. Embora poucos o fossem. O Teatro Estudantil Pudentino  - TEP -  fez campanha para um teatro no prédio novo da prefeitura, em construção, agitando o slogan “no cinquentenário de Prudente, um teatro de presente”. O teatro levou o nome de Procópio Ferreira, sendo inaugurado em 7 de outubro com a presença do maior ator brasileiro. 

A pedido da Prefeitura, o IBGE realizou um censo demográfico do município, publicado em uma brochura. Foi inaugurado o majestoso prédio do Ginásio de Esportes, promessa de campanha do prefeito Watal.

Do Centenário, o que se pode dizer é que tem sido uma comemoração oficial. Sem povo, sem euforia. Sem um sentimento de pertencimento. 

Apropriada para uma cidade com população de natureza metropolitana, sem ligações históricas e culturais com a cidade, preocupada com o trabalho, o lazer particular, conectado com alhures. 

Preço pago pelo crescimento populacional: entrou muita gente e saiu ainda mais. Pessoas nascidas no cinquentenário, que poderiam estar envolvidas, migraram. 

Uma estimulante cobertura do O Imparcial se esforça por despertar entusiasmo. Estão providenciando uma praça com o nome de Centenário e um monumento comemorativo. 

Duas providências excelentes para a fixação do momento, providência que o Cinquentenário não tomou. 

Foi realizado um filme ficção-documentário sobre Prudente, importante para marcar a data. 

Ajuda a compreender a situação, a condição do País, oposta de cinquenta anos atrás. O Centenário pegou o Brasil numa tempestade perfeita: política, econômica, social, cultural, ética. Desemprego alto, queda da arrecadação fiscal. 

Há pouco dinheiro do Estado e do Município para financiar eventos. Um desempregado não tem disposição para comemorar nada. Por outro lado, este ano é o primeiro do novo prefeito, que ainda não disse bem a que veio. 

Conectado a uma comissão dos festejos inexpressiva faz com que faltem dois elementos propulsores importantíssimos. Daí o marasmo.

Comemorações melhores ou piores? Diferentes. Cada uma refletindo momentos da cidade.


Dióres Santos Abreu é professor aposentado da Unesp de Presidente Prudente.







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