23 de agosto de 2017

Arquivo X, desenhos em plantações, a navalha de Ockham e o método científico

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I want to believe. Pluralitas non est ponenda sine neccesitate. Círculos apareceram em chácara de Prudentópolis, no interior do Paraná - Ufólogo afirma estar convencido de que é um sinal de extraterrestres [1]. 

Arquivo X, desenhos em plantações, a navalha de Ockham e o método científico


Afinal, por que essas frases aparentemente desconexas estão todas colocadas aqui? Até o final do texto espero que a conexão entre todas elas fique clara. Antes disso, vamos contar um pouco de história.

Parte da história relatada aqui foi retirada do livro do Carl Sagan "O Mundo Assombrado pelos Demônios" [2]. Na década de 70 apareceram pela primeira vez uns círculos estranhos em plantações. Esses círculos apareceram na Grã-Bretanha e depois se espalharam para outros lugares do mundo. 







A maioria dos desenhos possui grandes dimensões, de maneira que só é possível vislumbrar a figura completa a algumas dezenas de metros do chão. Os desenhos começaram como simples circunferências e hoje podem chegar a desenhos com níveis consideráveis de complexidade. 

Quando esses desenhos apareceram não havia uma explicação simples sobre eles: como foram feitos, qual o motivo de estarem nas plantações, qual o significado deles, etc. Não é preciso  muita imaginação para inferir qual foi a crença popular mais difundida a respeito disso: UFOS. Sim, alienígenas com uma tecnologia e sabedoria incríveis chegavam ao nosso planeta para se comunicar através de desenhos geométricos. Videntes e sensitivos atestavam esse fato e até detectaram uma "energia orgástica" no interior dos círculos, seja lá o que isso quer dizer. 

Em 1991, Doug Bower e Dave Chorley, de Southhampton, anunciaram que vinham fazendo a "pegadinha" dos desenhos há quinze anos. Eles disseram que planejaram a brincadeira tomando cerveja em um pub. Caso encerrado, portanto. Infelizmente, não. I want to believe.

Apesar de Bower e Chorley demonstrarem como fazer até os desenhos mais elaborados, os chamados "cerealogistas" (sim, existe sempre um especialista para qualquer coisa neste mundo. Neste caso tratam-se dos especialistas em desenhos em plantações ou agroglifos) reclamaram, pois Bower e Chorley estavam "roubando de muitos o prazer de imaginar acontecimentos extraordinários". A conclusão que podemos extrair da afirmação entre aspas é que não importa o quanto as coisas afrontem a nossa razão. Seja astrologia, numerologia, medicina quântica, homeopatia ou, neste caso, os agroglifos: as pessoas simplesmente querem acreditar. A máxima "I want to believe" do seriado dos anos 90 Arquivo X encaixa-se perfeitamente aqui.

Pluralitas non est ponenda sine neccesitate (a pluralidade não deve ser posta sem necessidade). Essa frase em latim é o cerne do princípio da "Navalha de Ockham". William de Ockham foi um filósofo inglês do século 14 e utilizou o princípio da simplicidade para eliminar hipóteses desnecessárias. Em outras palavras, se você possui duas teorias capazes de explicar um certo fenômeno, a teoria mais simples possui a maior probabilidade de ser a correta. No caso específico dos agroglifos, apesar dos criadores das peças até já terem demonstrado como fazê-las, ainda assim existem pessoas que acham mais verossímil a hipótese extraterrestre. E neste caso nem se tratam efetivamente de duas hipóteses.





Embora o filósofo Ockham tenha vivido no século 14, o termo "Navalha de Ockham" foi utilizado pela primeira vez no século 19 pelo matemático William Rowan Hamilton. Esse princípio, apesar de não ortodoxo, é comumente utilizado em ciência e associado a um reducionismo metodológico, onde as teorias científicas são elaboradas da maneira mais enxuta possível. 


A negação desse princípio, por exemplo, seria elaborar uma teoria onde o éter luminífero (o meio onde se propagariam as ondas eletromagnéticas) continuasse a existir, mesmo com experimentos atestando sua inexistência e a teoria em si não necessitar desse ingrediente adicional. Talvez essa característica econômica da natureza esteja associada à beleza e à "verdade", tão bem descritas em uma palestra do físico Murray Gell-Mann e sintetizada na frase "uma teoria bonita ou elegante é mais provável de estar correta do que uma teoria deselegante". 

Essa beleza, de acordo com Gell-Mann, está associada à capacidade de expressarmos a teoria concisamente utilizando a matemática.  Nessa palestra, Gell-Mann cita como exemplo uma teoria que ele havia elaborado em 1957 que estava em desacordo com sete experimentos, mas que mesmo assim ele decidiu publicar a teoria porque ela era bonita (não somente por isso), apostando que os experimentos estavam errados. De fato, os sete experimentos estavam errados. Murray Gell-Mann recebeu o Nobel de física em 1969. Essa palestra de Gell-Mann pode ser encontrada no Youtube [3].









[1] http://g1.globo.com/pr/campos-gerais-sul/noticia/2016/09/figuras-misteriosas-surgem-de-novo-em-lavoura-de-trigo-em-prudentopolis.html
[2] Carl Sagan, O Mundo Assombrado pelos Demônios, Companhia das Letras
[3] Murray Gell-Mann: Beauty and truth in physics https://www.youtube.com/watch?v=UuRxRGR3VpM


Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física teórica da Unesp




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