23 de agosto de 2017

A política além da ideologia: ódio e preconceito

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A política além da ideologia: ódio e preconceito

Há exatos 75 anos, em 22 de agosto de 1942, o Brasil de Getúlio Vargas, o mesmo que havia proibido a entrada de judeus no país, entrava oficialmente na Segunda Guerra Mundial para combater as forças nazistas e fascistas de Adolf Hitler e Benito Mussolini.

Hoje, passado tanto tempo, as redes sociais dão voz àqueles que propõem discussões cujo script é a dualidade das torcidas de futebol, não é segredo, com experts que brotam de todos os lugares e, com seus achismos muitas vezes catastróficos, espalham ódio e preconceito e incentivam a violência nos canais que fartamente chegam aos computadores e smartphones do cidadão comum.

Ao refletir sobre esta data, olhando para os últimos episódios dessa trama globalizada que envolve terrorismo, racismo, xenofobia e antissemitismo, destaco a marcha dos neonazistas e supremacistas brancos na pequena Charlottesville, nos Estados Unidos, que resultou em três vítimas e mais de 30 feridos, que em uma visão canalha e reducionista, brasileiros tentam se aproveitar do frágil momento político que o país atravessa para classificar Hitler e seu movimento nazista como um movimento de esquerda e capitalizar em favor de nossa novíssima ultra direita.






O assunto não é raso ou de simples compreensão, e passa por questões históricas como a Revolução Francesa, a Revolução Industrial, o que nos leva a considerar correntes que possuem base ideológica como o Iluminismo, o jacobinismo, o socialismo, o positivismo, o marxismo, o fascismo, o nazismo, o comunismo, o sindicalismo revolucionário... Há também de se considerar que a matriz da dualidade esquerda-direita remonta o contexto pré-Revolução Francesa e as posições na Assembleia Nacional daquele país: à direita, clero e nobreza; à esquerda, burguesia, camponeses e trabalhadores urbanos. Nos dias atuais a situação é bem diferente.

Ainda que no início do século XX esquerda e direita pudessem partilhar ideias comuns, o contexto histórico pós-Primeira Guerra, a decomposição da ordem social e da economia liberal, o advento da crise de 1929, o descrédito ao liberalismo, as novas tecnologias que permitiram o nascimento da “era das massas” fizeram com que houvesse uma ruptura, polarizando o cenário político, empurrando o ódio para os extremos, o que reforça o argumento de que regimes e ideologias situados nas margens opostas do espectro político se avizinham quando a linha política é remontada sobre a esfera.

Hitler e o Nazismo alemão não eram de esquerda. Nem Mussolini e o Fascismo italiano. Nem o Nacionalismo espanhol de Franco. Aqui, a questão não é ideológica e sim político-militar. Os líderes da Europa no contexto da Segunda Guerra lutavam contra a União Soviética e seu regime comunista, mas a adoção do regime totalitário em suas nações os colocaram em uma posição bastante próxima àquele regime, de esquerda, que suprimia as liberdades individuais. Se de um lado, as atrocidades do Holocausto jamais poderão ser esquecidas, de outro, os líderes Comunistas como Lênin, Stálin e Trotsky, na União Soviética e Pol Pot no Camboja, foram igualmente sanguinários, responsáveis por milhões de mortes, inclua-se aí o Holodomor, o genocídio ucraniano perpetrado pela União Soviética, ocasião em que milhões de pessoas morreram de fome. Nas Américas, podemos destacar as atrocidades de Fidel Castro e Augusto Pinochet, líderes totalitaristas que, ainda que estivessem de lados opostos no espectro político-ideológico, foram ditadores igualmente cruéis.

É necessário que, antes de tomar o nome do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, fundamentalmente antimarxista, como referência para discorrer sobre uma ideia da amplitude das crueldades perpetradas por Nazistas e Fascistas, somente para que dessa referência se possa desacreditar um determinado partido ou obter alguma vitória na guerra dos posts, o indivíduo busque compreender o quão completo é o espectro político, que conheça o Diagrama de Nolan, que entenda o quão sanguinário também foi o Comunismo, e mais, que ao assumir tal postura, tenha consciência de não estar sendo apenas mesquinho e leviano, mas de estar revelando publicamente sua ignorância e falta de conhecimento histórico, sobretudo o fato de que nem sempre existe lógica ou coerência no ambiente político: para vencer o Nazismo, as forças aliadas reuniram, dentre tantos outros, a comunista União Soviética, baluarte da esquerda; os Estados Unidos, potência capitalista e ideal de muitos governos de direita, e o Brasil, com suas fronteiras fechadas aos judeus.

João Paulo Vani é Presidente da Academia Brasileira de Escritores, Mestre em Teoria Literária e Doutorando em Letras pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da Unesp de São José do Rio Preto. Contato: jpvani@editorahn.com.br







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