17 de agosto de 2017

A Lealdade de Trump à Direita Alternativa

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A Lealdade de Trump à Direita Alternativa

“Não são os fatos que perturbam o homem, mas o modo como ele as interpreta”. Epíteto

Você sabe quem são David Duke? Richard Spencer? E Jared Taylor?  Estes são alguns dos nomes que inventaram ou se reinventaram como “direita alternativa” (“alt right” em inglês). Sem ela, Donald Trump dificilmente chegaria onde chegou. 

Os conservadores ou o establishment republicano, desde o princípio (e até hoje) manteve-se com pelo menos com um pé atrás de tudo que diz respeito à Trump. Embora sem dúvida, muitos conservadores receberam Trump em Washington D.C. com um sorriso no rosto e históricas reivindicações na ponta da língua e em numerosos dossiês e estudos.






E alguns otimistas não hesitam em comparar Trump com Reagan, alegando que o primeiro tal como o segundo por justamente não ser um político tradicional estaria mais disposto a ouvir e implementar uma agenda política de fato conservadora na teoria e na prática. Mesmo os neoconservadores demostram uma tentativa de trabalhar com 

Trump, uma vez que, este adota uma retórica mais agressiva e se mostra mais disposto a usar o poder militar americano na defesa e manutenção da ordem internacional.

Contudo, não precisamos pensar em alegorias shakespearianas, como no seu personagem Hamlet, para questionar se não há algo de podre no reino de Trump. Como bem sintetiza um dos professores do conservadorismo moderno dos EUA, Harvey C. Mansfield, Trump não é um “gentleman”. 

Isso quer dizer que, apesar de demostrar em vários momentos imensa ansiedade e necessidade de ser aceito e de se destacar, Trump age com uma imprevisibilidade que apenas faz aumentar a lista das gafes e incidentes políticos.  

Basta lembrar do “chega mais para lá” de Trump no primeiro ministro de Montenegro, para aparentemente ficar na frente para uma foto ou mesmo a recusa em cumprimentar Ângela Merkel em visita oficial aos EUA.  

Sua falta de boas maneiras, de protocolo diplomático ou mesmo a sensação que Trump ora pode elogiar e se aproximar de alguém para semanas de depois se afastar e ofende-lo o faz um presidente que facilmente se encaixa na definição de “populista”, “autocrata” ou no limite o afasta de uma definição clássica de “conservador” ou “republicano”. 

Autores como Dannel Malloy tentam fazer um contraponto, alegando que Trump seria apenas honesto demais e sincero como pessoa, o que poderia ajudar ou prejudicar a diplomacia americana.

Todavia, ouvindo as declarações de Trump sobre o que aconteceu em Charlottesville declarando ora que “'há culpa dos dois lados” ou que o “racismo é mal” ele pode estar sendo “honesto”, mas definitivamente está prejudicando os EUA e perdeu a oportunidade moral de dizer com todas as letras e em alto e bom som que os EUA não tolera a intolerância.

Tal postura apenas reafirma que Trump guarda no armário não um, mas vários “dr. jekyll´s”. Um deles pode ser sua simpatia por autocracias e autocratas como Vladmir Putin. Mais do que isso, Trump muitas vezes flerta com uma diplomacia autoritária que tentar dialogar com Filipinas, Turquia ou o emblemático casso russo. 

Outro monstro no armário é sua misoginia, atacando e ofendendo mulheres sejam jornalistas, presidentes, chanceleres de todas as culturas e em todos os lugares. Os eventos em Charlottesville em 11 e 12 de agosto de 2017, revelam um destes monstros que Trump tenta guardar no armário, mas não consegue manter sob pleno controle.  

Trata-se de sua relação com a extrema-direita em geral e com a chamada Direita Alternativa em especial. Pelo fato de Trump ser um estranho entre conservadores e ter uma retórica que muitas vezes é incendiaria nos leva a pensar no trânsito entre as suas ideias e ativistas “alt right” vistos em Charlottesville.  Steve Bannon é um dos assessores mais importantes e influentes e tem laços comprometedores com a direita alternativa. 

Durante sua pré-candidatura o Ku Klux Klan (KKK) declarou oficialmente apoio a Trump. Ele demonstrou um repudio honesto e veemente? Não! Ele desconversou, minimizou e no limite, disse desconhecer o que era o KKK. Na ocasião, muitos lembraram por exemplo que o pai de Trump, Fred, teve que se explicar à polícia por suposto envolvimento com o KKK em 1927.

Trump dificilmente conseguiria tirar votos de Hillary Clinton como tirou sem a máquina difamatória, cheia de trolls, memes, “fake News” e teorias conspiratórias que transformou “vozes marginais” em celebridades virtuais com milhões de leitores e seguidores. É o caso da Breitbart News por onde passou Bannon. Assim como também é caso dos blogs da direita alternativa, termo que ganhou o sentido contemporâneo graças à ativistas como Richard Spencer, Jared Taylor, Milos Yiannopoulos e Alex Jones. 

Há sem dúvida, grandes diferenças entre eles, mas em comum, todos ganharam visibilidade, influência e capacidade de mobilização política graças e surfando na ideia de “Make America Great Again” e no esforço de eleger Trump (e derrotar Hillary Clinton). No mais, Spencer e Taylor estavam em Charlosteville e gritando palavras de ordem racistas e fazendo saudações nazistas.

Da mesma forma que Trump até hoje é ambíguo em relação a sua relação com a Rússia e não consegue esconder sua simpatia a Putin, ele também tem sido ambíguo com a direita alternativa.  Esta ambiguidade apenas ficou explícita na sua reação a morte de uma mulher, 19 feridos e 2 policiais estaduais. 

De imediato, Trump condenou a violência de “ambos os lados” enfatizando que “ambos” os lados supostamente seriam violentos e não nomeou os “lados”. Foi preciso 48h, declarações de condenação fortes de vários lados e de vários atores políticos dos EUA e internacionais para Trump de forma “protocolar”, lendo uma declaração que talvez não foi escrita por ele, condenando o racismo e a violência dos grupos de ódio, citando supremacistas brancos, neonazistas e o KKK. 

Do outro lado da história, lideranças como David Duke, historicamente ligado ao KKK, declarou que, em Charlosteville, estavam a verdadeira base de Trump, aqueles que o apoiaram desde do início e que estão ansiosos para pôr em prática todas as promessas de Trump e assim “Make America Great Again”. 

Tal declaração de lealdade e apoio certamente deixa Trump confuso. Especialmente se somarmos a isso que base republicana e muitos conservadores estão lhe atacando.

Tal como Trump criticou a própria ação de seu governo de punir a Rússia por influenciar (e o favorecer) nas eleições americanas, não foi surpresa que menos de 24h depois Trump voltou à sua declaração original enfatizando a “violência dos dois lados” e indo além falando e condenando uma “esquerda alternativa” que hoje quer derrubar estátuas de heróis do Sul/Confederado para, amanhã, derrubar estatuas como as de Thomas Jeferson ou George Washington.  

Trump, que já chegou a igualar a “democracia americana” à “democracia russa”, me parece que logo igualará a Direita americana (e o conservadorismo americano) à Direita Alternativa.

Ariel Finguerut, doutor em Ciência Política pela Unicamp, é pesquisador do IEEI-Unesp.







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