8 de junho de 2017

Responsabilidade Social

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Responsabilidade Social


Um já consagrado Milton Friedman afirmou categoricamente que a missão social da empresa era ter lucro e que cumprindo essa missão o restante acabaria acontecendo. 

O restante, no caso, permaneceu suficientemente ambíguo para abarcar todo o tipo de externalidades negativas cometidas pelas empresas em seu processo de busca do lucro. Parte em função de sua presunção arrogante, parte em função da clareza com que a realidade se apresentou diferente – aquecimento global, poluição desenfreada, acidentes industriais de grande porte – Friedman contribuiu para dar nascimento a um forte movimento acadêmico, trasladado para a vida real, que tomou como objeto a responsabilidade social das empresas.

Passados quase mais de quarenta anos do início desse debate, responsabilidade social ganhou status acadêmico e empresarial, até em excesso, com o conceito virando rótulo e passando a enfrentar a banalização inerente aos termos que se usam demasiadamente. Mas responsabilidade social trouxe algumas balizas importantes, que passaram a compreender, inclusive, a avaliação institucional e mercadológica que se faz das empresas. As bolsas de valores, por exemplo, criaram novos mercados específicos para empresas que adotassem boas práticas de responsabilidade social, assumindo como premissa que, quando esse é o caso, as expectativas de sobrevivência e lucratividade são maiores.








O capitalismo de compadrio, que temos argumentado ser um dos elementos centrais na crise atual, provocada pela corrupção sistêmica, é uma distorção profunda dos princípios de responsabilidade social. Clausewitz disse que a guerra é a continuação da política por outros meios. As empresas buscam em seus compadres que a política seja a continuação da guerra mercadológica por outros meios. Temerosas de sua capacidade de resistência e sobrevivência em um ambiente capitalista de competição, ainda que regulada, mas competição, os empresários recorrem aos agentes públicos para sua proteção.

Diferentemente dos homens, as empresas descobriram a fórmula da juventude e alcançaram a imortalidade. Uma pessoa jurídica nunca morre e sua responsabilidade é limitada. Limite que se tornou tão tênue que quase invisível com o passo da criação das sociedades anônimas. Ocorre que, como as feiticeiras já sabem há muito, todo encantamento cobra um custo e algumas fórmulas da juventude, para manterem seus efeitos, precisam da renovação temporária de certos ritos e feitiços. O mesmo vale para as empresas: elas receberam a bênção da imortalidade e da sucessão perpétua, mas são cobradas a justificarem esse privilégio. Perdoe-nos Friedman, mas as empresas têm responsabilidade social sim!

As empresas são criaturas políticas, esferas da vida privada submetidas a um governo particular, cuja influência sobre o destino de bilhões de pessoas é incalculável. Contudo, o preparo ético e político dos seus dirigentes é escasso, tornaram-se, sem jamais ambicionar o papel, modelos sociais e éticos para o mundo. Friedman tinha razão quanto ao início: queriam apenas ganhar dinheiro. Mas, nesse processo tornaram-se grandes demais para poderem ignorar o, e serem ignoradas pelo, sistema político. Se o capitalismo é absolutamente irreligioso, como afirmou Keynes, o comércio é inefavelmente moral.

É incabível, no séc. XXI, que empresários e políticos se valham do argumento da institucionalidade como justificativa da corrupção, outorgando precedência às necessidades das empresas ou dos partidos aos mandamentos morais. A institucionalidade é uma bênção, como já afirmamos antes, porém inadmissível o efeito colateral da redução dos homens a dimensões peculiarmente aéticas e inumanas.

Curiosamente, os acadêmicos que estudam responsabilidade social estão silenciosos diante da crise atual. Talvez porque uma empresa como a JBS, que apresenta toda a sua face podre perante a sociedade, bem como a podridão de seus executivos, esteja classificada no novo mercado da Bovespa e se gabe de ter boas práticas de governança. Será?

André Rehbein Sathler é Economista, professor do Mestrado em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados.


Valdemir Pires é Economista, chefe do Departamento de Administração Pública da UNESP.


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