5 de junho de 2017

O que o torna o 'Sgt. Pepper's' dos Beatles um disco a ser lembrado?

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O que o torna o 'Sgt. Pepper's' dos Beatles um disco a ser lembrado?



Os 50 anos do disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, obra icônica dos Beatles, foram comemorados no final da semana passada. A data foi pontuada pelo lançamento mundial de caixas comemorativas e reedições luxuosas destinadas aos beatlemaníacos. Informam que cubanos comemoram numa praça pública de Havana. Nem o sargento deles, quando vivo, foi tão festejado espontaneamente.

Em aniversário de disco famoso, é difícil fugir do lugar comum: já disseram que se trata de um dos melhores discos de todos os tempos, o maior álbum de rock, a obra prima dos Beatles, que integra todas as listas dos top 10, que passou dezenas de semanas nas paradas de sucesso inglesas e americanas, que elevou os rapazes de Liverpool a um novo patamar em suas respectivas carreiras. Tudo isso você já leu nos últimos dias. Deve ser tudo verdade.

Mas se os Beatles gravaram vários discos memoráveis como Revolver ou Abbey Road, por que se comemorou tanto os 50 anos do Sargento Pimenta e sua banda? O que torna o disco grande e tão incensado anos depois?









Sgt. Pepper’s não é o álbum mais original dos Beatles, mas o que catalisou decisivamente as influências de uma cultura jovem (efervescente nos anos 60) e o experimentalismo do rock, dispondo-os em uma linguagem acessível ao grande público. Feito por qualquer outra banda do planeta, teria sido relegado ao esquecimento. Seu êxito foi ter sido gravado pela banda mais popular do planeta.

Os Beatles de 1967 já não eram crianças que se deixavam levar por vampiros como o empresário Brian Epstein e nem toleravam mais a ideia de uma coletividade indivisível. Os conflitos quase incessantes entre os rapazes revelavam a necessidade que tinham de reafirmar suas identidades em separado, outrora diluídas no coleguismo insuportável de anos anteriores. Somados aos constantes abusos das drogas e a chegada de Yoko Ono ao ambiente de trabalho do grupo, estava posta a mesa para o que seguiria até a separação em 1969.

Vamos ao essencial: é neste disco que eles adquirem o controle quase absoluto do processo de produção, gravação e divulgação da obra fonográfica, algo impensável à época, colocando uma multinacional poderosíssima como a EMI sob suas vontades criativas. Excentricidades como ficar pendurado de cabeça para baixo no estúdio, cantar com um microfone colado ao pescoço ou a malsucedida tentativa de John Lennon de cantar debaixo d’água (que poderia tê-lo matado de modo mais estúpido que Mark Chapman) são exemplos dessa liberdade forjada pelo sucesso sem precedentes. Sujeitos com tamanho menor que os Beatles não conseguiriam dispor de milhares de libras para satisfazer seus caprichos num meio controlado com mão de ferro por gente graúda.

O fato é que, àquela altura, os Beatles haviam conquistado uma independência inédita no mainstream musical para gravar o que queriam, escolher com quem poderiam contar nas suas gravações, com qual orçamento e por quanto tempo (eles passaram 4 meses em estúdio, algo improvável em um período em que os discos de rock deveriam ser feitos integralmente em poucos dias).

Quanto aos recursos presentes no disco, as explorações sonoras e do estúdio como um instrumento criativo (que eles começaram a desenvolver dois ou três anos antes), as parcerias e influências de diferentes músicos (indianos ou vanguardistas), foram alguns dos aspectos importantes para definir Sgt Pepper’s, mas nada exatamente novo. O “Freak Out!” de Frank Zappa tinha sido uma influência confessa para Paul McCartney, assim como o “Pet Sounds” dos Beach Boys, ambos lançados entre maio e junho de 1966. Bob Dylan já ocupava seu lugar no olimpo.

As ideias relacionadas às filosofias orientais, a contracultura e o que seria o movimento hippie permeavam a gravação, mas seriam brindadas mais explicitamente no disco dos Beatles seguinte, lançado no mesmo ano de 67, Magical Mystery Tour. Ambos acabariam embalando o “verão do amor” na America e na Grã-Bretanha.

Por fim, nem os elementos de psicodelia tampouco eram novidade na Inglaterra. De Jimi Hendrix ao Procol Harum, esse tipo de material circulava na cena londrina desde 1965, ao menos. “Tomorrow Never Knows”, a última faixa do disco Revolver (1965) já descarava os elementos psicodélicos na música dos Beatles e um número significativo de grupos do underground britânico já vocalizava estas aproximações. No entanto, nenhum deles possuía amplificação – leia-se dinheiro e publicidade – como os Beatles.

Em suma, os Beatles capitalizaram este caldo de cultura. Tinham um amplo público jovem e adolescente que compraria até um disco de polcas lançado pelo quarteto, motivo pelo qual o tipo de rock registrado em Sgt. Pepper’s penetrou tão facilmente nos ouvidos da classe média e operária, aproveitando-se do rescaldo da onda do iê-iê-iê. Dispunham de uma cadeia de produção e divulgação que lhes permitiu adentrar os quartos dos lisérgicos e dos caretas com a mesma facilidade.

O pacote completo faz parte da concertação que levou ao sucesso do álbum, inesquecível nos últimos cinquenta anos.  Ouça Sgt. Pepper’s como um álbum de ruptura dos Beatles. Dali em diante, eles jamais conseguiriam conciliar a antiga imagem de uma banda pop açucarada com suas aspirações individuais e os conflitos explícitos entre os membros do grupo. Nunca mais seria possível juntar as peças da engrenagem de sucesso Lennon-McCartney, que produzia hits enfileirados, um após o outro. O disco aponta para o princípio do fim dos Beatles. O resto é história.

Paulo Constantino é Músico e Doutor em Educação. Professor na Unesp Marília e atua na supervisão das escolas técnicas do Centro Paula Souza. Contatos: pconst2@gmail.com e facebook.com/paulorpconstantino








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